CCitopendia

O que provoca a seca severa no Chifre de África

Publicado 6. março 2025 Atualizado 30. junho 2026

O que provocou a seca severa no Chifre da África?

O Chifre de África — região que engloba sobretudo a Somália, a Etiópia e o Quénia, além do Djibuti e da Eritreia — atravessa em 2026 mais um período de seca severa, prolongamento de uma crise climática que já dura mais de uma década. A escassez de chuva resulta da combinação de fenómenos oceânicos naturais, como o La Niña e o Dipolo do Oceano Índico, com o efeito amplificador das alterações climáticas de origem humana, a que se somam fatores estruturais como a degradação dos solos, a desflorestação e os conflitos armados na região.

A causa imediata: padrões oceânicos que cortam a chuva

A precipitação no Chifre de África depende em grande medida de dois ciclos das duas principais "épocas de chuvas" da região: as long rains (chuvas longas, entre março e maio) e as short rains (chuvas curtas, entre outubro e dezembro). Estes ciclos são fortemente influenciados pela temperatura da superfície dos oceanos Pacífico e Índico.

O fenómeno La Niña — a fase fria do ciclo El Niño-Oscilação Sul (ENSO) — tende a reduzir a precipitação no leste de África, ao contrário do que acontece, por exemplo, na Austrália ou no sudeste asiático. Desde 2010, a região registou oito épocas de chuvas falhadas, contra apenas três efetivamente húmidas, um padrão associado de forma recorrente a episódios de La Niña e a fases negativas do Dipolo do Oceano Índico (IOD), um mecanismo que altera a diferença de temperatura entre o Índico ocidental e oriental e que, quando negativo, também reduz a chuva no leste africano. No final de 2025 e início de 2026, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou um novo episódio de La Niña, agravando ainda mais o défice de chuva já acumulado nas épocas falhadas de 2024 e 2025. Dados mais recentes, de maio de 2026, apontam para uma viragem do Pacífico equatorial, com possível regresso de condições de El Niño já entre junho e agosto de 2026, o que poderá alterar o padrão de precipitação nos próximos meses, mas não inverte de imediato os efeitos já sentidos no terreno.

O papel das alterações climáticas

Estudos de atribuição climática, incluindo análises do consórcio World Weather Attribution, têm mostrado que a variabilidade natural do La Niña, por si só, não explica a severidade desta seca. O fator decisivo é o aumento das temperaturas globais, que intensifica a evapotranspiração — a perda de água do solo e das plantas para a atmosfera. Mesmo quando cai alguma chuva, o calor extra "seca" o solo mais depressa, agravando a chamada seca agrícola, isto é, a falta de água disponível para culturas e pastagens.

Segundo essas análises, secas agrícolas como a que atinge atualmente a região tornaram-se cerca de cem vezes mais prováveis devido às alterações climáticas, e a falha das chuvas longas é hoje aproximadamente duas vezes mais provável do que seria num clima sem aquecimento global de origem humana. Por outras palavras: os mecanismos naturais (La Niña, IOD) determinam quando a chuva falha, mas o aquecimento global determina a intensidade e a frequência cada vez maiores com que isso acontece.

Fatores que agravam a vulnerabilidade no terreno

A escassez de chuva por si só não explicaria uma crise humanitária desta dimensão. Vários fatores estruturais tornam as populações do Chifre de África particularmente expostas:

  • Degradação ambiental e desflorestação: décadas de desflorestação, sobrepastoreio e uso insustentável da terra reduziram a capacidade dos solos para reter água e resistir a períodos secos prolongados.
  • Dependência da agricultura e pastorícia de subsistência: grande parte da população vive de chuvas regulares para cultivar alimentos ou manter gado, o que torna a economia local extremamente sensível a qualquer falha sazonal.
  • Conflitos armados e instabilidade: na Somália, em particular, a presença de grupos armados como o al-Shabab dificulta o acesso humanitário e desloca populações para zonas ainda mais vulneráveis.
  • Subfinanciamento da resposta humanitária: em 2025, menos de um terço das necessidades humanitárias identificadas na região foi financiado; em 2026, o Plano de Resposta Humanitária da Somália recebeu até agora apenas cerca de 13% do montante necessário.

Qual é o impacto humano em 2026

As consequências desta seca prolongada são severas. Estima-se que entre 24,5 e 26 milhões de pessoas na Somália, na Etiópia e no Quénia precisem de assistência alimentar de urgência em meados de 2026. Na Somália, mais de 6,5 milhões de pessoas — cerca de um em cada quatro habitantes — enfrentam níveis elevados de insegurança alimentar aguda, com mais de dois milhões em fase de emergência (IPC Fase 4), o nível que precede a fome declarada. Na Etiópia, as perdas de produção agrícola atingiram 54% em East Hararghe e 34% em West Hararghe devido ao défice de chuva. No Quénia, entre três e 3,5 milhões de pessoas necessitam de ajuda alimentar entre outubro de 2025 e maio de 2026.

A crise da água é também extrema: mais de 58 milhões de pessoas na região carecem de acesso fiável a água potável. Em algumas zonas da Somália, o preço de um jerrycan de água aumentou mais de 2000% num ano, passando de cerca de 0,06 dólares para até 1,50 dólares.

Esta seca é diferente da crise de 2021-2023?

O Chifre de África já tinha enfrentado, entre outubro de 2020 e início de 2023, a pior seca em 40 anos, com cinco épocas de chuva consecutivas falhadas. Embora as chuvas tenham regressado parcialmente em 2023, os anos seguintes voltaram a registar défices significativos, e a seca atual surge assim não como um episódio isolado, mas como mais uma fase de um padrão climático cada vez mais instável na região, que alterna entre secas prolongadas e episódios de cheias igualmente destrutivas.

Perguntas frequentes

Quais são os países mais afetados pela seca no Chifre de África?

Os mais afetados são a Somália, a Etiópia e o Quénia, com a Somália a registar a situação mais grave em termos de insegurança alimentar. Também o Djibuti e a Eritreia integram a região do Chifre de África e sofrem impactos relacionados.

O La Niña é a única causa da seca?

Não. O La Niña e o Dipolo do Oceano Índico negativo explicam a redução natural da chuva, mas estudos de atribuição mostram que as alterações climáticas, ao aumentar a evapotranspiração e as temperaturas, tornam estas secas muito mais frequentes e intensas do que seriam sem o aquecimento global.

Quantas pessoas precisam de ajuda alimentar em 2026?

Estima-se que entre 24,5 e 26 milhões de pessoas na Somália, na Etiópia e no Quénia necessitem de assistência alimentar de urgência em meados de 2026, segundo dados de organizações humanitárias e do sistema de monitorização FEWS NET.

A situação vai melhorar nos próximos meses?

Previsões da Organização Meteorológica Mundial, divulgadas em maio de 2026, apontam para um possível regresso de condições de El Niño entre junho e agosto de 2026, o que poderia favorecer mais chuva na região. No entanto, mesmo que as chuvas regressem, a recuperação das colheitas, dos rebanhos e do acesso à água tende a ser lenta e o financiamento humanitário continua muito aquém das necessidades.

Que papel tem a desflorestação na seca?

A desflorestação e a degradação dos solos reduzem a capacidade do território para reter água, aumentam a erosão e tornam as comunidades mais vulneráveis a cada nova falha de chuva, agravando os efeitos das causas climáticas diretas.

{"@context":"https://schema.org","@type":"FAQPage","mainEntity":[{"@type":"Question","name":"Quais são os países mais afetados pela seca no Chifre de África?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"Os mais afetados são a Somália, a Etiópia e o Quénia, com a Somália a registar a situação mais grave em termos de insegurança alimentar. Também o Djibuti e a Eritreia integram a região do Chifre de África e sofrem impactos relacionados."}},{"@type":"Question","name":"O La Niña é a única causa da seca?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"Não. O La Niña e o Dipolo do Oceano Índico negativo explicam a redução natural da chuva, mas estudos de atribuição mostram que as alterações climáticas, ao aumentar a evapotranspiração e as temperaturas, tornam estas secas muito mais frequentes e intensas do que seriam sem o aquecimento global."}},{"@type":"Question","name":"Quantas pessoas precisam de ajuda alimentar em 2026?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"Estima-se que entre 24,5 e 26 milhões de pessoas na Somália, na Etiópia e no Quénia necessitem de assistência alimentar de urgência em meados de 2026, segundo dados de organizações humanitárias e do sistema de monitorização FEWS NET."}},{"@type":"Question","name":"A situação vai melhorar nos próximos meses?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"Previsões da Organização Meteorológica Mundial, divulgadas em maio de 2026, apontam para um possível regresso de condições de El Niño entre junho e agosto de 2026, o que poderia favorecer mais chuva na região. No entanto, mesmo que as chuvas regressem, a recuperação das colheitas, dos rebanhos e do acesso à água tende a ser lenta e o financiamento humanitário continua muito aquém das necessidades."}},{"@type":"Question","name":"Que papel tem a desflorestação na seca?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"A desflorestação e a degradação dos solos reduzem a capacidade do território para reter água, aumentam a erosão e tornam as comunidades mais vulneráveis a cada nova falha de chuva, agravando os efeitos das causas climáticas diretas."}}]}

Artigos relacionados