Orient Express: porque é o ícone das viagens de luxo
Poucos nomes evocam tanto glamour e nostalgia como o Orient Express. Mais de um século depois da sua primeira viagem, o comboio continua a ser sinónimo de viagem de luxo, elegância e aventura, tendo sobrevivido a guerras, ao declínio do transporte ferroviário e à concorrência da aviação para se reinventar, em 2026, como uma marca global que abrange comboios, hotéis e até iates. Compreender por que motivo o Orient Express continua a ser um ícone exige olhar para a sua história, para o imaginário literário que ajudou a construir e para a forma como diferentes operadores o mantêm vivo na atualidade.
As origens de um mito ferroviário
O Orient Express nasceu em 1883, criado pela companhia belga Compagnie Internationale des Wagons-Lits (CIWL), com o objetivo de ligar Paris a Constantinopla (atual Istambul) em menos de 76 horas, uma proeza para a época. O comboio rapidamente se tornou um símbolo de modernidade e requinte, transportando diplomatas, aristocratas, espiões e homens de negócios numa Europa em plena transformação. A abertura do túnel do Simplon, em 1919, permitiu consolidar uma rota mais direta entre Calais, Paris, Milão, Veneza, Belgrado e Sófia, dando origem ao chamado Simplon-Orient-Express, considerado a sua primeira "idade de ouro".
A idade de ouro e a ligação a Agatha Christie
Durante as décadas de 1920 e 1930, o Orient Express atingiu o auge do luxo: carruagens em estilo Art Déco, madeiras nobres, vitrais, serviço de mesa em porcelana fina e uma clientela que incluía monarcas, escritores e figuras públicas. Foi precisamente nessa época que o comboio se tornou cenário de um dos romances policiais mais famosos de sempre, "Assassinato no Expresso do Oriente" (1934), de Agatha Christie, que viajou várias vezes no comboio real. A obra, adaptada repetidamente para cinema e televisão, fixou para sempre o Orient Express no imaginário coletivo como sinónimo de mistério, sofisticação e viagem de eleição.
Declínio e quase desaparecimento
Depois da Segunda Guerra Mundial, com o avanço da aviação comercial e das autoestradas, o serviço original perdeu progressivamente clientes e prestígio. O nome "Orient Express" continuou a ser usado para diferentes ligações ferroviárias reduzidas e simplificadas, cada vez mais distantes do esplendor original, até que o último serviço direto Paris-Istambul com esse nome foi suspenso em 1977, marcando simbolicamente o fim da era clássica.
O renascimento: Venice Simplon-Orient-Express
O mito não morreu, em grande parte graças ao empresário norte-americano James Sherwood, que na década de 1980 comprou e restaurou várias carruagens históricas da CIWL, recuperando-as ao detalhe — desde a marcheteria às lâmpadas de cobre — para criar o Venice Simplon-Orient-Express (VSOE), atualmente operado pela Belmond (do grupo LVMH). Em 2026, o VSOE continua a ser o rosto mais conhecido do Orient Express clássico, com rotas como Londres-Veneza, Paris-Istambul (numa viagem anual de vários dias) e novas ligações a Portofino e à Costa Amalfitana, mantendo o serviço de cabines de madeira, jantares de gala e o ambiente Art Déco original.
O novo Orient Express da Accor: o que muda em 2026
Paralelamente, o grupo hoteleiro Accor adquiriu os direitos da marca "Orient Express" e está a preparar o lançamento de um comboio inteiramente novo, previsto para o final de 2026. O projeto recupera 17 carruagens históricas da década de 1920-1930, antes conhecidas como "Nostalgie-Istanbul-Orient-Express", restauradas pelo arquiteto francês Maxime d'Angeac, conhecido pelo seu fascínio por Hemingway, Agatha Christie e pela colecionadora de arte Peggy Guggenheim. Entre as novidades destaca-se uma Suite Presidencial de 55 metros quadrados, ocupando uma carruagem inteira, com entrada privada, e um bar com cúpulas de vidro inspiradas no estilo Segundo Império, sustentadas por colunas de bronze. Os trajetos exatos e os preços ainda não foram totalmente divulgados.
La Dolce Vita e a expansão para além dos carris
Outra frente da reinvenção da marca chama-se La Dolce Vita Orient Express, que entrou em serviço em Itália em 2025 e, ao longo de 2026, tem operado em itinerários esgotados pela Toscânia, pela costa da Ligúria e por Veneza, além de uma nova rota entre Roma e Palermo, evocando a estética italiana dos anos 1960. A marca Orient Express já não se limita aos comboios: em abril de 2026 foi apresentado em Saint-Nazaire o Orient Express Corinthian, descrito como o maior veleiro de luxo do mundo, com 54 suites e direção gastronómica do chef Yannick Alléno, que deverá começar a navegar entre Lisboa e as Caraíbas ainda este ano. A marca soma ainda hotéis de assinatura em cidades como Roma e Veneza.
Porque continua a ser o ícone máximo do luxo
O estatuto do Orient Express assenta em vários fatores que se reforçam mutuamente:
- História centenária: poucas marcas de viagem podem reivindicar 143 anos de existência contínua, ainda que com interrupções.
- Imaginário literário e cinematográfico: a associação a Agatha Christie e a múltiplas adaptações cinematográficas mantém viva a aura de mistério e glamour.
- Artesanato e exclusividade: as carruagens restauradas, o trabalho de marcheteria, os têxteis e o serviço personalizado distinguem-se claramente da hotelaria e do transporte de massas.
- Capacidade de reinvenção: ao expandir-se para hotéis e iates, a marca deixou de depender apenas dos carris, ampliando o seu alcance junto de uma nova geração de viajantes de luxo.
- Exclusividade de preço: bilhetes que ascendem a vários milhares de euros por pessoa reforçam o posicionamento como experiência aspiracional, não um simples meio de transporte.
Em suma, o Orient Express é hoje menos um comboio do que uma marca-conceito: o nome que, desde 1883, continua a representar a ideia de que viajar pode ser, em si mesmo, um destino.
Perguntas frequentes
O Orient Express ainda existe em 2026?
Sim. Existem atualmente várias versões em funcionamento: o Venice Simplon-Orient-Express, operado pela Belmond, o La Dolce Vita Orient Express em Itália, e um novo comboio da Accor com lançamento previsto para o final de 2026, além do iate de luxo Orient Express Corinthian.
O Orient Express faz hoje a rota original Paris-Istambul?
O Venice Simplon-Orient-Express realiza, ao longo do ano, uma viagem especial de vários dias entre Paris e Istambul, mas a maioria dos itinerários atuais concentra-se em trajetos europeus mais curtos, como Londres-Veneza ou Paris-Veneza.
Qual é a ligação entre o Orient Express e Agatha Christie?
Agatha Christie viajou várias vezes no comboio real e usou-o como cenário do romance "Assassinato no Expresso do Oriente" (1934), o que ajudou a consolidar a imagem do Orient Express como símbolo de mistério e sofisticação.
Quem é o proprietário atual da marca Orient Express?
Os direitos da marca pertencem ao grupo hoteleiro Accor, enquanto o serviço Venice Simplon-Orient-Express é operado pela Belmond, atualmente integrada no grupo LVMH.
Quanto custa viajar no Orient Express?
Os preços variam consoante o trajeto e o tipo de cabine, mas tipicamente situam-se entre alguns milhares de euros por pessoa para viagens curtas até valores mais elevados em suites presidenciais ou trajetos longos como Paris-Istambul.