Tom e Jerry: a história por detrás do gato e do rato mais famosos da animação
Tom e Jerry é uma das franquias de animação mais reconhecidas da história da cultura popular. A dupla composta por um gato doméstico e um rato esperto, perpetuamente em confronto, estreou-se nas salas de cinema norte-americanas em 1940 e tornou-se, ao longo de mais de oito décadas, um símbolo universal da comédia visual. Por detrás desta rivalidade fictícia existe uma história real de criatividade, concorrência entre estúdios e transformações profundas na indústria de animação.
O nascimento de uma ideia
A génese de Tom e Jerry remonta ao final dos anos 30, quando dois animadores do estúdio de animação da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), em Hollywood, decidiram colaborar numa nova proposta de personagens. William Hanna, especializado em timing de animação, e Joseph Barbera, com competências em argumento e ilustração, formaram uma parceria que se revelaria histórica.
A MGM enfrentava então uma pressão crescente para competir com os Estúdios Walt Disney e com a Warner Bros., que produziam séries de animação de enorme sucesso — respetivamente as Silly Symphonies e os Looney Tunes. O responsável pelo estúdio, Fred Quimby, incentivou os animadores a desenvolverem novas personagens. Hanna e Barbera apresentaram vários conceitos, entre os quais um assente na ideia de dois antagonistas permanentes, de forças equivalentes, sempre em conflito. Após ponderarem outras combinações de animais — incluindo uma raposa e um cão —, a dupla optou por um gato e um rato.
A primeira curta-metragem e a origem dos nomes
A 10 de fevereiro de 1940, a primeira curta-metragem da série foi exibida nos cinemas norte-americanos. Intitulada Puss Gets the Boot, a história mostrava um gato chamado Jasper a tentar apanhar um rato chamado Jinx — nomes provisórios que não sobreviveriam ao sucesso inesperado da produção. A reação do público foi entusiástica, e a MGM recebeu numerosas cartas de espetadores a pedir mais aventuras do gato e do rato. A curta foi nomeada para o Óscar de Melhor Curta de Animação de 1941.
Perante este êxito, a MGM decidiu dar continuidade à série e organizou um concurso interno para atribuir nomes definitivos às personagens. O animador John Carr venceu a competição com a sugestão de Tom para o gato e Jerry para o rato, tendo recebido um prémio de cinquenta dólares — uma quantia modesta, mas que entrou para a história da animação.
A era clássica (1940–1958)
Durante dezoito anos, Hanna e Barbera dirigiram um total de 114 curtas-metragens de Tom e Jerry para a MGM. A fórmula era deceptivamente simples: uma perseguição entre o gato e o rato, pontuada por golpes, armadilhas e reviravoltas em que o suposto mais fraco — Jerry — quase invariavelmente saía vitorioso. As curtas eram produzidas sem diálogos significativos, apostando na expressividade física e numa banda sonora cuidadosamente sincronizada com a ação.
Esta abordagem revelou-se extraordinariamente eficaz. Entre 1943 e 1954, a série venceu sete Óscares de Melhor Curta de Animação — uma marca que apenas as Silly Symphonies da Disney igualaram nesta categoria. Os títulos galardoados incluem Yankee Doodle Mouse (1943), Mouse Trouble (1944), Quiet Please! (1945), The Cat Concerto (1946), The Little Orphan (1948), The Two Mouseketeers (1951) e Johann Mouse (1952).
O método de trabalho dispensava argumento escrito. Após conceberem uma ideia em conjunto, Barbera desenhava os storyboards e os layouts das personagens, enquanto Hanna se encarregava do timing da animação e distribuía as cenas pelos animadores. Este processo ágil permitia uma comédia visual de ritmo preciso, muito dependente da música orquestral composta especificamente para cada curta.
A era Gene Deitch (1961–1962)
Em 1957, a MGM encerrou o seu estúdio de animação interno, considerando que a produção de curtas para cinema tinha deixado de ser economicamente viável — a televisão transformava rapidamente os hábitos de consumo do entretenimento. Hanna e Barbera partiram para fundar o próprio estúdio, a Hanna-Barbera Productions, que se tornaria célebre pelas séries de televisão dos anos 60.
Apesar do encerramento, a MGM não abandonou a franquia. Entre 1961 e 1962, contratou o realizador norte-americano Gene Deitch e o estúdio checo Rembrandt Films para produzir treze novas curtas-metragens. Filmadas em Praga com um orçamento de apenas dez mil dólares por episódio, estas curtas apresentam um estilo visual distinto, mais esquemático e menos fluído do que a era clássica. O próprio Deitch reconheceu posteriormente que as limitações técnicas e financeiras condicionaram gravemente o resultado. A receção crítica foi mista, embora alguns fãs apreciem o caráter peculiar e quase surrealista destas animações.
A era Chuck Jones (1963–1967)
Em 1963, a MGM voltou a produzir curtas de Tom e Jerry, desta vez entregando a direção a Chuck Jones — um dos nomes mais respeitados da animação norte-americana, conhecido sobretudo pelo trabalho nos Looney Tunes com personagens como o Bugs Bunny e o Pato Daffy. Jones e o seu sócio Les Goldman criaram a produtora Sib Tower 12 Productions, responsável por 34 novas curtas-metragens até 1967.
Esta fase é geralmente considerada uma melhoria significativa em relação às curtas de Deitch, recuperando parte do dinamismo e da comédia física da era clássica, ainda que com um estilo visual diferente — mais próximo da estética dos Looney Tunes. Em 1967, a MGM cessou definitivamente a produção de curtas cinematográficas.
A televisão e a longa-metragem de 1992
A partir de meados dos anos 60, Tom e Jerry passaram a ser transmitidos regularmente em televisão, tornando-se um clássico da programação infantil nos Estados Unidos e em muitos outros países. A Hanna-Barbera Productions produziu diversas séries televisivas a partir de 1975, adaptando a fórmula original às exigências e às normas de conteúdo das emissoras da época.
Em 1992, foi lançada a primeira longa-metragem da franquia, Tom and Jerry: The Movie. A produção introduziu um elemento inédito e controverso: as personagens passaram a falar. A decisão não foi bem recebida pela generalidade da crítica e dos fãs, que consideraram que o diálogo traía a essência muda e visual da série.
A era Warner Bros. e os desenvolvimentos recentes
Em 1986, a MGM vendeu a maior parte da sua biblioteca de filmes à Turner Entertainment. Quando a Time Warner adquiriu a Turner Broadcasting System em 1996, os direitos de Tom e Jerry passaram para a Warner Bros., que detém atualmente a franquia através da Warner Bros. Discovery.
Em 2021, foi estreado Tom & Jerry, uma longa-metragem que misturava animação 2D com imagem real, com atores como Chloë Grace Moretz e Rob Delaney. O filme arrecadou cerca de 133 milhões de dólares a nível global numa conjuntura difícil, lançado durante a pandemia de COVID-19 em simultâneo nos cinemas e na plataforma HBO Max.
Em 2025, estreou-se nos cinemas chineses Tom and Jerry: Forbidden Compass, a primeira longa-metragem totalmente animada em computador da franquia, resultado de uma coprodução entre a Warner Bros. Pictures, a China Film Co. e a Origin Animation. Dirigida por Zhang Gang, a história transporta as personagens para uma cidade antiga misteriosa descoberta através de uma bússola mágica. O filme chegou à Europa a 22 de maio de 2026 e à América do Norte em setembro de 2026. Em dezembro de 2024, foi ainda anunciado um segundo novo filme de animação pela Warner Bros. Pictures Animation, com argumento de Rashida Jones, Will McCormack e Michael Govier.
O legado de Tom e Jerry
Ao longo de mais de oito décadas, Tom e Jerry tornaram-se um fenómeno cultural transversal a gerações e culturas. A série original de Hanna e Barbera é estudada em escolas de animação por todo o mundo pela mestria do timing visual e da comédia física sem palavras. A influência da dupla é rastreável em inúmeras produções de animação posteriores, e as personagens mantêm uma presença constante em plataformas de streaming, merchandising e novos projetos cinematográficos.
O aparente paradoxo da sua popularidade reside, em parte, na universalidade da dinâmica entre os dois rivais: a luta entre o forte e o astuto, o previsível e o imprevisível, o caçador e a presa — onde o resultado nunca é definitivo e onde a próxima perseguição recomeça sempre do zero.
Perguntas frequentes
Quem criou Tom e Jerry?
Tom e Jerry foram criados pelos animadores norte-americanos William Hanna e Joseph Barbera, que trabalhavam no estúdio de animação da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM). A primeira curta-metragem da série estreou a 10 de fevereiro de 1940.
Como surgiram os nomes Tom e Jerry?
Originalmente, o gato chamava-se Jasper e o rato chamava-se Jinx. Após o sucesso da primeira curta-metragem, a MGM organizou um concurso interno para renomear as personagens. O animador John Carr venceu com a sugestão de Tom e Jerry, recebendo cinquenta dólares de prémio.
Quantos Óscares ganhou a série original de Tom e Jerry?
A série original, produzida por Hanna e Barbera entre 1940 e 1958, ganhou sete Óscares de Melhor Curta de Animação — uma das marcas mais elevadas alguma vez atingidas por uma série de animação nesta categoria, igualada apenas pelas Silly Symphonies da Disney.
Quem detém atualmente os direitos de Tom e Jerry?
Os direitos de Tom e Jerry pertencem à Warner Bros. Discovery. A franquia foi criada para a MGM, mas os direitos foram vendidos à Turner Entertainment em 1986 e transitaram para a Time Warner — posteriormente Warner Bros. — após a aquisição da Turner Broadcasting System em 1996.
Existem novos filmes de Tom e Jerry previstos?
Sim. Em 2025 estreou Tom and Jerry: Forbidden Compass, a primeira longa-metragem totalmente em animação digital da franquia. Em dezembro de 2024, foi ainda anunciado um novo filme de animação pela Warner Bros. Pictures Animation, com argumento de Rashida Jones, Will McCormack e Michael Govier.