CCitopendia

Jasão e os Argonautas: o mito grego do Velocino de Ouro

Publicado 22. junho 2025 Atualizado 28. junho 2026

Jasão e os Argonautas protagonizam um dos mais extensos e ricos ciclos da mitologia grega, reunindo deuses, heróis, monstros e feiticeiras numa epopeia que atravessa o Mediterrâneo e o Mar Negro. A história centra-se na demanda do Velocino de Ouro — a pele dourada de um aríete sagrado — e na viagem extraordinária que Jasão empreendeu a bordo da nau Argo, acompanhado por um grupo de heróis que ficaram conhecidos como os Argonautas. Na cronologia mítica, a saga situa-se uma geração antes da guerra de Tróia, e a sua versão literária mais completa chegou até nós através da Argonáutica de Apolônio de Rodes, poema épico do século III a.C.

As origens de Jasão e o trono usurpado

Jasão era filho de Éson, legítimo rei de Iolcos, na Tessália. Quando o seu tio Pélias usurpou o trono e aprisionou Éson, a família confiou o jovem herdeiro ao centauro Quíron, que o criou no monte Pélion e o instruiu nas artes da guerra, da medicina e da música. A deusa Hera tornou-se protetora de Jasão, em parte por ódio a Pélias, que a havia insultado ao omitir o seu nome nos sacrifícios.

Um oráculo havia avisado Pélias que devia temer um homem que chegasse calçado com apenas uma sandália. Ao regressar a Iolcos para reclamar o seu direito ao trono, Jasão perdeu uma sandália ao atravessar o rio Anauro — em algumas versões, enquanto carregava uma velha que era Hera disfarçada — e apresentou-se no palácio com um único calçado. Reconhecendo o cumprimento da profecia, Pélias não o matou de imediato; propôs antes uma missão que julgava impossível: cederia o trono a Jasão caso este fosse à longínqua Cólquida, no extremo do Mar Negro (atual Geórgia), e trouxesse de volta o Velocino de Ouro.

A nau Argo e a formação dos Argonautas

Jasão aceitou o desafio e encomendou a construção de uma nau ao hábil carpinteiro Argos, com a assistência da deusa Atena, que encaixou na proa uma viga de carvalho sagrado de Dodona com poder profético. A nau foi batizada de Argo, em honra do seu construtor, e os seus tripulantes passaram a chamar-se Argonautas («marinheiros do Argo»).

A tripulação reunida por Jasão incluiu alguns dos maiores heróis da Grécia. Entre os mais notáveis contavam-se Héracles e o seu companheiro Hilas; Orfeu, cujo canto mágico serviria de arma em vários momentos da viagem; os gémeos Castor e Pólux (os Dióscuros); Calais e Zetes, filhos alados do deus do vento norte, Bóreas; Peleu (pai de Aquiles) e o seu irmão Télamon; Meleagro; e os irmãos Idas e Linceu, dotado este último de visão sobrenatural. Em algumas versões do mito surge também Atalanta, a destemida caçadora. O número total de Argonautas varia conforme a fonte, oscilando geralmente entre quarenta e cinquenta heróis.

A viagem de ida: aventuras e provações

A travessia até à Cólquida foi marcada por inúmeras paragens e perigos. Na ilha de Lemnos, os Argonautas encontraram uma comunidade exclusivamente feminina — as mulheres haviam eliminado todos os homens — e demoraram mais do que o previsto. Na Mísia, Héracles foi em busca de Hilas, raptado por ninfas de um lago, e nunca mais regressou à nau; a maioria das fontes relata que ficou para trás a continuar os seus próprios feitos.

Uma das paragens mais importantes foi na Trácia, onde encontraram o adivinho Fineu, castigado pelos deuses: as Hárpias roubavam-lhe a comida sempre que tentava comer. Calais e Zetes expulsaram as Hárpias, e em troca Fineu revelou aos Argonautas o caminho para a Cólquida e, sobretudo, como ultrapassar as temíveis Simplégades — as Rochas Entrechocantes. Estas duas enormes penedias flutuantes no estreito do Bósforo chocavam entre si, destruindo qualquer navio que tentasse passar. Seguindo o conselho de Fineu, Jasão soltou uma pomba; as rochas fecharam-se ao passar a ave, esmagando-lhe apenas a ponta da cauda, e ao recuarem, o Argo avançou a remos com toda a força e conseguiu atravessar, perdendo apenas um pedaço do leme. Após essa passagem, as Simplégades ficaram imóveis para sempre.

A Cólquida e as provas impostas por Éetes

Ao chegarem à Cólquida, Jasão apresentou-se ao rei Éetes e pediu o Velocino de Ouro. O monarca, furioso mas relutante em matar um hóspede de forma direta, propôs uma série de tarefas que considerava fatais: Jasão teria de uncir dois touros que cuspiam fogo, lavrar com eles um campo sagrado de Ares e semear nessa terra os dentes de um dragão — dos quais surgiriam guerreiros armados que ele teria de derrotar.

A intervenção decisiva veio de Medeia, filha de Éetes e sacerdotisa da deusa Hécate, uma das mais poderosas feiticeiras do mundo antigo. Afetada por Eros a pedido de Afrodite, Medeia apaixonou-se por Jasão e concordou em ajudá-lo em troca da promessa de casamento. Forneceu-lhe um unguento mágico que o tornava invulnerável ao fogo e às armas de bronze pelo espaço de um dia. Com essa proteção, Jasão uncou os touros sem se queimar, lavrou o campo e, ao ver surgir os guerreiros dos dentes do dragão, atirou uma pedra para o meio deles, fazendo-os crer que o golpe partira de um dos seus e levando-os a combater-se entre si até ao extermínio — estratagema idêntico ao que Cadmo usara na fundação de Tebas.

O roubo do Velocino e a fuga de Medeia

Mesmo após o cumprimento das provas, Éetes recusou-se a entregar o Velocino e preparou-se para eliminar os Argonautas. Medeia guiou então Jasão ao bosque sagrado onde o Velocino de Ouro pendia de um carvalho, guardado por um dragão imortal que nunca dormia. A feiticeira entoou encantamentos e untou os olhos da besta com ervas narcóticas, adormecendo-a, e Jasão apanhou o Velocino.

A fuga foi precipitada e brutal. Para atrasar os navios de Éetes que os perseguiam, Medeia matou o seu próprio irmão Absirto — nalgumas versões com a cumplicidade de Jasão — e espalhou os pedaços do corpo pelo mar, obrigando os perseguidores a recolhê-los para dar sepultura digna ao príncipe. O gesto manchou os fugitivos de um crime que exigia purificação ritual.

O regresso: Circe, as Sereias e Talos

A viagem de regresso foi tão longa quanto a de ida, e as rotas variam conforme a versão do mito. Os Argonautas visitaram Circe, tia de Medeia, que os purificou do assassínio de Absirto sem, porém, lhes conceder absolvição plena. Ao passarem pela terra das Sereias, cujo canto fatal atraía os marinheiros para os rochedos, Orfeu tocou a sua lira com tal beleza que os Argonautas mal ouviram as vozes mortíferas. Nas águas de Creta enfrentaram Talos, um gigante de bronze forjado por Hefesto que percorria a ilha três vezes por dia e destruía os navios inimigos atirando rochas. Medeia enganou-o, fazendo-o adormecer com encantamentos; depois retirou o prego que selava a única veia por onde o icor — sangue dos deuses — circulava no tornozelo da criatura, e Talos ficou sem forças até morrer.

O regresso a Iolcos e o destino trágico

De volta a Iolcos, Jasão descobriu que Pélias, convicto de que nunca mais o veria, havia forçado o pai Éson a beber veneno. Medeia agiu de novo: convenceu as filhas de Pélias de que podia rejuvenescer o velho rei através de uma poção mágica, demonstrando o processo com um carneiro que emergiu do caldeirão transformado numa cria. As filhas estraçalharam o pai e cozeram-no; mas Medeia não acrescentou os ingredientes necessários, e Pélias morreu. Jasão viu-se, todavia, incapaz de reclamar o trono — o crime tornara-os odiados em Iolcos — e o casal partiu para Corinto.

Em Corinto, o mito chegou ao seu desfecho mais sombrio. Jasão abandonou Medeia para se casar com Creúsa (também chamada Glauce), filha do rei Creonte, assegurando uma aliança política vantajosa. A traição destruiu Medeia. Antes de ser expulsa da cidade, enviou à rival uma veste e uma coroa imbuídas de veneno que incendiaram e mataram a noiva e o próprio Creonte. Depois matou os dois filhos que tinha de Jasão, para que ele não pudesse gozar de descendência. Jasão viveu o resto dos seus dias em amargura. Segundo a versão mais difundida, morreu sozinho na praia, quando um pedaço da podre proa do Argo — o navio que lhe dera glória — se desprendeu e caiu sobre ele.

A Argonáutica e o legado literário

A versão mais completa e influente da saga é a Argonáutica de Apolônio de Rodes, poema épico em quatro cantos escrito no século III a.C. na Alexandria ptolemaica. A obra é um dos raros poemas épicos da Antiguidade que sobreviveram na íntegra, e distingue-se pela importância dada à psicologia amorosa — em particular ao retrato de Medeia — e pela combinação de maravilhoso mítico com referências geográficas e científicas. Apolônio influenciou diretamente Virgílio na escrita da Eneida e Gaio Valério Flaco, que compôs a sua própria Argonáutica latina no século I d.C. Fontes mais antigas incluem a 4.ª Ode Pítia de Píndaro (462 a.C.) e a Medeia de Eurípides (431 a.C.), que cristalizou a figura da feiticeira infanticida na consciência ocidental. No século XX, o mito ganhou nova vida com o filme britânico Jason and the Argonauts (1963), memorável pelos efeitos especiais de Ray Harryhausen.

Perguntas frequentes

O que é o Velocino de Ouro?

O Velocino de Ouro é a pele dourada de um aríete sagrado enviado pelos deuses para salvar Frixo e Hele, filhos do rei Atamante. Frixo chegou à Cólquida, sacrificou o animal a Zeus e pendurou a pele num bosque consagrado a Ares, guardada por um dragão imortal. Tornou-se símbolo de riqueza e legitimidade real, razão pela qual Pélias o enviou buscar a Jasão.

Quem era Medeia na mitologia grega?

Medeia era filha de Éetes, rei da Cólquida, e neta de Hélio, o deus sol. Sacerdotisa de Hécate e feiticeira de extraordinários poderes, o seu papel na saga é central: sem a sua ajuda, Jasão não teria conseguido cumprir as provas nem roubar o Velocino. A Medeia de Eurípides imortalizou-a como figura trágica de amor, traição e vingança.

Quem eram os Argonautas?

Os Argonautas eram os heróis que navegaram a bordo da nau Argo em busca do Velocino de Ouro. O grupo incluía Héracles, Orfeu, Castor e Pólux, Calais e Zetes, Peleu, Meleagro e outros, num total que ronda os cinquenta heróis, representando a flor da heroicidade grega antes da guerra de Tróia.

Como morreu Jasão?

Segundo a tradição mais difundida, Jasão morreu sozinho na praia de Corinto, anos após a traição a Medeia. Sentado à sombra da velha nau Argo encalhada, foi atingido por um pedaço da proa apodrecida que se desprendeu e caiu sobre ele — fim simbólico em que o próprio instrumento da sua glória se tornou o agente da sua morte.

Qual é a fonte literária mais antiga sobre Jasão e os Argonautas?

As fontes mais antigas são fragmentárias: Homero menciona o Argo na Odisseia e Hesíodo refere-se a Medeia na Teogonia. A fonte mais extensa do período clássico é a 4.ª Ode Pítia de Píndaro (462 a.C.). A versão literária completa e mais influente é a Argonáutica de Apolônio de Rodes, do século III a.C.

{"@context":"https://schema.org","@type":"FAQPage","mainEntity":[{"@type":"Question","name":"O que é o Velocino de Ouro?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"O Velocino de Ouro é a pele dourada de um aríete sagrado enviado pelos deuses para salvar Frixo e Hele. Frixo chegou à Cólquida, sacrificou o animal a Zeus e pendurou a pele num bosque guardado por um dragão imortal. Tornou-se símbolo de riqueza e legitimidade real."}},{"@type":"Question","name":"Quem era Medeia na mitologia grega?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"Medeia era filha de Éetes, rei da Cólquida, e neta de Hélio. Sacerdotisa de Hécate e feiticeira de extraordinários poderes, o seu papel na saga dos Argonautas é central. A Medeia de Eurípides imortalizou-a como figura trágica de amor, traição e vingança."}},{"@type":"Question","name":"Quem eram os Argonautas?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"Os Argonautas eram os heróis que navegaram a bordo da nau Argo em busca do Velocino de Ouro, incluindo Héracles, Orfeu, Castor e Pólux, Calais e Zetes, Peleu, Meleagro e outros, num total que ronda os cinquenta heróis."}},{"@type":"Question","name":"Como morreu Jasão?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"Jasão morreu sozinho na praia de Corinto, atingido por um pedaço da proa apodrecida da nau Argo que se desprendeu e caiu sobre ele — fim simbólico em que o instrumento da sua glória se tornou o agente da sua morte."}},{"@type":"Question","name":"Qual é a fonte literária mais antiga sobre Jasão e os Argonautas?","acceptedAnswer":{"@type":"Answer","text":"As fontes mais antigas incluem Homero (Odisseia) e Hesíodo (Teogonia). A fonte mais extensa do período clássico é a 4.ª Ode Pítia de Píndaro (462 a.C.). A versão mais completa e influente é a Argonáutica de Apolônio de Rodes, do século III a.C."}}]}

Artigos relacionados