História da Volkswagen na Alemanha: das origens a 2026
A Volkswagen é uma das marcas mais emblemáticas da indústria alemã e um símbolo da reconstrução económica do país no pós-guerra. A sua trajetória, que começou em 1937 sob o regime nazi e culminou na criação de um dos maiores grupos automóveis do mundo, é também a história das tensões da própria Alemanha: do trabalho forçado durante a Segunda Guerra Mundial ao "milagre económico", do escândalo das emissões à difícil transição para o automóvel elétrico que, em 2026, ameaça encerrar fábricas históricas. Este artigo percorre as fases essenciais dessa história.
As origens: 1937 e o "carro do povo"
A empresa foi fundada a 28 de maio de 1937, em Berlim, com o nome Gesellschaft zur Vorbereitung des Deutschen Volkswagens mbH, por iniciativa da Frente Alemã do Trabalho (Deutsche Arbeitsfront), a organização sindical controlada pelo Partido Nazi. O objetivo, definido pelo próprio Adolf Hitler, era produzir um automóvel acessível à generalidade das famílias alemãs — daí o nome Volkswagen, literalmente "carro do povo", da junção de Volk (povo) e Wagen (carro).
O projeto técnico foi confiado ao engenheiro Ferdinand Porsche, que desenhou um veículo compacto, de linhas arredondadas, com motor boxer arrefecido a ar montado na traseira. O carro foi inicialmente batizado de KdF-Wagen, em alusão ao programa de lazer do regime Kraft durch Freude ("Força pela Alegria"). Os trabalhadores eram incentivados a poupar através de um sistema de selos para adquirir o automóvel, mas praticamente nenhum chegou a receber o veículo antes da guerra.
Em 1938 teve início a construção de uma fábrica de raiz e de uma cidade operária associada, a Stadt des KdF-Wagens, que viria a ser rebatizada Wolfsburg em 1945. Esta localidade, no estado da Baixa Saxónia, continua a ser a sede e o coração industrial da marca.
A guerra e o trabalho forçado
Com o eclodir da Segunda Guerra Mundial, a produção de automóveis civis foi praticamente abandonada e a fábrica converteu-se à indústria bélica, fabricando veículos militares como o Kübelwagen e o anfíbio Schwimmwagen, além de outro equipamento de guerra. Para sustentar essa produção, a empresa recorreu massivamente a trabalho forçado, incluindo prisioneiros de guerra e deportados dos territórios ocupados. Este é o capítulo mais sombrio da história da marca, que a Volkswagen viria a reconhecer décadas mais tarde, criando em 1998 um fundo de indemnização para as vítimas sobreviventes. A fábrica foi fortemente bombardeada pelos Aliados e ficou parcialmente destruída no final do conflito.
O renascimento no pós-guerra
Após 1945, a instalação ficou sob administração da zona de ocupação britânica. Um oficial do exército britânico, o major Ivan Hirst, é amplamente creditado por ter salvado a fábrica: reconhecendo a escassez de viaturas e de emprego na Alemanha derrotada, conseguiu uma encomenda de 20 000 unidades do Beetle para uso militar britânico, relançando a produção. O Reino Unido chegou a oferecer a fábrica a construtores como a britânica e a americana Ford, que a recusaram por considerarem o projeto sem futuro comercial.
O verdadeiro ponto de viragem chegou em 1948, com a nomeação de Heinz Nordhoff para diretor-geral. Antigo gestor da Opel, Nordhoff modernizou a produção, reduzindo em cerca de 75% o número de horas necessárias para fabricar cada automóvel e impondo padrões de fiabilidade que tornariam o Beetle célebre em todo o mundo. A produção disparou de 1 785 veículos em 1946 para mais de 100 000 em 1950. O "Carocha" tornou-se o motor do Wirtschaftswunder, o milagre económico alemão, e um fenómeno global de vendas.
Expansão e diversificação da gama
Durante décadas, a Volkswagen viveu da dependência quase total do Beetle e da carrinha Transporter (a "Pão de Forma"). Quando as vendas do Carocha começaram a esgotar-se, a empresa reinventou-se nos anos 70 com uma nova geração de modelos de motor dianteiro e tração à frente, entre os quais o Passat (1973), o Polo (1975) e, sobretudo, o Golf (1974). O Golf tornou-se o automóvel europeu por excelência e um dos mais vendidos de sempre, garantindo a sobrevivência e o crescimento da marca.
Em paralelo, a Volkswagen construiu um dos maiores conglomerados automóveis do planeta, integrando marcas como a Audi, a Porsche, a Škoda, a SEAT, a Bentley, a Lamborghini e os veículos pesados MAN e Scania. Uma particularidade alemã marca a sua governação: o estado da Baixa Saxónia detém uma participação relevante e direitos especiais de voto, ao abrigo da chamada "lei Volkswagen", garantindo uma forte influência pública nas decisões da empresa.
O escândalo das emissões (Dieselgate)
Em setembro de 2015, a agência ambiental dos Estados Unidos acusou a Volkswagen de instalar software fraudulento em milhões de motores diesel, concebido para detetar os testes oficiais e falsear os resultados de emissões poluentes. O caso, conhecido como Dieselgate, manchou profundamente a reputação da marca e custou ao grupo cerca de 30 mil milhões de dólares em multas, indemnizações e recolhas de veículos. Paradoxalmente, o escândalo acelerou a aposta da empresa na mobilidade elétrica.
A transição elétrica e a viragem estratégica
Em resposta à crise, a Volkswagen anunciou investimentos maciços na eletrificação e lançou a família ID., com modelos como o ID.3 e o ID.4, construídos sobre uma plataforma elétrica dedicada. A ambição declarada era ultrapassar a Tesla e tornar-se líder mundial de veículos elétricos, com metade das vendas globais a serem totalmente elétricas até 2030.
A execução, porém, revelou-se difícil. Problemas na divisão de software Cariad, vendas elétricas abaixo do esperado e a forte concorrência dos fabricantes chineses levaram à saída do então presidente Herbert Diess em 2022, substituído por Oliver Blume. Sob Blume, o grupo reduziu ambições internas, redimensionou a Cariad e firmou parcerias estratégicas com a norte-americana Rivian e a chinesa Xpeng para desenvolver tecnologia.
A Volkswagen em 2026: a maior reestruturação da sua história
Em 2026, a Volkswagen atravessa a crise mais grave em décadas. Os resultados do primeiro trimestre mostraram uma quebra de cerca de 28% no lucro líquido, para 1,56 mil milhões de euros, num contexto de procura fraca, custos elevados e concorrência asiática agressiva. A empresa confirmou já a eliminação de cerca de 19 000 postos de trabalho na Alemanha até ao final de 2026, no âmbito de um plano mais amplo que visa reduzir aproximadamente 50 000 lugares nas instalações alemãs até 2030.
Vários meios de comunicação internacionais noticiaram ainda, em junho de 2026, que a administração liderada por Oliver Blume estaria a preparar a reestruturação mais radical da história do grupo, com a possibilidade de cortar até 100 000 empregos a nível mundial e encerrar quatro fábricas na Alemanha — alegadamente as unidades de Hanôver, Zwickau e Emden, além da fábrica da Audi em Neckarsulm. Os planos incluiriam também a autonomização da marca Volkswagen e da divisão de componentes em empresas independentes. À data, a Volkswagen não confirmou oficialmente estes números, que permanecem ao nível da informação de imprensa.
Perguntas frequentes
Quando e por quem foi fundada a Volkswagen?
A Volkswagen foi fundada a 28 de maio de 1937, em Berlim, pela Frente Alemã do Trabalho, ligada ao Partido Nazi, com o objetivo de produzir um automóvel acessível ao povo alemão.
Porque é que Wolfsburg é importante para a Volkswagen?
Wolfsburg, na Baixa Saxónia, foi a cidade construída de raiz em 1938 para alojar a fábrica e os seus trabalhadores. Continua a ser a sede do grupo e a sua maior unidade industrial.
O que foi o escândalo Dieselgate?
Foi a descoberta, em 2015, de que a Volkswagen tinha instalado software fraudulento em motores diesel para falsear testes de emissões. Custou ao grupo cerca de 30 mil milhões de dólares e acelerou a sua aposta nos elétricos.
A Volkswagen vai encerrar fábricas na Alemanha em 2026?
A empresa confirmou cortes de cerca de 19 000 empregos até ao final de 2026. Relatos de imprensa apontam para planos mais drásticos, incluindo o encerramento de quatro fábricas, mas a Volkswagen ainda não os confirmou oficialmente.