História do Gabão: da colonização ao presente
O Gabão é um país da África Central, situado no Golfo da Guiné e atravessado pela linha do equador, com uma área de cerca de 267 000 km² e uma população de aproximadamente 2,3 milhões de habitantes. Embora seja um dos países mais ricos do continente africano em termos de rendimento per capita — graças, sobretudo, às reservas de petróleo —, a sua história é marcada por séculos de contacto com potências externas, décadas de poder concentrado numa única família e, mais recentemente, por uma transição política sem precedentes iniciada com o golpe de Estado de 2023.
Período pré-colonial
Antes da chegada dos europeus, o território que hoje constitui o Gabão era habitado por diversas etnias, entre as quais os Fang, os Myéné, os Punu, os Nzebi e os Kota, entre outras. Estas populações organizavam-se em reinos e confederações de aldeia, praticando a agricultura, a pesca e o comércio fluvial ao longo dos rios que atravessam a floresta equatorial. O estuário do Gabão — que deu nome ao país, provavelmente derivado da palavra portuguesa gabão, referente a um capote com capuz cuja forma evocava o estuário — era um ponto de confluência comercial de primeiro plano.
Entre as estruturas políticas mais notáveis destacava-se o reino Orungu, estabelecido na foz do rio Ogooué, que controlava o comércio costeiro e se tornaria um interlocutor privilegiado dos europeus durante o período de tráfico negreiro.
Chegada dos portugueses e o tráfico negreiro
Os primeiros europeus a atingir as costas do Gabão foram os navegadores portugueses, por volta de 1472, durante as grandes viagens de exploração da África Ocidental. Portugal estabeleceu contactos comerciais com as populações locais, interessando-se sobretudo em marfim, madeira tropical e, progressivamente, em escravizados. Durante os séculos XVI e XVII, o Gabão tornou-se um dos pontos de partida do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, com os reinos costeiros locais a actuarem frequentemente como intermediários no abastecimento de cativos provenientes do interior.
A colonização francesa
A presença francesa no Gabão consolidou-se a partir de 1839, quando o comandante Édouard Bouët-Willaumez assinou um tratado com o rei Denis do povo Mpongwé, cedendo à França a soberania sobre o estuário do Gabão. Em 1849, foi fundada a cidade de Libreville — literalmente «cidade livre» — para acolher escravizados libertos de um navio negreiro apresado pela marinha francesa, numa decisão simbólica que antecipou a abolição formal da escravatura nos territórios franceses.
Durante a segunda metade do século XIX, os franceses avançaram para o interior, explorando o rio Ogooué e integrando progressivamente o Gabão no Congo Francês. Figuras como o explorador Pierre Savorgnan de Brazza percorreram o território, firmando acordos com os chefes locais e alargando a influência colonial francesa. Em 1910, o Gabão tornou-se uma das quatro colónias que formavam a África Equatorial Francesa (AEF), juntamente com o Congo Francês, o Chad e a Ubangui-Chari.
O período colonial foi marcado pelo trabalho forçado nas concessões florestais e pela exploração das ricas madeiras tropicais gabonesas, em particular o okoumé, utilizado na produção de contraplacado. Em 1913, o médico e filósofo alemão Albert Schweitzer instalou-se em Lambaréné, onde fundou um hospital que se tornaria internacionalmente famoso e que permanece em actividade até aos dias de hoje.
Independência e os primeiros anos da república
Com a vaga de descolonização que varreu a África no final da década de 1950, o Gabão acedeu à independência a 17 de Agosto de 1960, tornando-se uma república soberana no quadro da Communauté Française. O primeiro presidente foi Léon M'ba, que havia sido administrador colonial e líder do Bloc Démocratique Gabonais.
O início da governação independente não foi isento de turbulência. Em Fevereiro de 1964, um golpe de Estado militar derrubou M'ba, mas a intervenção militar francesa — ao abrigo dos acordos de defesa bilaterais — repôs o presidente no poder em apenas algumas horas. Este episódio revelou a profundidade da dependência do Gabão em relação à antiga metrópole, uma relação que ficou conhecida como Françafrique e que perdurou décadas.
A era Omar Bongo (1967–2009)
Em 1967, Léon M'ba, debilitado por uma doença, nomeou como vice-presidente Albert-Bernard Bongo, que assumiu a presidência após a morte de M'ba ainda nesse ano. Bongo — que se converteu ao islamismo em 1973 e adoptou o nome Omar Bongo — governaria o Gabão durante 42 anos, tornando-se um dos chefes de Estado mais longevos de África e uma das figuras centrais da diplomacia do continente.
O seu mandato coincidiu com o arranque da produção petrolífera em grande escala. O primeiro poço de petróleo comercial tinha sido perfurado em 1956, e a partir dos anos 1970, com a crise do petróleo e a subida dos preços internacionais, o Gabão gerou receitas consideráveis que transformaram a economia nacional. O país tornou-se membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e atingiu um dos rendimentos per capita mais elevados de África, embora a riqueza petrolífera tenha beneficiado desproporcionalmente as elites.
Em termos políticos, Omar Bongo instaurou um regime de partido único sob o Parti Démocratique Gabonais (PDG), mantendo um controlo férreo sobre o Estado e os media. Sob pressão internacional e interna, o Gabão introduziu o multipartidarismo em 1990, realizando as primeiras eleições pluripartidárias em 1993, mas o PDG e a família Bongo mantiveram o poder. Omar Bongo morreu em Espanha em Junho de 2009, após mais de quatro décadas no poder.
Ali Bongo e o fim da dinastia (2009–2023)
Na sequência da morte do pai, Ali Bongo Ondimba foi eleito presidente em Agosto de 2009, em eleições marcadas por contestação e acusações de fraude. O filho de Omar Bongo perpetuou assim a gestão familiar do Estado, que se estendia por mais de meio século. As eleições de 2016 foram particularmente controversas: Ali Bongo foi declarado vencedor por uma margem ínfima face ao candidato da oposição Jean Ping, despoletando protestos violentos e a destruição parcial do parlamento.
Em 2018, Ali Bongo sofreu um AVC que o incapacitou temporariamente, gerando incerteza política e alimentando rumores sobre o verdadeiro estado de saúde do presidente. Em 2023, realizaram-se eleições gerais em Agosto, nas quais Ali Bongo foi declarado vencedor numa votação que a oposição e observadores internacionais consideraram profundamente irregular.
O golpe de Estado de 2023 e a transição política
Na madrugada de 30 de Agosto de 2023, poucas horas após o anúncio dos resultados eleitorais, um grupo de militares tomou o poder, deteve Ali Bongo e pôs fim à dinastia Bongo depois de 56 anos de domínio ininterrupto. O golpe foi liderado pelo general Brice Clotaire Oligui Nguema, chefe da Guarda Republicana e primo de Ali Bongo, que se autoproclamou presidente do Comité para a Transição e o Restabelecimento das Instituições (CTRI).
Ao contrário de outras transições militares na região, o golpe gabonês foi recebido com celebrações populares nas ruas de Libreville, reflexo do profundo descontentamento com o regime Bongo. Apesar do Gabão ter um dos PIB per capita mais elevados de África, cerca de um terço da população vivia abaixo da linha de pobreza, e a taxa de desemprego jovem atingia os 40%.
O governo de transição anunciou um calendário de regresso à ordem constitucional. Em Novembro de 2024, realizou-se um referendo constitucional que aprovou uma nova lei fundamental, prevendo um mandato presidencial de sete anos renovável uma única vez, a eliminação do cargo de primeiro-ministro e a proibição da transmissão hereditária do poder.
As eleições de 2025 e o Gabão em 2026
Em 12 de Abril de 2025, realizaram-se as primeiras eleições presidenciais desde o golpe. Oligui Nguema, que se candidatou como independente, venceu com 90,35% dos votos, numa participação de 70% — a mais elevada desde as primeiras eleições multipartidárias de 1993. Foi inaugurado como presidente eleito a 3 de Maio de 2025. Nos meses seguintes, em Setembro e Outubro de 2025, decorreram eleições legislativas e autárquicas que completaram formalmente o ciclo de transição.
Em 2026, o Gabão encontra-se num momento de consolidação institucional, com um novo quadro constitucional e um governo eleito, ainda que as questões estruturais — a dependência do petróleo, a desigualdade social e a fragilidade das instituições democráticas — continuem a representar os principais desafios para o futuro do país.
Perguntas frequentes
Quando é que o Gabão se tornou independente?
O Gabão proclamou a independência a 17 de Agosto de 1960, separando-se da França após décadas de colonização no quadro da África Equatorial Francesa. O primeiro presidente foi Léon M'ba.
Quanto tempo durou a dinastia Bongo no poder?
A família Bongo governou o Gabão durante 56 anos consecutivos: Omar Bongo de 1967 até à sua morte em 2009, e o seu filho Ali Bongo de 2009 até ao golpe de Estado de 30 de Agosto de 2023.
O que aconteceu no golpe de Estado de 2023 no Gabão?
Na sequência de eleições presidenciais contestadas em Agosto de 2023, militares liderados pelo general Brice Oligui Nguema depuseram Ali Bongo e assumiram o poder, pondo fim à longa dinastia Bongo. O golpe foi bem recebido por parte da população, descontente com décadas de má governação.
Quem governa o Gabão em 2026?
Em 2026, o Gabão é governado por Brice Clotaire Oligui Nguema, eleito presidente em Abril de 2025 com 90,35% dos votos e inaugurado a 3 de Maio de 2025, após liderar o período de transição que se seguiu ao golpe de Estado de 2023.
Qual é a importância do petróleo na história do Gabão?
O petróleo é fundamental na história moderna do Gabão: a produção comercial iniciou-se em 1956 e, a partir dos anos 1970, transformou o país num dos mais ricos de África em rendimento per capita. No entanto, a dependência do petróleo e a má distribuição da riqueza resultante geraram desigualdades sociais profundas que persistem até hoje.