Como os dinossauros se espalharam pelos continentes
Há cerca de 230 milhões de anos, os dinossauros surgiam num único supercontinente: a Pangeia. Durante os 165 milhões de anos seguintes, colonizaram todas as massas terrestres do planeta, desde as zonas equatoriais até às altas latitudes, tornando-se o grupo dominante de vertebrados terrestres da Era Mesozoica. Compreender como se espalharam exige conhecer a história da tectónica de placas, as variações climáticas e os padrões de dispersão que a paleontologia tem vindo a reconstituir com crescente rigor — com novas descobertas em 2024 e 2025 a refinar significativamente o quadro.
A origem nas latitudes médias de Gondwana
Durante décadas, o consenso científico apontava para o sudoeste de Gondwana — a região que corresponde hoje à Argentina e ao Brasil — como o berço dos dinossauros, com base nos fósseis mais antigos então conhecidos: Eoraptor lunensis e Herrerasaurus ischigualastensis, datados de cerca de 231 a 228 milhões de anos. No entanto, investigação mais recente questiona este modelo. Um estudo publicado em 2025 pelo Natural History Museum de Londres sugere que os primeiros dinossauros poderão ter evoluído nas latitudes médias de Gondwana — possivelmente nas zonas que correspondem hoje ao norte de África e à América do Sul —, antes de irradiarem tanto para o sul de Gondwana como para Laurásia.
A descoberta de Mbiresaurus raathi no Zimbabué, em 2022 — o dinossauro africano mais antigo conhecido, com cerca de 230 milhões de anos —, reforça esta hipótese. Este animal, um sauropodomorfo primitivo aparentado dos futuros gigantes de pescoço longo, vivia a latitudes médias onde o clima era mais temperado e húmido. Em 2024, a descrição de Musankwa sanyatiensis, também do Zimbabué e datado de aproximadamente 210 milhões de anos, confirmou que a diversidade de dinossauros em África durante o Triássico tardio era já considerável.
O Triássico: barreiras climáticas num mundo unido
A paradoxal dificuldade de expansão dos primeiros dinossauros reside no facto de, apesar de a Pangeia ser uma massa continental contínua, a faixa equatorial ser extremamente árida. Imensos desertos tropicais funcionavam como barreira tão eficaz quanto qualquer oceano: os dinossauros dos primeiros tempos estavam confinados a zonas de clima mais fresco e húmido, nas latitudes médias, impedidos de atravessar para o hemisfério oposto.
Esta situação mudou por volta dos 215 milhões de anos, durante o Triássico tardio, quando uma melhoria climática gradual tornou as regiões de baixa latitude mais habitáveis. A partir desse momento, os dinossauros começaram a dispersar-se para norte, penetrando em Laurásia. No final do Triássico, as faunas de dinossauros tinham adquirido um carácter essencialmente cosmopolita: grupos semelhantes ocorriam em quase todos os continentes, favorecidos pela continuidade terrestre e pela relativa uniformização climática da Pangeia.
O Jurássico: expansão global e início da fragmentação
A extinção em massa que marcou a transição Triássico-Jurássico, há cerca de 201 milhões de anos, eliminou grande parte dos competidores ecológicos dos dinossauros, abrindo nichos que estes rapidamente ocuparam. É no Jurássico que o grupo atinge a sua primeira fase de verdadeiro cosmopolitismo global, com sauropodomorphos, terópodes e ornitísquios a distribuírem-se por todas as massas terrestres acessíveis.
Foi também durante o Jurássico que a Pangeia começou a fragmentar-se em dois grandes blocos: Laurásia a norte (futuros América do Norte, Europa e Ásia) e Gondwana a sul (futuros América do Sul, África, Índia, Austrália e Antárctida). Esta divisão não foi imediata nem estanque: persistiram conexões terrestres temporárias e intermitentes que permitiram trocas faunísticas durante o Jurássico médio e tardio. A presença de sauropodes diplodocídeos tanto na América do Norte como em África, por exemplo, aponta para contactos directos entre as duas regiões nessa época.
O Cretácico: isolamento, endemismo e faunas regionais
À medida que o Cretácico avançava (145–66 milhões de anos), a separação dos continentes tornava-se cada vez mais pronunciada. A abertura do Atlântico Sul separou progressivamente a América do Sul de África; a Índia iniciou a sua viagem independente pelo Oceano Índico; a Austrália e a Antárctida permaneceram ligadas no sul enquanto se afastavam de África. O isolamento geográfico produziu o fenómeno da vicariância: populações de um mesmo grupo ancestral, separadas por barreiras físicas intransponíveis, evoluíram de forma independente, dando origem a linhagens endémicas distintas.
Na América do Norte, o Mar Interior Ocidental — um vasto braço de mar que dividia o continente de norte a sul entre há 100 e 66 milhões de anos — separou duas províncias faunísticas: Laramídia a oeste e Apalácica a leste. Os tiranossaurídeos e ceratopsídeos do Cretácico tardio eram em grande medida endémicos de Laramídia. Na Europa, então um arquipélago de ilhas, o isolamento favoreceu o nanismo insular: os titanossauros anões da ilha de Haţeg, na actual Roménia, são um exemplo paradigmático.
Mesmo assim, o isolamento não foi absoluto. Dispersões ocasionais através de pontes terrestres efémeras ou de corredores pouco profundos continuaram a acontecer. A presença de titanossauros no norte de África, como Mansourasaurus shahinae descoberto no Egito, sugere trocas faunísticas com a Europa através da região tética, quando o Mar de Tétis ainda não tornava a ligação completamente impossível.
Os mecanismos de dispersão
A biogeografia dos dinossauros é explicada por dois processos complementares. O primeiro é a vicariância: à medida que os continentes se separavam, populações outrora ligadas ficavam isoladas e evoluíam por caminhos independentes. O segundo é a geodispersão: quando novas ligações terrestres se formavam — pelo recuo do nível do mar, pela colisão de placas ou pelo surgimento de arquipélagos —, os animais podiam atravessá-las e colonizar novos territórios.
Além da tectónica, o clima desempenhou um papel estruturante. Os grandes ciclos climáticos do Mesozoico determinavam quais as rotas de dispersão disponíveis e quais os ecossistemas receptivos à chegada de novos grupos. A distribuição dos tiranossauroides, por exemplo, foi cosmopolita no Jurássico e foi progressivamente fragmentada no Cretácico à medida que os continentes divergiam, com as formas mais derivadas (tiranossaurídeos) a tornarem-se essencialmente restritas à América do Norte e à Ásia oriental.
Descobertas recentes e fronteiras do conhecimento
Em 2024, uma revisão abrangente publicada na revista Biology Letters da Royal Society consolidou os padrões biogeográficos conhecidos e identificou lacunas importantes: África subsaariana, sul da Ásia e sudeste asiático continuam sub-representados no registo fóssil, o que introduz enviesamentos na compreensão global da dispersão dos dinossauros. Em 2025, estudos sobre megaraptores e titanossauros europeus reforçaram a ideia de que a distribuição cosmopolita anterior ao Cretácico tardio foi seguida de um fracionamento acelerado com o avanço da separação continental. As descobertas em curso no Zimbabué, na Argentina e no norte de África sublinham que o mapa da expansão global dos dinossauros continua a ser reescrito a cada nova escavação.
Perguntas frequentes
Em que continente surgiram os primeiros dinossauros?
Os fósseis mais antigos confirmados foram encontrados na América do Sul (Argentina) e em África (Zimbabué), apontando para uma origem nas latitudes médias do supercontinente Gondwana, há aproximadamente 230–235 milhões de anos. Modelos recentes de 2025 sugerem que o ponto de origem poderá ter sido uma região de baixa latitude que corresponde hoje ao norte de África e à América do Sul.
Como chegaram os dinossauros a continentes separados por oceanos?
Durante grande parte do Mesozoico, os continentes estavam ainda ligados ou muito próximos, permitindo migrações terrestres. Onde existiam barreiras marinhas, alguns grupos podem ter atravessado por arquipélagos de ilhas ou por pontes temporárias criadas pela queda do nível do mar. A maioria das distribuições intercontinentais é, porém, explicada pela separação de populações já presentes antes da fragmentação continental — o processo denominado vicariância.
Por que razão diferentes continentes tinham dinossauros diferentes no Cretácico?
À medida que a Pangeia se fragmentava, populações isoladas em continentes separados evoluíram de forma independente ao longo de dezenas de milhões de anos. Este processo explica por que os dinossauros do Cretácico tardio da América do Norte, como o Tyrannosaurus rex e o Triceratops, são muito distintos dos da América do Sul, África ou Ásia, apesar de terem ancestrais comuns no Jurássico.
Havia dinossauros na Antárctida?
Sim. Fósseis de dinossauros foram descobertos na Antárctida, incluindo sauropodes e terópodes. Durante o Mesozoico, a Antárctida estava ligada à América do Sul e à Austrália e tinha um clima muito mais quente do que hoje, o que tornava habitáveis ecossistemas com fauna diversificada.
O que impediu os dinossauros de se espalharem rapidamente no início?
A principal barreira não eram os oceanos, mas o clima. No Triássico, uma vasta faixa equatorial árida impedia os dinossauros de atravessar de um hemisfério para o outro. Só por volta dos 215 milhões de anos, com uma melhoria climática que tornou as latitudes tropicais mais húmidas e habitáveis, foi possível a dispersão para o norte da Pangeia.