Fushimi Inari Taisha: história do templo dos mil torii
O Fushimi Inari Taisha é o mais importante santuário xintoísta dedicado ao kami Inari, divindade associada ao arroz, à agricultura e, mais tarde, à prosperidade dos negócios. Situado aos pés e nas encostas do Monte Inari, em Fushimi-ku, ao sul de Quioto, o complexo é conhecido em todo o mundo pelos milhares de portões torii vermelhos que formam túneis ao longo dos caminhos que sobem a montanha. A sua história estende-se por mais de 1300 anos, desde a fundação no século VIII até à condição atual de santuário-sede de cerca de trinta mil santuários Inari espalhados pelo Japão.
Origens e fundação no século VIII
De acordo com o Yamashiro no Kuni Fudoki, um registo histórico-geográfico antigo, o santuário foi fundado em 711 pelo clã Hata, uma influente família de imigrantes provenientes da península coreana, possivelmente dos antigos reinos de Silla ou Paekche. Os Hata fixaram-se na província de Yamashiro durante o período Kofun e trouxeram consigo conhecimentos técnicos avançados, nomeadamente em irrigação, sericicultura e produção de saqué, que contribuíram para o desenvolvimento agrícola da região.
A lenda fundadora atribui a origem do santuário a Hata no Irogu, um proprietário de terras abastado. Segundo a tradição, Irogu terá disparado uma flecha contra um bolo de arroz mochi; este transformou-se num pássaro branco que voou até ao cume do Monte Inari, e no local onde pousou nasceu arroz espontaneamente. Vendo nisso um sinal divino, Irogu decidiu consagrar ali a divindade, dando origem ao culto de Inari naquele monte.
Crescimento e reconhecimento imperial
Ao longo dos séculos seguintes, o culto de Inari ganhou importância na corte imperial de Quioto. Em 827, por ordem do imperador Junna, a divindade recebeu um grau de corte, e em 942 o imperador Suzaku elevou-a à categoria mais alta dentro do sistema de classificação dos kami, em agradecimento por uma vitória militar atribuída à sua proteção. Esta proximidade com o poder imperial consolidou o estatuto de Fushimi Inari como um dos santuários mais prestigiados do país, integrando mais tarde a lista dos chamados "vinte e dois santuários", um grupo de templos xintoístas que recebiam patrocínio especial da corte.
Durante o período Heian (794-1185), o santuário esteve também ligado ao budismo, sobretudo através da proximidade com o templo To-ji, um dos grandes centros do budismo Shingon em Quioto. Esta convivência entre práticas xintoístas e budistas, comum no Japão antes da era moderna, deixou marcas na própria iconografia e nos rituais associados a Inari, só sendo formalmente desfeita no século XIX.
Destruição na Guerra Onin e reconstrução
O santuário sofreu um golpe severo durante a Guerra Onin (1467-1477), um dos conflitos mais destrutivos da história japonesa, que devastou grande parte de Quioto. Em 1468, todos os edifícios principais de Fushimi Inari foram consumidos pelo fogo. A reconstrução foi um processo longo, sustentado pela devoção e pelos donativos da população local, e só ficou concluída em 1499, trinta anos depois da destruição.
Essa reconstrução alterou de forma significativa a configuração do santuário. Anteriormente, os três kami principais eram venerados em edifícios separados; o novo complexo, erguido em estilo nagare-zukuri, passou a reunir cinco divindades num único edifício principal, o honden, configuração que se mantém essencialmente até hoje.
O período Edo e a multiplicação dos torii
Foi sobretudo a partir do período Edo (1603-1868) que se consolidou a prática, ainda hoje mais reconhecida internacionalmente, de doar portões torii como forma de agradecimento ou de pedido de bênçãos. Comerciantes e empresários, que viam em Inari também a protetora dos negócios e da prosperidade, começaram a oferecer torii ao santuário sempre que um pedido era atendido ou um negócio prosperava. Esta tradição, mantida sem interrupção até à atualidade, é a origem direta dos célebres "Senbon Torii" — literalmente "mil torii" — uma sucessão de cerca de oitocentos portões dispostos lado a lado que formam dois túneis paralelos ao longo do caminho ascendente. No total, o monte conta atualmente com cerca de dez mil torii, cada um gravado com o nome do doador e a data da oferta.
A separação entre xintoísmo e budismo
Em 1871, no contexto das reformas da Era Meiji, o governo japonês promulgou a política de shinbutsu bunri, que obrigava à separação formal entre xintoísmo e budismo, até então frequentemente entrelaçados no mesmo recinto religioso. Fushimi Inari Taisha foi reorganizado segundo este princípio, perdendo elementos de origem budista que tinha incorporado ao longo dos séculos, e assumiu a estrutura puramente xintoísta que mantém atualmente, sob a designação de santuário (taisha) e já não de templo no sentido budista do termo.
As raposas, mensageiras de Inari
Um dos traços mais reconhecíveis do santuário é a presença constante de estátuas de raposas (kitsune) espalhadas por todo o recinto. As raposas não são, em si, a divindade adorada, mas sim consideradas mensageiras de Inari, intermediárias entre os fiéis e o kami. É frequente vê-las representadas com objetos na boca, como uma chave (associada aos celeiros de arroz), uma joia, um pergaminho ou uma espiga de arroz, cada um com significado simbólico ligado à fertilidade, à colheita e à prosperidade. No centro do santuário principal encontra-se uma grande pedra que representa o shintai, a presença espiritual de Inari, ladeada por estas figuras vulpinas.
Fushimi Inari Taisha na atualidade
Hoje, o Fushimi Inari Taisha mantém-se como o santuário-sede de toda a rede de aproximadamente trinta mil santuários Inari existentes no Japão, sendo o ponto de referência para o culto desta divindade em todo o país. O recinto é gratuito e está aberto ao público durante todo o dia, sem horário de fecho, o que o torna um local visitado tanto de madrugada como ao anoitecer. A subida completa ao cume do Monte Inari, percorrendo a totalidade dos caminhos marcados pelos torii, demora cerca de duas a três horas, embora a maioria dos visitantes percorra apenas o troço inicial, onde se concentram os Senbon Torii.
O santuário figura consistentemente entre os locais mais visitados do Japão, recebendo cerca de dez milhões de visitas por ano, número que inclui tanto peregrinos e crentes japoneses como turistas estrangeiros, sobretudo desde que se tornou, nas últimas duas décadas, um dos símbolos visuais mais difundidos do Japão a nível internacional. Em 2026, continua a recomendar-se a visita nas primeiras horas da manhã, entre as 6h00 e as 8h00, para evitar a afluência mais intensa registada durante o dia, especialmente nas épocas de maior procura turística, como a primavera, associada à floração das cerejeiras, e o outono.
Perguntas frequentes
Quando foi fundado o Fushimi Inari Taisha?
O santuário foi fundado em 711, segundo o registo histórico Yamashiro no Kuni Fudoki, por iniciativa do clã Hata, uma família de imigrantes de origem coreana estabelecida na região de Quioto.
Quantos portões torii existem no Monte Inari?
Estima-se que existam cerca de dez mil torii ao longo dos caminhos do Monte Inari, dos quais aproximadamente oitocentos formam a sequência contínua conhecida como Senbon Torii, junto à entrada do santuário.
Porque é que o santuário foi reconstruído no século XV?
Os edifícios originais foram destruídos por um incêndio em 1468, durante a Guerra Onin. A reconstrução, financiada pelos donativos da população, demorou cerca de trinta anos e ficou concluída em 1499.
O que representam as estátuas de raposas no santuário?
As raposas (kitsune) não são a divindade do santuário, mas são consideradas mensageiras de Inari, frequentemente representadas com objetos simbólicos ligados à fertilidade e à prosperidade, como chaves, joias ou espigas de arroz.
É necessário pagar para visitar o Fushimi Inari Taisha?
Não, a entrada no recinto é gratuita e o santuário permanece acessível ao público a qualquer hora do dia ou da noite, sem horário fixo de encerramento.