Como apagar um incêndio de forma eficaz e segura
Apagar um incêndio de forma correta exige conhecimento prévio, avaliação rápida da situação e escolha adequada dos meios de extinção. Um fogo mal combatido pode agravar-se em segundos, colocar vidas em risco e transformar uma situação controlável numa catástrofe. Em Portugal, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) e a legislação em vigor — nomeadamente o Regime Jurídico de Segurança Contra Incêndio em Edifícios (DL n.º 220/2008) e o Regulamento Técnico RT-SCIE (Portaria n.º 1532/2008, alterada pela Portaria n.º 135/2020) — estabelecem obrigações claras para a prevenção e o combate a incêndios. Conhecer os princípios fundamentais pode fazer a diferença entre deter um foco inicial e ter de evacuar em emergência.
O triângulo do fogo e os princípios de extinção
Um incêndio sustenta-se através de três elementos: combustível (material que arde), comburente (geralmente o oxigénio do ar) e energia de ativação (calor). A este conjunto chama-se o triângulo do fogo. Para extinguir um incêndio é necessário eliminar pelo menos um destes elementos:
- Arrefecimento — reduzir a temperatura abaixo do ponto de ignição, geralmente com água.
- Sufocação — cortar o fornecimento de oxigénio, cobrindo as chamas com espuma, areia ou CO₂.
- Remoção do combustível — afastar ou eliminar o material que alimenta o fogo.
- Inibição química — interromper a reação em cadeia da combustão, utilizando agentes como o pó químico seco.
Na prática, a maioria dos agentes extintores age através de uma combinação destes mecanismos.
Classes de incêndio: escolher o extintor certo
Em Portugal, os incêndios são classificados segundo a norma europeia em cinco classes, que determinam qual o extintor adequado:
- Classe A — Sólidos como madeira, papel, tecidos e alguns plásticos. Extintores de água, espuma ou pó ABC.
- Classe B — Líquidos inflamáveis como gasolina, tinta e álcool. Extintores de espuma, CO₂ ou pó ABC.
- Classe C — Gases inflamáveis como propano, butano e gás natural. Extintores de pó ABC; o primeiro passo é sempre cortar o fornecimento de gás.
- Classe D — Metais combustíveis como magnésio, titânio ou sódio. Extintores de pó específico para metais — nunca utilizar água.
- Classe F — Óleos e gorduras de cozinha a altas temperaturas. Extintores de agente químico húmido (classe K/F). Nunca utilizar água.
Além destas classes, os incêndios em equipamentos elétricos sob tensão exigem agentes extintores que não conduzam eletricidade, como o CO₂ ou o pó seco. Os extintores de água e espuma são inadequados nestas situações pelo risco elevado de choque elétrico.
Tipos de extintores e agentes extintores
Pó químico ABC
É o extintor mais comum e versátil em Portugal, adequado para fogos de classes A, B e C. Indicado para espaços domésticos, comerciais e industriais de uso geral. O pó atua principalmente por inibição química da combustão. A sua utilização em espaços fechados gera nuvens densas que reduzem a visibilidade e podem irritar as vias respiratórias.
Dióxido de carbono (CO₂)
Eficaz em fogos de classe B e em incêndios elétricos. Age por sufocação, deslocando o oxigénio, sem deixar resíduos — o que o torna preferível em ambientes com equipamentos informáticos, quadros elétricos ou laboratórios. Não deve ser utilizado em espaços muito confinados sem ventilação adequada, pois o CO₂ pode causar asfixia.
Espuma AFFF
Adequada para fogos de classe A e B. Cobre a superfície do combustível líquido formando uma barreira que corta o oxigénio. Não deve ser utilizada em equipamentos elétricos sob tensão.
Agente químico húmido (classe K/F)
Específico para fritadeiras e cozinhas profissionais, onde óleos e gorduras a altas temperaturas atingem pontos de ignição muito elevados. A sua fórmula cria um efeito saponificante que sela a superfície do óleo e arrefece rapidamente, impedindo a reignição.
A técnica PASS: como usar um extintor
A técnica universalmente recomendada para o uso correto de um extintor portátil assenta em quatro passos designados pela sigla PASS:
- P — Puxar o pino de segurança: retirar o lacre e puxar o pino que bloqueia a alavanca de acionamento.
- A — Apontar para a base das chamas: direcionar o bico ou mangueira para a base do fogo, nunca para as chamas em altura — o combustível está na base.
- S — Accionar a alavanca: comprimir a alavanca para libertar o agente extintor.
- S — Varrer de lado a lado: mover o jato de forma lenta e uniforme, cobrindo toda a área em chamas, até à extinção completa.
É fundamental manter sempre uma saída de emergência atrás de si, posicionar-se a favor do vento (com o vento nas costas) e nunca virar costas ao fogo antes de ter a certeza de que está completamente extinto.
Quando não tentar apagar o incêndio
Nem sempre combater o fogo diretamente é a atitude correta. A evacuação imediata é prioritária quando:
- O incêndio se propagou além do foco inicial e já ocupa mais do que alguns metros quadrados.
- Existem materiais perigosos ou gases envolvidos.
- O extintor disponível não é adequado à classe do fogo.
- O extintor está vazio ou inoperacional.
- A via de saída pode ser cortada se o incêndio progredir.
- Existe fumo denso que dificulte a respiração ou a visibilidade.
Nestas situações, a prioridade é acionar o alarme, ligar para o 112 e evacuar o edifício, fechando portas e janelas para retardar a propagação. Vidas humanas nunca devem ser arriscadas para salvar bens materiais.
Situações especiais
Incêndio na cozinha
Os fogos de cozinha estão entre os mais comuns e os mais perigosos quando mal geridos. Nunca se deve deitar água sobre azeite ou óleo a arder — a evaporação explosiva do vapor de água pode projetar o óleo em chamas sobre uma área muito alargada. A primeira medida é tapar a frigideira ou panela com uma tampa para sufocar as chamas e desligar a fonte de calor. Apenas se o fogo não for controlável com este método se deve recorrer a um extintor de classe F ou a um cobertor ignífugo.
Incêndio em instalações elétricas
Antes de qualquer ação, deve desligar-se a corrente elétrica no quadro geral, se for seguro fazê-lo. Utilizar exclusivamente extintores de CO₂ ou pó seco. A água, a espuma e os agentes aquosos são condutores de eletricidade e representam risco imediato de eletrocussão.
Incêndio em automóvel
Parar o veículo em local seguro, desligar o motor e evacuar todos os ocupantes para local afastado. Não abrir o capô de imediato — a entrada de oxigénio pode agravar as chamas. Se disponível, um extintor de pó ABC pode ser aplicado pelas fendas do capô. Ligar imediatamente o 112.
Manutenção e legislação em Portugal
A manutenção de extintores portáteis em Portugal é regulada pela Norma Portuguesa NP 4413:2019, que exige inspeção visual trimestral e manutenção anual obrigatória por empresa certificada pela ANEPC. Os extintores devem estar desobstruídos, sinalizados e facilmente acessíveis. O RT-SCIE define ainda a obrigatoriedade e a tipologia dos meios de primeira intervenção em edifícios, consoante a utilização e a categoria de risco do espaço. Em 2026, a fiscalização do cumprimento destas normas continua a ser da competência da ANEPC em Portugal continental, cabendo aos municípios a supervisão dos edifícios classificados na primeira categoria de risco. A inobservância pode implicar responsabilidade civil e criminal em caso de sinistro.
Perguntas frequentes
Posso usar água para apagar qualquer tipo de incêndio?
Não. A água é eficaz em fogos de classe A (sólidos combustíveis), mas é perigosa ou ineficaz noutras situações: em fogos de óleos quentes (classe F) provoca uma explosão de vapor que pode projetar óleo em chamas; em instalações elétricas sob tensão representa risco de eletrocussão; em fogos de certos metais (classe D) pode reagir violentamente com o combustível.
O que é o pino de segurança do extintor e para que serve?
O pino de segurança é um dispositivo que bloqueia a alavanca de acionamento do extintor, impedindo disparos acidentais. Para utilizar o extintor, é necessário retirar o lacre e puxar o pino antes de comprimir a alavanca.
Com que frequência deve ser feita a manutenção de um extintor em Portugal?
De acordo com a Norma Portuguesa NP 4413:2019, os extintores devem ser sujeitos a inspeção visual trimestral e manutenção anual obrigatória realizada por empresa certificada pela ANEPC. O incumprimento pode implicar responsabilidade legal em caso de sinistro.
Qual o extintor mais indicado para ter em casa?
Para uso doméstico, recomenda-se um extintor de pó químico ABC (6 kg) para uso geral, complementado por um extintor de classe F ou um cobertor ignífugo na cozinha. Os extintores de CO₂ são também adequados para zonas com equipamentos elétricos ou informáticos.
Quando devo evacuar em vez de tentar apagar o fogo?
Deve evacuar imediatamente se o incêndio tiver ultrapassado o foco inicial, se houver fumo denso, se não tiver o extintor adequado disponível ou se a saída puder ficar comprometida. A prioridade é sempre a segurança das pessoas. Ligue o 112 e evacue, fechando portas para retardar a propagação.