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Tratados entre indígenas e colonos: história e principais acordos

Publicado 10. dezembro 2024 Atualizado 28. junho 2026

Quais foram os principais tratados entre índios e colonos?

Ao longo de vários séculos de contacto entre povos europeus e populações nativas das Américas, foram celebrados inúmeros acordos formais destinados a regular relações de paz, comércio e posse de território. Estes tratados — firmados maioritariamente na América do Norte entre tribos indígenas e colónias europeias, e posteriormente com os Estados Unidos — constituem um dos capítulos mais complexos da história colonial. Estimam-se em mais de 368 os tratados assinados entre o governo federal norte-americano e nações indígenas entre a Revolução Americana e o fim da Guerra Civil, sendo que a grande maioria acabou por ser violada pela parte colonizadora.

Contexto histórico: porque se faziam tratados

Para as potências coloniais europeias — Inglaterra, França, Países Baixos, Espanha e Portugal —, os tratados com povos indígenas serviam propósitos pragmáticos: garantir passagem segura por territórios desconhecidos, estabelecer alianças militares contra rivais europeus e legitimar formalmente a ocupação de terras. Para as nações indígenas, estes acordos representavam, em teoria, proteções legais e reconhecimento da sua soberania. Na prática, o desequilíbrio de forças e a pressão demográfica e militar crescente tornaram a maioria destes tratados acordos transitórios, rapidamente postos em causa à medida que a colonização avançava.

Na América do Norte britânica, a negociação de tratados tornou-se um instrumento central de política. Ao contrário da expansão espanhola e portuguesa — que raramente produziram acordos formais com povos nativos e assentou mais na conquista militar e na conversão religiosa —, as colónias inglesas recorreram com frequência a instrumentos jurídicos escritos para regular a coexistência com as populações locais.

Os primeiros tratados coloniais

O Tratado de Plymouth (1621)

Um dos primeiros acordos documentados foi firmado a 22 de março de 1621 entre o governador John Carver, da colónia de Plymouth, e Massasoit, líder dos Wampanoag, no atual Massachusetts. O tratado estabelecia uma aliança de paz mútua, com ambas as partes a comprometer-se a não atacar a outra e a punir eventuais violações. Esta aliança durou cerca de 54 anos e foi fundamental para a sobrevivência dos colonos nos primeiros anos da colónia. A sua ruptura culminou na devastadora Guerra do Rei Filipe (1675-1676).

Os tratados de William Penn com os Delaware (1683 e 1701)

William Penn, fundador da Pensilvânia, distinguiu-se pela abordagem negociada com a nação Lenape (Delaware). Em 1683, celebrou um tratado de amizade e comércio junto ao rio Delaware, comprometendo-se a pagar pelas terras e a respeitar os direitos dos nativos. Em 1701, o Treaty of Friendship reafirmou esses princípios. Penn é frequentemente citado como exceção na história colonial, tendo procurado relações de igualdade relativa — ainda que as gerações seguintes de colonos da Pensilvânia tenham abandonado esses princípios.

O Tratado de Albany (1722)

Firmado entre as colónias inglesas do nordeste e a Confederação Iroquesa (Haudenosaunee), o Tratado de Albany de 1722 foi um dos acordos de aliança mais duradouros da era colonial. A Confederação, composta por seis nações — Mohawk, Oneida, Onondaga, Cayuga, Seneca e Tuscarora —, manteve durante décadas uma posição de parceria estratégica com os britânicos, condicionando o equilíbrio de poder na região dos Grandes Lagos.

O período pós-revolucionário e os tratados de Hopewell

Após a independência americana (1776), o novo governo dos Estados Unidos necessitou de redefinir as relações com as nações indígenas que tinham, em muitos casos, apoiado a coroa britânica. Entre 1785 e 1786, foram assinados os Tratados de Hopewell — na Carolina do Sul — com as nações Cherokee, Choctaw e Chickasaw. Estes acordos procuravam estabelecer fronteiras entre territórios americanos e indígenas e garantir a soberania tribal dentro das suas terras. Na realidade, a pressão dos colonos brancos e a fraqueza do governo federal sob os Artigos da Confederação tornou estes tratados praticamente inoperantes.

Em 1794, o Tratado de Canandaigua foi assinado com as Seis Nações da Confederação Iroquesa. Os Estados Unidos reconheciam formalmente a soberania Haudenosaunee sobre determinados territórios em Nova Iorque e Pensilvânia. Este tratado permanece juridicamente ativo até hoje, com o governo americano a enviar anualmente tecido às nações signatárias como símbolo do acordo.

A era dos grandes tratados das Planícies (1851-1868)

O Tratado de Fort Laramie (1851)

Assinado a 17 de setembro de 1851 entre comissários do governo dos EUA e representantes de oito nações — Sioux, Cheyenne, Arapaho, Crow, Assiniboine, Mandan, Hidatsa e Arikara —, o Tratado de Fort Laramie de 1851 (também conhecido como Tratado de Horse Creek) tinha como objetivos principais legalizar a passagem de colonos pela Trilha do Oregon e promover a paz intertribal. Em contrapartida, os EUA comprometiam-se a pagar uma anuidade de 50.000 dólares durante 50 anos. O tratado foi violado quase de imediato, com a chegada de mineiros e colonos ao território indígena. Em 1854, o Exército americano detonou o Incidente de Grattan, matando um chefe Sioux, desfazendo definitivamente o acordo.

O Tratado de Medicine Lodge (1867)

Negociado com tribos do sul das Planícies — Comanche, Kiowa, Arapaho do Sul e Cheyenne do Sul —, o Tratado de Medicine Lodge pretendia confinar estas nações em reservas no atual Oklahoma. Em troca, o governo prometia apoio alimentar, material agrícola e escolas. As condições impostas — sedentarização forçada, abandono da caça ao bisonte e escolarização das crianças — foram amplamente resistidas pelas tribos, conduzindo a novos conflitos nas décadas seguintes.

O Tratado de Fort Laramie (1868)

Considerado um dos mais significativos da história americana, o Tratado de Fort Laramie de 1868 foi assinado entre abril e novembro desse ano com a nação Sioux Lakota, liderada por figuras como Nuvem Vermelha (Red Cloud). O acordo criou a Grande Reserva Sioux, que incluía as Colinas Negras (Black Hills) — território sagrado para os Lakota — e reconhecia vastas extensões como "território indígena não cedido". Em 1874, a expedição de George Custer descobriu ouro nas Colinas Negras; a afluência de mineiros e a recusa do governo em cumprir o tratado conduziram à Guerra das Colinas Negras e à Batalha de Little Bighorn (1876). Os EUA confiscaram as Colinas Negras em 1877, numa violação flagrante do tratado de 1868 que o Supremo Tribunal americano reconheceu em 1980, atribuindo uma indemnização de 106 milhões de dólares — recusada pela nação Sioux, que continua a exigir a devolução das terras.

O fim da era dos tratados e as suas consequências

Em 1871, o Congresso dos EUA aprovou uma disposição que pôs fim à política de tratar as nações indígenas como soberanias independentes com quem se podiam celebrar tratados formais. A partir desse momento, as relações passaram a ser reguladas por legislação unilateral. Os tratados já existentes mantinham validade teórica, mas na prática a política de assimilação forçada — culminando com a Lei Dawes de 1887, que fragmentou as reservas em propriedades individuais — destruiu grande parte do que havia sido garantido por escrito.

Na América Latina, o modelo foi substancialmente diferente. Em contextos como o Brasil, a coroa portuguesa raramente celebrou tratados formais com povos indígenas; a política colonial assentou na catequização jesuíta, na escravização e na guerra. Os acordos diplomáticos que afetaram populações nativas neste contexto foram sobretudo tratados entre potências europeias — como o Tratado de Madrid de 1750 entre Portugal e Espanha —, cujas redelimitações territoriais forçaram deslocamentos de comunidades inteiras, como aconteceu com os Guaranis nas Missões, que resistiram na chamada Guerra Guaranítica (1754-1756).

Legado e reconhecimento contemporâneo

Em 2026, o debate sobre o cumprimento dos tratados históricos com povos indígenas permanece vivo nos sistemas jurídicos e políticos dos Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia e outros países com tradições semelhantes. Organizações indígenas continuam a invocar tratados do século XVIII e XIX em tribunais para defender direitos territoriais, de pesca e de caça. A Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (2007) reforçou a relevância destes instrumentos históricos no direito internacional contemporâneo.

Perguntas frequentes

Qual foi o primeiro tratado formal entre indígenas e colonos europeus?

O Tratado de Plymouth, assinado em março de 1621 entre o governador John Carver e o líder Wampanoag Massasoit, é considerado um dos primeiros acordos formais documentados. Estabeleceu uma aliança de paz e assistência mútua entre a colónia e a nação indígena, tendo durado cerca de 54 anos.

Quantos tratados foram assinados entre os EUA e nações indígenas?

Entre o fim da Guerra de Independência e o período pós-Guerra Civil, os Estados Unidos assinaram aproximadamente 368 tratados com nações indígenas. Em 1871, o Congresso pôs fim à prática de celebrar novos tratados, passando a legislar unilateralmente sobre assuntos indígenas.

Os tratados com povos indígenas foram respeitados?

Na grande maioria dos casos, não. Os tratados eram frequentemente violados pela parte americana ou europeia, sobretudo quando havia interesse económico ou pressão de colonos nas terras cedidas. O Supremo Tribunal dos EUA reconheceu em 1980 que a confiscação das Colinas Negras aos Sioux em 1877 constituiu uma violação ilegal do Tratado de Fort Laramie de 1868.

O que aconteceu ao fim da era dos tratados em 1871?

Com a Lei de Dotações de 1871, o Congresso americano determinou que as nações indígenas deixavam de ser reconhecidas como potências independentes com quem o governo poderia firmar tratados. As relações passaram a ser reguladas por leis federais, o que retirou às nações indígenas a sua posição jurídica de soberanos e acelerou as políticas de assimilação forçada nas décadas seguintes.

Existiram tratados semelhantes na América do Sul?

Na América do Sul, os acordos formais entre potências europeias e povos indígenas foram raros. A expansão colonial portuguesa e espanhola assentou maioritariamente na conquista, na conversão religiosa e na exploração de trabalho nativo. Os tratados com impacto indígena neste contexto foram, sobretudo, acordos entre a Espanha e Portugal — como o Tratado de Madrid (1750) — que redesenharam fronteiras sem consultar as populações indígenas afetadas.

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