Yama: quem é o deus do submundo na mitologia hindu**
Yama é a divindade que, na mitologia hindu e, mais tarde, no budismo, governa o reino dos mortos. Considerado o primeiro ser mortal a morrer, tornou-se por direito de precedência o soberano dos antepassados falecidos e, com o tempo, o juiz que determina o destino de cada alma após a morte. A sua figura atravessa milénios de tradição religiosa sul-asiática e estendeu-se, sob outros nomes, a praticamente toda a Ásia oriental.
Quem é Yama na mitologia hindu
Yama é referido pela primeira vez no Rigveda, o mais antigo dos textos védicos, onde lhe são dedicados três hinos no décimo livro. Nessa fase inicial, é descrito como um rei alegre dos antepassados, que preside ao reino dos mortos sem function punitiva: é antes um guia benevolente para aqueles que partiram, e não um castigador de pecados.
Segundo o Vishnu Purana, Yama é filho do deus-sol Surya com Sandhya (ou, noutras versões, com Saranyu, filha do arquiteto divino Vishvakarma). O seu nome em sânscrito significa "gémeo", uma referência à sua irmã gémea Yami (ou Yamuna), associada ao rio sagrado do mesmo nome. Por ter sido o primeiro homem a morrer, Yama abriu o caminho da mortalidade que todos os seres humanos seguiriam depois dele.
Com a evolução da mitologia hindu, a sua função transformou-se: de rei acolhedor dos mortos passou a Dharmaraja, o "rei da justiça" ou "rei do dharma", encarregado de pesar as boas e más ações de cada pessoa. Cabe a Yama decidir se uma alma sobe ao céu (svarga), regressa à Terra através da reencarnação, ou desce a Naraka, o sistema hindu de 21 infernos onde se cumprem penas proporcionais às culpas cometidas em vida.
Aparência e símbolos
A iconografia tradicional representa Yama como uma figura majestosa, de pele verde-escura ou negra, olhos vermelhos e vestes da mesma cor. Monta um búfalo, o seu veículo (vahana), e empunha dois atributos principais: um laço, usado para capturar a alma do moribundo e conduzi-la ao submundo, e uma maça ou cajado, por vezes ornamentado com uma caveira, símbolo da sua autoridade sobre a morte.
Acompanha-o frequentemente Chitragupta, o escriba divino que regista as ações de cada indivíduo num livro, fornecendo a Yama as "provas" necessárias para o julgamento final. Esta dupla — o juiz e o escrivão — reflete a importância do conceito de carma e responsabilidade moral na cosmovisão hindu.
Yama no budismo
Quando o budismo se desenvolveu a partir da tradição védica, herdou a figura de Yama, mas reformulou o seu papel. No Cânone Pali, Yama mantém uma posição semelhante à hindu, mas deixa de ser propriamente um juiz: o destino de cada alma resulta exclusivamente do seu próprio carma, e Yama limita-se a presidir aos Reinos do Inferno (Naraka budista), funcionando mais como guardião e testemunha do que como árbitro com poder de decisão.
Na iconografia budista tibetana e do Vajrayana, Yama surge muitas vezes sob a forma wrathful (irada) de Yamantaka, uma manifestação que "vence a morte" associada à figura de Manjushri, representando a superação simbólica do medo da mortalidade através da sabedoria.
Yama na Ásia Oriental: Enma, Yanluo e outros nomes
A partir do budismo, a figura de Yama espalhou-se pela China e, daí, para o Japão, a Coreia e o Vietname, fundindo-se com tradições locais e adquirindo nomes próprios em cada cultura:
- China: Yan Wang ou Yanluo, governante de Di Yu, o submundo chinês, e o mais conhecido dos chamados "Dez Reis do Inferno".
- Japão: Enma, ou Enma-ō ("Grande Rei Enma"), uma das figuras mais populares da iconografia budista japonesa, frequentemente usada como advertência moral em contos tradicionais.
- Coreia: Yeom-ra ou "Grande Rei Yeom-ra".
- Vietname: Diêm Vương ou Diêm La Vương.
Nestas tradições, Yanluo/Enma é representado como um homem corpulento, de rosto vermelho carregado, olhos esbugalhados e longa barba, vestindo trajes oficiais e uma coroa com o ideograma chinês para "rei" (王). Apesar de partir da mesma raiz védica, a figura desenvolveu mitos e funções próprias em cada região, nomeadamente o julgamento formal dos mortos perante um tribunal infernal composto por dez reis, cada um responsável por uma etapa distinta do processo.
Yama é o mesmo que o diabo?
Apesar de governar o reino dos mortos e de, em certas representações, assumir um aspeto temível, Yama não é equivalente ao conceito ocidental de diabo ou Satanás. Não é uma entidade do mal nem um opositor de um deus supremo; é antes um administrador cósmico da justiça e da ordem moral (dharma), cuja função é garantir que cada ser recebe as consequências correspondentes aos seus atos. Esta distinção é central para compreender o seu papel: Yama castiga quando necessário, mas fá-lo dentro de um sistema de justiça cármica, não por malícia.
Perguntas frequentes
Quem é Yama na mitologia hindu?
Yama é a divindade hindu da morte, do dharma e do submundo, considerado o primeiro mortal a morrer e, por isso, o rei dos antepassados falecidos. Mais tarde tornou-se o juiz que determina o destino de cada alma após a morte.
Qual é a origem de Yama?
Yama é mencionado pela primeira vez no Rigveda, o mais antigo texto védico, sendo filho do deus-sol Surya. O seu nome em sânscrito significa "gémeo", numa referência à sua irmã gémea Yami.
Yama é o mesmo deus que Enma, no Japão?
Sim. Enma é o nome japonês da mesma divindade, que se difundiu da Índia para a China e daí para o Japão, a Coreia e o Vietname através do budismo, adquirindo características e mitos próprios em cada cultura.
Quais são os símbolos associados a Yama?
Yama é tradicionalmente representado com pele escura ou verde, vestes vermelhas, montado num búfalo, empunhando um laço para capturar almas e uma maça ou cajado, por vezes decorado com uma caveira.
Yama é considerado um deus maligno?
Não. Yama não representa o mal, mas sim a justiça cármica e a ordem cósmica. A sua função é avaliar as ações de cada pessoa em vida e determinar uma consequência proporcional, e não punir por malícia.