Accenture na Irlanda: história, sede e operações
A Accenture é uma das maiores empresas de consultoria e serviços tecnológicos do mundo e tem em Dublin a sua sede legal e fiscal desde 2009. A ligação da empresa à Irlanda remonta, contudo, a décadas antes dessa mudança formal, através das operações que a antiga Andersen Consulting já mantinha no país. Hoje, a Accenture emprega vários milhares de pessoas em território irlandês, distribuídas sobretudo por Dublin e Cork, e mantém em Dublin um dos seus principais centros de investigação e inovação a nível mundial.
As origens: de divisão da Arthur Andersen a multinacional independente
A história da Accenture começa nos anos 1950, como divisão de consultoria de tecnologia e gestão da empresa de auditoria Arthur Andersen. Em 1989, essa divisão autonomizou-se internamente sob o nome Andersen Consulting, no quadro da Andersen Worldwide Société Coopérative, uma estrutura de coordenação sediada na Suíça. As relações entre a Andersen Consulting e a casa-mãe deterioraram-se ao longo da década de 1990, culminando numa arbitragem internacional que, em 2000, permitiu à consultora separar-se definitivamente da Arthur Andersen, perdendo o direito a usar o nome "Andersen". A 1 de janeiro de 2001, a empresa adotou o nome Accenture, com que opera até hoje.
A mudança de sede da Bermuda para a Irlanda, em 2009
Após a separação da Arthur Andersen, a Accenture passou a estar incorporada nas Bermudas, um destino comum para estruturas societárias internacionais na época. Em 26 de maio de 2009, o conselho de administração da empresa aprovou por unanimidade a transferência da sede de incorporação das Bermudas para a Irlanda, processo que ficou formalmente concluído a 1 de setembro desse ano. A operação ocorreu poucos meses depois de a administração norte-americana de Barack Obama anunciar medidas mais duras contra empresas sediadas em paraísos fiscais, e numa altura em que a imagem pública de companhias incorporadas nas Bermudas se tornava cada vez mais negativa nos Estados Unidos.
A Accenture justificou então a escolha da Irlanda com argumentos de ordem estratégica: o país é membro da União Europeia, dispõe de um quadro legal, corporativo e regulatório consolidado, e tem uma rede alargada de acordos comerciais e tratados fiscais com os Estados Unidos e outros mercados onde a empresa opera. A Europa, o Médio Oriente e a África (a região EMEA, na terminologia interna da Accenture) representavam já, na altura, quase metade da receita líquida total do grupo, sendo também a região onde se concentram muitos dos seus maiores clientes. A mudança foi aprovada pelos acionistas durante o verão de 2009.
Controvérsia em torno da escolha fiscal
A transferência de sede da Accenture para a Irlanda é frequentemente apontada como um dos primeiros grandes casos de "inversão fiscal" corporativa de uma empresa norte-americana para território irlandês, um modelo que outras multinacionais viriam a replicar nos anos seguintes. Já em 2002, o Gabinete de Contabilidade Geral do Congresso dos Estados Unidos tinha identificado a Accenture, então ainda incorporada nas Bermudas, como uma das poucas empresas cotadas em bolsa sediadas num paraíso fiscal, gerando críticas de comentadores como o jornalista Lou Dobbs.
Mais tarde, a revelação dos chamados "LuxLeaks", em 2014, expôs uma transferência de ativos intangíveis da Accenture entre a Suíça e a Irlanda, através do Luxemburgo, realizada em 2010. Segundo os documentos divulgados, o valor desses ativos intangíveis terá aumentado de cerca de 1,2 mil milhões de dólares para cerca de 7 mil milhões de dólares no espaço de 48 horas, no decurso da operação. O caso motivou um litígio fiscal com as autoridades suíças, que a Accenture resolveu em fevereiro de 2019 mediante o pagamento de 200 milhões de dólares.
Operações atuais em Dublin e Cork
A sede social da Accenture na Irlanda situa-se em Grand Canal Square, em Dublin 2, uma zona da capital irlandesa associada a várias multinacionais tecnológicas. A empresa é atualmente uma das maiores empregadoras privadas do setor de serviços tecnológicos no país, com milhares de trabalhadores distribuídos entre as áreas de consultoria, tecnologia e operações.
Em Dublin funciona também "The Dock", o centro de inovação e investigação e desenvolvimento que a Accenture apresenta como o seu principal hub global nesta área. O espaço, criado na sequência de um investimento de 25 milhões de euros anunciado em 2015 para a criação de mais de 200 postos de trabalho especializados em computação cognitiva, Internet das Coisas, análise avançada de dados, segurança e marketing digital, foi sendo sucessivamente ampliado. Mais recentemente, a Accenture abriu em Dublin um estúdio dedicado a inteligência artificial generativa, enquadrado no investimento global de cerca de 3 mil milhões de dólares que a empresa anunciou destinar a esta área, e tem reforçado também a investigação em computação quântica nos seus laboratórios irlandeses.
Fora de Dublin, a região de Cork e do Munster ganhou relevância crescente nas operações irlandesas da Accenture. Em junho de 2021, a empresa anunciou a criação de 500 novos postos de trabalho ao longo de três anos, maioritariamente concentrados em Cork, no âmbito do crescimento da Enterprise System Partners (ESP), uma prestadora de serviços de consultoria e manufatura para a indústria das ciências da vida adquirida pela Accenture em 2019. Na altura, a empresa contava já com cerca de 5 mil trabalhadores no país.
A Accenture na economia irlandesa
A presença da Accenture na Irlanda insere-se num conjunto mais vasto de multinacionais tecnológicas e farmacêuticas que escolheram o país como base europeia ou sede mundial, atraídas por fatores como a língua inglesa, a pertença à União Europeia, um regime de imposto sobre lucros das empresas historicamente competitivo e o apoio de agências estatais como a IDA Ireland, responsável por captar investimento estrangeiro direto. A Accenture tem sido repetidamente identificada por essa agência como exemplo de empresa que expandiu de forma sustentada a sua presença no país ao longo de mais de duas décadas.
À escala global, a Accenture gera atualmente cerca de 70 mil milhões de dólares de receita anual e emprega mais de 700 mil pessoas em dezenas de países, servindo milhares de clientes em praticamente todos os setores de atividade. A operação irlandesa, embora pequena face à dimensão global do grupo, assume um peso simbólico e estratégico desproporcional à sua escala, por alojar a sede legal, fiscal e parte significativa da capacidade de investigação da empresa.
Perguntas frequentes
Desde quando tem a Accenture sede na Irlanda?
A Accenture transferiu formalmente a sua sede de incorporação das Bermudas para a Irlanda em 1 de setembro de 2009, após aprovação do conselho de administração e dos acionistas nesse mesmo ano. A empresa, contudo, já mantinha operações no país há várias décadas, através da antiga Andersen Consulting.
Porque é que a Accenture escolheu a Irlanda como sede?
A empresa citou como razões a pertença da Irlanda à União Europeia, o seu enquadramento legal e regulatório, a rede de acordos fiscais e comerciais com os principais mercados onde opera, e o facto de a região Europa-Médio Oriente-África representar uma parcela muito significativa da sua receita. A mudança ocorreu também num contexto de maior escrutínio fiscal e político nos Estados Unidos sobre empresas sediadas em paraísos fiscais como as Bermudas.
Onde se localiza a sede da Accenture em Dublin?
A sede irlandesa da Accenture situa-se em Grand Canal Square, no centro de Dublin, zona onde se concentram diversas multinacionais tecnológicas. A empresa mantém ainda em Dublin "The Dock", o seu principal centro global de investigação e inovação.
Quantas pessoas emprega a Accenture na Irlanda?
O número exato varia consoante a fonte e o período, mas a Accenture conta com vários milhares de trabalhadores na Irlanda, distribuídos sobretudo por Dublin e pela região de Cork e Munster, sendo uma das maiores empregadoras privadas do setor tecnológico no país.
A Accenture já enfrentou controvérsias fiscais relacionadas com a Irlanda?
Sim. A transferência de ativos intangíveis entre a Suíça e a Irlanda, via Luxemburgo, foi revelada pelos documentos "LuxLeaks" em 2014 e motivou um litígio com as autoridades fiscais suíças, resolvido em 2019 mediante o pagamento de 200 milhões de dólares pela Accenture.