Como as ferrovias influenciam o turismo em 2026
As ferrovias desempenham um papel cada vez mais central na forma como as pessoas viajam e escolhem os seus destinos de férias. Longe de serem apenas um meio de transporte, os comboios tornaram-se, em 2026, um verdadeiro motor de turismo na Europa, impulsionando novos fluxos de visitantes, revitalizando regiões menos acessíveis e oferecendo uma alternativa mais sustentável ao avião em distâncias médias. O crescimento dos comboios noturnos, a expansão da alta velocidade e o regresso de rotas históricas colocam o transporte ferroviário no centro das estratégias de mobilidade turística do continente.
Porque é que as ferrovias impulsionam o turismo
O comboio influencia o turismo de várias formas simultâneas. Em primeiro lugar, reduz o tempo de viagem entre cidades, tornando viável visitar dois ou três destinos numa única deslocação, algo que se reflete diretamente no aumento de estadias curtas e escapadinhas de fim de semana. Em segundo lugar, liga diretamente centros urbanos, evitando os tempos de deslocação até aeroportos e os processos de checkpoint associados às viagens aéreas. Por último, o próprio percurso ferroviário passou a ser, em muitos casos, parte da experiência turística: paisagens, comboios panorâmicos e serviços a bordo com restaurante ou bar transformam a viagem num destino em si mesma, não apenas num meio para lá chegar.
Este fenómeno é reforçado por uma mudança de comportamento entre viajantes, sobretudo os mais jovens, que privilegiam opções com menor pegada carbónica. A União Europeia tem vindo a reposicionar a ferrovia como eixo central da mobilidade sustentável, apoiando investimentos em novas linhas e em ligações transfronteiriças que antes dependiam quase exclusivamente do avião.
O regresso e a expansão dos comboios noturnos
Um dos sinais mais visíveis da influência das ferrovias no turismo em 2026 é o renascimento dos comboios noturnos europeus. A operadora European Sleeper assumiu a ligação Paris–Berlim, via Bruxelas, a partir de 26 de março de 2026, com uma extensão a Hamburgo prevista para julho, criando um corredor direto para viajantes que seguem depois rumo às capitais escandinavas. A mesma empresa lançou também, a partir de junho, uma rota noturna entre Amesterdão, Bruxelas e Milão, com paragem em Stresa, junto ao Lago Maggiore, uma localidade turística que passa assim a beneficiar de acesso direto a partir de grandes centros urbanos do norte da Europa.
Também em 2026 entrou em funcionamento uma ligação direta entre Praga e Copenhaga, resultado de uma parceria entre a Deutsche Bahn, as ferrovias dinamarquesas (DSB) e as ferrovias checas (ČD), com paragens em Dresden, Hamburgo e Berlim. O trajeto, servido pelos novos comboios ComfortJet equipados com restaurante, bar e Wi-Fi, demora cerca de onze horas entre Copenhaga e Praga. Estas novas rotas não servem apenas quem já viaja por lazer entre estas cidades: ao eliminar a necessidade de ligações aéreas ou de múltiplas mudanças de comboio, tornam destinos secundários mais acessíveis e atrativos para turistas internacionais.
Alta velocidade: menos tempo de viagem, mais visitantes
A expansão da alta velocidade continua a ser o fator com maior impacto direto no turismo de curta e média distância. Na Áustria, a nova linha Koralmbahn reduziu o tempo de viagem entre Graz e Klagenfurt de quase três horas para apenas 45 minutos, aproximando duas regiões turísticas que antes eram vistas como destinos separados. Em Itália, a conclusão da ligação entre Tortona e Génova, prevista para 2026, encurta o tempo de viagem entre a costa da Ligúria e o polo ferroviário de Milão, facilitando escapadelas à costa a partir de um dos maiores centros urbanos do país.
Também é esperado o regresso, em 2026, da ligação direta entre Budapeste e Belgrado, suspensa desde 2019 para obras de modernização de mil milhões de euros. O plano prevê seis ligações diárias, duas das quais em serviço de alta velocidade EuroCity com ligação a Viena, o que deverá reforçar o turismo entre a Hungria, a Sérvia e a Áustria. No final de 2026, a Deutsche Bahn e a SNCF lançam ainda um novo serviço de alta velocidade entre Paris e Munique, com paragens em Estugarda, Karlsruhe e Augsburgo.
O caso português: alta velocidade a caminho
Portugal está também a investir na ligação entre a ferrovia e o turismo internacional. Está prevista a entrada em operação, em 2026, do troço de alta velocidade entre Évora e Caia, um dos passos da estratégia ibérica para ligar Lisboa a Madrid. O calendário aponta para uma viagem de cerca de cinco horas entre as duas capitais até 2030, e de aproximadamente três horas, já em alta velocidade plena, até 2034. Paralelamente, o início da construção do troço Porto-Oiã, previsto para janeiro de 2026, deverá permitir reduzir a viagem entre Lisboa e o Porto para cerca de 1h15 quando concluído, em 2030.
Estas ligações têm um impacto direto no turismo interno e transfronteiriço: ao aproximar Lisboa, Porto e Madrid, tornam viável visitar mais do que um destino numa mesma viagem e reforçam a competitividade do comboio face ao avião nestas rotas, com benefícios adicionais em termos de sustentabilidade e coesão territorial.
Passes ferroviários e o turismo de mochila
Os passes Interrail e Eurail continuam a ser um dos instrumentos mais relevantes do turismo ferroviário europeu. Em 2023, o Interrail atingiu um recorde de vendas, com 1,2 milhões de passes comprados, um crescimento de 25% face ao ano anterior, refletindo o interesse crescente por viagens multi-país sem recurso ao avião. Lançado em 1972, o programa permite explorar 33 países europeus com um único bilhete, e continua a atrair sobretudo viajantes jovens e turistas de longa duração, que tendem a distribuir o seu consumo turístico por várias regiões em vez de se concentrarem num único destino.
Em 2026, surgiu ainda a plataforma Railee, criada para simplificar o planeamento de viagens com passe Interrail, permitindo reservar troços específicos com antecedência e organizar itinerários de forma mais eficiente. Este tipo de ferramenta reduz uma das principais barreiras ao turismo ferroviário — a complexidade logística de combinar vários operadores nacionais — e tende a aumentar a procura por rotas menos óbvias.
Perguntas frequentes
Por que motivo o turismo ferroviário está a crescer na Europa?
O crescimento resulta da combinação entre novas linhas de alta velocidade, o regresso de comboios noturnos transfronteiriços, a preocupação crescente com a pegada carbónica das viagens aéreas e o investimento da União Europeia na ferrovia como eixo de mobilidade sustentável.
Quais são as novas rotas de comboio noturno disponíveis em 2026?
Em 2026 destacam-se a reativação da ligação Paris–Berlim, a nova rota Amesterdão–Bruxelas–Milão, e a ligação direta entre Praga e Copenhaga, operada em parceria entre a Deutsche Bahn, a DSB e a ČD.
Quando fica pronta a ligação de alta velocidade entre Lisboa e Madrid?
A viagem entre Lisboa e Madrid deverá demorar cerca de cinco horas a partir de 2030, com o troço Évora-Caia a entrar em operação já em 2026, e reduzir-se a cerca de três horas em alta velocidade plena até 2034.
O que é o passe Interrail e porque é relevante para o turismo?
O Interrail é um passe ferroviário que permite viajar por 33 países europeus com um único bilhete. Em 2023 registou um recorde de 1,2 milhões de passes vendidos, refletindo o peso crescente do turismo ferroviário, sobretudo entre viajantes jovens.
A alta velocidade Porto-Lisboa vai afetar o turismo interno em Portugal?
Sim. Com a conclusão do troço Porto-Oiã, prevista para 2030, a viagem entre as duas cidades deverá demorar cerca de 1h15, tornando mais viável combinar visitas a ambas as cidades numa mesma estadia.