Por que a Grande Barreira de Coral está a diminuir
A Grande Barreira de Coral, localizada ao largo da costa nordeste da Austrália e reconhecida como Património Mundial da UNESCO, é o maior sistema de recifes de coral do mundo, estendendo-se por mais de 2300 quilómetros e abrigando uma biodiversidade marinha de escala planetária. Apesar da sua dimensão colossal, o ecossistema encontra-se em declínio acelerado: em 2025, o Instituto Australiano de Ciências Marinhas (AIMS) confirmou que a cobertura de coral atingiu o maior declínio anual desde o início da monitorização sistemática, há 39 anos. Cientistas alertam para a possibilidade de um colapso irreversível antes do final desta década, caso as tendências atuais se mantenham.
O branqueamento de coral: o mecanismo do declínio
O coral não é apenas uma estrutura rochosa — é um animal que vive em simbiose com algas microscópicas chamadas zooxantelas. Estas algas residem nos tecidos do coral e fornecem até 90% da sua energia através da fotossíntese, conferindo-lhe simultaneamente a coloração característica. Quando a temperatura da água do mar sobe acima do limiar tolerado pelo coral durante um período prolongado, este expulsa as zooxantelas em resposta ao stress térmico. O resultado é o branqueamento: o coral fica branco, perde a sua principal fonte de alimentação e, se a temperatura não baixar rapidamente, morre.
O branqueamento não é em si a morte do coral, mas é o precursor dela. Um coral branqueado pode recuperar se as condições voltarem ao normal em semanas. Se o stress térmico persistir, a mortalidade é praticamente inevitável. A questão central é que os intervalos entre eventos de branqueamento estão a encolher, deixando cada vez menos tempo para a recuperação.
Alterações climáticas: a causa estrutural
As alterações climáticas de origem antropogénica são identificadas pela comunidade científica como a principal causa do declínio da Grande Barreira de Coral. O aquecimento global está a elevar as temperaturas médias dos oceanos, tornando as ondas de calor marítimas mais frequentes, mais intensas e mais duradouras.
A Grande Barreira de Coral sofreu seis eventos de branqueamento em massa desde 2016 — 2016, 2017, 2020, 2022, 2024 e 2025 —, em contraste com apenas dois registados nas duas décadas anteriores. Em 2024-2025, desencadeou-se o quarto evento global de branqueamento em massa de coral da história, afetando recifes em todo o mundo. Na Grande Barreira, as temperaturas oceânicas situaram-se entre 1 e 2,5 graus Celsius acima da média durante o verão austral de 2025, criando condições de stress térmico prolongado e sem precedentes históricos na magnitude dos danos.
O branqueamento de 2025 foi ainda mais significativo por ter ocorrido simultaneamente na Grande Barreira de Coral e em Ningaloo — os dois recifes classificados como Património Mundial na Austrália —, uma coincidência que nunca tinha sido documentada antes.
Os dados do declínio em 2024-2025
O relatório anual do AIMS, publicado em agosto de 2025 com base em levantamentos de 124 recifes entre agosto de 2024 e maio de 2025, apresenta números que traduzem a magnitude da crise:
- Região norte (de Cape York a Cooktown): a cobertura de coral desceu de 39,8% para 30%, uma perda de cerca de um quarto em apenas um ano.
- Região central (de Cooktown a Proserpine): declínio de 33,2% para 28,6%, uma redução de aproximadamente 14%.
- Região sul (de Proserpine a Gladstone): queda de 38,9% para 26,9%, o maior declínio proporcional das três regiões, de mais de 30%.
No conjunto, 48% dos recifes monitorizados registaram um declínio na cobertura de coral, 42% não apresentaram alteração líquida e apenas 10% mostraram crescimento. Perto da Ilha Lizard, na região norte, alguns recifes individuais perderam até 70% da sua cobertura de coral num único verão. Os declínios nas regiões norte e sul foram os maiores registados num único ano desde o início da monitorização.
Estes números apagam cinco anos de recuperação gradual que tinham gerado algum otimismo após os eventos de branqueamento de 2016 e 2017. O ecossistema recuperara terreno entre 2021 e 2023 — apenas para ver esses ganhos eliminados em dois anos consecutivos de branqueamento intenso.
Outras ameaças: estrela-do-mar, escoamento agrícola e ciclones
Embora as alterações climáticas constituam a ameaça dominante, o declínio da Grande Barreira de Coral resulta também de outros fatores que interagem com o stress térmico e agravam os seus efeitos.
A estrela-do-mar coroa-de-espinhos
A Acanthaster planci, vulgarmente conhecida como estrela-do-mar coroa-de-espinhos, é um predador natural do coral que, em condições normais, faz parte do equilíbrio ecológico do recife. No entanto, quando a sua população explode em surtos periódicos, o impacto pode ser devastador: durante uma infestação — definida como 15 ou mais indivíduos por hectare —, estas estrelas-do-mar conseguem eliminar 90% do tecido vivo de um recife. Estima-se que tenham sido responsáveis por quase metade do declínio da cobertura de coral até 2012.
A proliferação destes organismos está associada ao excesso de nutrientes na água, por sua vez ligado ao escoamento agrícola proveniente das áreas costeiras. O Governo australiano investiu 161,4 milhões de dólares australianos no controlo desta espécie entre 2022 e 2030, através de programas de erradicação manual nos recifes prioritários.
Qualidade da água e escoamento agrícola
A agricultura intensiva nas bacias hidrográficas adjacentes à Grande Barreira de Coral gera escoamento de sedimentos, nutrientes (azoto e fósforo) e pesticidas que chegam ao recife através dos rios. Este escoamento degrada a qualidade da água, reduz a penetração da luz solar necessária para as zooxantelas e favorece a proliferação de algas que competem com o coral pelo espaço. A combinação de má qualidade da água com stress térmico fragiliza ainda mais a capacidade de recuperação dos recifes após eventos de branqueamento.
Ciclones tropicais
A Grande Barreira de Coral está também sujeita ao impacto físico direto de ciclones tropicais, que danificam mecanicamente as estruturas de coral, em particular nas regiões norte e central. Embora os ciclones sejam fenómenos naturais, a sua intensidade tende a aumentar em oceanos mais quentes, potenciando os danos causados.
Perspetivas para 2026 e o risco de ponto de não retorno
Em 2026, cientistas e organismos de monitorização alertam para um cenário de crescente irreversibilidade. O AIMS sublinha que a janela temporal entre eventos catastróficos está a tornar-se demasiado curta para que os corais se reproduzam, cresçam e recuperem a densidade perdida. Se um novo episódio de aquecimento extremo ocorrer antes de os recifes mais afetados terem tido tempo de se restabelecer, poderão atingir um ponto de não retorno — um limiar a partir do qual a recuperação natural deixa de ser possível.
A comunidade científica é unânime em afirmar que a única solução estrutural é a redução drástica e urgente das emissões de gases com efeito de estufa à escala global. Sem uma limitação do aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, as projeções indicam que entre 70% e 90% dos recifes de coral do mundo — incluindo a Grande Barreira — sofrerão danos irreversíveis ainda no presente século.
Perguntas frequentes
O que é o branqueamento de coral e por que causa a morte do recife?
O branqueamento ocorre quando a temperatura da água sobe acima do limiar suportado pelo coral, fazendo com que este expulse as algas (zooxantelas) que vivem nos seus tecidos e que lhe fornecem a maior parte da energia. Sem essas algas, o coral fica branco e debilitado; se o stress térmico persistir por semanas ou meses, o coral morre por inanição e por exposição a doenças.
Quantas vezes sofreu a Grande Barreira de Coral um branqueamento em massa?
Desde 2016, a Grande Barreira de Coral sofreu seis eventos de branqueamento em massa: em 2016, 2017, 2020, 2022, 2024 e 2025. Antes de 2016, apenas dois eventos desta magnitude tinham sido registados, nas décadas de 1980 e 1990.
Quais são as percentagens atuais de cobertura de coral na Grande Barreira?
De acordo com o relatório do AIMS de agosto de 2025, a cobertura de coral desceu para 30% na região norte, 28,6% na região central e 26,9% na região sul — os declínios anuais mais acentuados desde o início da monitorização sistemática, há 39 anos.
Além do aquecimento global, que outros fatores ameaçam a Grande Barreira de Coral?
Entre as ameaças complementares contam-se os surtos da estrela-do-mar coroa-de-espinhos (que pode destruir 90% do coral vivo de um recife durante uma infestação), a degradação da qualidade da água por escoamento agrícola (sedimentos, nutrientes e pesticidas) e os danos físicos causados por ciclones tropicais.
A Grande Barreira de Coral pode recuperar?
A recuperação é possível se os eventos de stress cessar durante períodos suficientemente longos. No entanto, com branqueamentos consecutivos em 2024 e 2025, o tempo de recuperação está a ser suprimido. Cientistas alertam que, sem redução drástica das emissões globais de CO₂, o recife poderá atingir um ponto de não retorno a partir do qual a regeneração natural deixa de ser viável.