Antissemitismo: o que é, origens e evolução histórica
O antissemitismo é o preconceito, a hostilidade ou a discriminação dirigidos contra pessoas de origem ou religião judaica, manifestando-se através de estereótipos negativos, perseguições, violência e exclusão social. Considerado uma das formas mais persistentes de ódio étnico e religioso da história ocidental, o antissemitismo atravessou milénios, adaptou a sua linguagem e justificações a diferentes contextos — religioso, racial, político — e continua a registar índices preocupantes em 2026, tanto na Europa como noutras regiões do mundo.
Etimologia e definição
O termo «antissemitismo» foi introduzido e popularizado pelo jornalista e panfletário alemão Wilhelm Marr em 1879. Marr pretendia substituir a palavra alemã Judenhass («ódio ao judeu») por uma expressão de aparência científica, aproveitando a linguagem da época que classificava os povos em grupos «semitas» e «arianos». Embora o termo «semita» designe linguisticamente um conjunto mais vasto de línguas e povos do Médio Oriente — incluindo árabes e outros grupos —, no contexto do antissemitismo refere-se exclusivamente aos judeus.
A definição atualmente mais adotada a nível institucional é a da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla inglesa), aprovada em 2016: «O antissemitismo é uma determinada perceção dos judeus, que pode ser expressa como ódio para com os judeus.» Esta definição foi adotada por 26 dos 27 estados-membros da União Europeia, bem como por países como o Brasil, a Argentina, o Reino Unido e os Estados Unidos.
Origens na Antiguidade
A hostilidade em relação aos judeus antecede em muito a cunhagem do termo moderno. Nas antigas civilizações da Babilónia, da Grécia e de Roma, os judeus eram frequentemente vistos com suspeita ou hostilidade devido à recusa de adotar as práticas religiosas e culturais dos povos dominantes. No Império Romano, a resistência judaica à assimilação e os conflitos políticos em torno da Judeia alimentaram tensões que culminaram na destruição do Segundo Templo de Jerusalém em 70 d.C. e na diáspora forçada de grande parte da população judaica.
O antissemitismo religioso na Idade Média
Com a consolidação do Cristianismo como religião oficial do Império Romano, no século IV, o antissemitismo adquiriu uma nova dimensão teológica. Os judeus passaram a ser acusados de «deicídio» — a morte de Jesus Cristo —, argumento que alimentou durante séculos a perseguição religiosa. Na Europa medieval, foram sujeitos a restrições legais severas: proibição de possuir terras, obrigatoriedade de residir em bairros segregados (os guetos) e exclusão de diversas profissões. Em simultâneo, floresceram os chamados «libelos de sangue» — acusações infundadas de que os judeus usavam sangue cristão em rituais —, que estiveram na origem de massacres e pogromis em diversas cidades europeias.
Em 1290, os judeus foram expulsos de Inglaterra; em 1306, de França; em 1492, a Espanha ordenou a expulsão de todos os judeus que não se convertessem ao Catolicismo, num decreto que forçou a saída de cerca de 200 000 pessoas. Portugal seguiu medida semelhante em 1496, embora com conversões forçadas em larga escala, dando origem à figura do cristão-novo e à persistente vigilância inquisitorial que o acompanhou.
O antissemitismo racial nos séculos XIX e XX
Com o Iluminismo e a emancipação judaica nos séculos XVIII e XIX, os judeus obtiveram progressivamente igualdade legal em vários países europeus. Paradoxalmente, foi neste contexto que emergiu uma nova forma de antissemitismo: o antissemitismo racial. Em vez de assentar em argumentos religiosos, passou a basear-se em pseudo-ciências como a eugenia e a «higiene racial», que classificavam os judeus como uma «raça» biologicamente inferior e ameaçadora para a suposta «pureza» europeia.
Wilhelm Marr foi um dos primeiros sistematizadores desta ideologia. Outros teóricos, como Houston Stewart Chamberlain, e posteriormente Adolf Hitler, desenvolveram estas ideias num quadro político virulento. O caso Dreyfus em França (1894–1906) — em que um oficial judaico foi falsamente acusado de traição e condenado — revelou até que ponto o antissemitismo racial já havia penetrado nas instituições europeias.
O Holocausto
O ponto mais extremo do antissemitismo moderno foi o Holocausto (Shoah), o genocídio perpetrado pelo regime nazi alemão durante a Segunda Guerra Mundial (1939–1945). Através de um aparelho burocrático e industrial de extermínio, o Terceiro Reich assassinou cerca de seis milhões de judeus — aproximadamente dois terços da população judaica europeia — em campos de concentração e de extermínio como Auschwitz-Birkenau, Treblinka e Sobibor. O Holocausto é hoje reconhecido como um dos maiores crimes contra a humanidade alguma vez cometidos, e a sua negação é crime em vários países europeus, incluindo a Alemanha, a França e a Áustria.
Formas contemporâneas e situação em 2026
Após a Segunda Guerra Mundial e a criação do Estado de Israel em 1948, o antissemitismo não desapareceu, mas assumiu novas formas. Para além das manifestações mais tradicionais — vandalismo de sinagogas e cemitérios judaicos, ameaças físicas, discurso de ódio —, surgiram variantes modernas: a negação ou relativização do Holocausto, teorias conspirativas sobre um suposto controlo judaico dos meios de comunicação, das finanças ou dos governos, e certas formas de antissemitismo que se disfarçam de crítica política ao Estado de Israel.
Os dados mais recentes indicam uma tendência crescente e preocupante. Na sequência dos ataques de 7 de outubro de 2023 em Israel e do subsequente conflito em Gaza, registou-se uma vaga de incidentes antissemitas sem precedentes nas últimas décadas. Em França, os incidentes aumentaram cerca de 1 000% nos três meses após outubro de 2023 — mais do que a soma total dos três anos anteriores. No Reino Unido, o número quase sextuplicou no mesmo período. Nos Países Baixos, o aumento foi de 818% no mês seguinte ao ataque, comparado com a média mensal dos três anos precedentes.
Na Alemanha, a associação de monitorização RIAS registou 8 725 casos de antissemitismo em 2025, o que equivale a uma média de 24 incidentes por dia; 68% tinham relação com a questão israelo-palestiniana. A Agência da União Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA) registou um aumento de até 400% na atividade antissemita em vários países da UE após o início do conflito em Gaza. Em 2026, o Eurobarómetro indica que mais de metade dos europeus reconhece o antissemitismo como um problema grave nos seus países, com a perceção especialmente elevada em França, Itália e Suécia.
O antissemitismo contemporâneo tem também uma forte expressão digital: o ódio online dirigido a judeus prolifera em redes sociais e plataformas de vídeo, tornando a moderação de conteúdos um desafio persistente para reguladores e empresas tecnológicas.
Combate ao antissemitismo
A resposta institucional ao antissemitismo passa por instrumentos legais, educativos e diplomáticos. A União Europeia adotou em 2021 uma estratégia específica de combate ao antissemitismo e de fomento da vida judaica, com objetivos até 2030. A IHRA coordena a memória do Holocausto e a investigação sobre o tema a nível internacional. A educação sobre a Shoah é obrigatória em vários sistemas de ensino europeus, e o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, assinalado a 27 de janeiro — data da libertação de Auschwitz —, é reconhecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas desde 2005. Em Portugal, o antissemitismo pode ser punido ao abrigo do artigo 240.º do Código Penal, que criminaliza a incitação ao ódio e à discriminação com base na origem étnica ou religião.
Perguntas frequentes
O que significa exatamente o termo «antissemitismo»?
Antissemitismo é o preconceito, o ódio ou a discriminação dirigidos especificamente contra judeus. O termo foi cunhado em 1879 pelo alemão Wilhelm Marr para substituir a expressão alemã «ódio ao judeu» por uma linguagem de aparência científica. Embora «semita» designe um grupo linguístico mais vasto, no contexto do antissemitismo refere-se exclusivamente a pessoas de origem ou religião judaica.
Quando surgiu o antissemitismo?
A hostilidade contra os judeus remonta à Antiguidade, com registos de perseguições nos impérios babilónico, grego e romano. O antissemitismo religioso cristão intensificou-se a partir do século IV e dominou a Idade Média europeia. No século XIX surgiu uma variante racial e pseudocientífica que viria a culminar no Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial.
Como se manifesta o antissemitismo hoje em dia?
O antissemitismo contemporâneo manifesta-se através de ataques físicos, vandalismo, discurso de ódio (incluindo online), negação do Holocausto e teorias conspirativas sobre os judeus. Os dados de 2025–2026 indicam um aumento significativo, sobretudo na Europa, na sequência do conflito israelo-palestiniano iniciado em outubro de 2023.
O que é a definição IHRA de antissemitismo?
A Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) adotou em 2016 a definição mais amplamente reconhecida: «O antissemitismo é uma determinada perceção dos judeus, que pode ser expressa como ódio para com os judeus.» Esta definição foi adotada por 26 dos 27 estados-membros da UE e por dezenas de outros países.
O antissemitismo é crime em Portugal?
Sim. Em Portugal, o antissemitismo pode ser punido ao abrigo do artigo 240.º do Código Penal, que criminaliza o discurso de ódio e a incitação à discriminação, ao ódio ou à violência com base na origem étnica ou na religião. A negação do Holocausto, quando constitui incitação ao ódio, é igualmente passível de punição criminal.