Rei Midas: história, toque de ouro e maldição da ganância
Midas é uma das figuras mais célebres da mitologia grega, famoso pelo chamado "toque de ouro" — a capacidade de transformar em ouro tudo o que tocasse. Rei da Frígia, território que corresponde hoje à Turquia central, Midas protagoniza dois grandes mitos: o do dom que se tornou maldição e o das orelhas de burro. As suas histórias sobreviveram milénios graças, sobretudo, à obra Metamorfoses do poeta romano Ovídio, e continuam a funcionar como alegorias universais sobre a ganância e a vaidade.
Contexto histórico e mitológico
A figura de Midas situa-se na fronteira entre a história e o mito. Segundo os registos assírios, existiu de facto um soberano chamado Mita dos Mushki, governante da Frígia entre cerca de 738 e 696 a.C., mencionado em textos cuneiformes que documentam conflitos e alianças com os reis da Assíria. As inscrições antigas e as escavações arqueológicas em Gordion — capital do reino frígio, situada perto da atual Ancara — confirmam a existência de uma dinastia real rica e poderosa nessa região.
Em 1957, arqueólogos descobriram em Gordion o chamado Túmulo MM (abreviação de "Midas Mound"), um enorme montículo funerário datado de cerca de 740 a.C. O espólio encontrado — mobiliário incrustado, vasos de bronze e objetos de grande valor — é compatível com a reputação de riqueza que cercava a lenda. Contudo, não é possível afirmar com certeza que os restos mortais aí encontrados pertençam ao próprio Midas ou ao seu pai, Górdio.
A primeira referência literária ao "toque de ouro" surge na Política de Aristóteles (século IV a.C.), mas a versão mais desenvolvida e influente é a de Ovídio nas Metamorfoses (século I d.C.), que fixou definitivamente o mito na cultura ocidental.
O dom que se tornou maldição: o toque de ouro
A hospitalidade de Midas e o encontro com Sileno
A história começa quando o ancião Sileno, sátiro e companheiro inseparável do deus Dionísio, se perde durante uma celebração e é encontrado deambulando pelos jardins de Midas, embriagado e confuso. O rei, em vez de o humilhar ou expulsar, acolhe-o com hospitalidade, festeja com ele durante dez dias e dez noites e, findo esse tempo, conduz-o de volta ao séquito de Dionísio.
O deus do vinho e da euforia, reconhecido e grato pela benevolência demonstrada para com o seu companheiro, oferece a Midas um desejo, qualquer que ele fosse. Sem hesitar, o rei pede que tudo o que toque se transforme em ouro.
O desejo concedido e as suas consequências
Dionísio concede o pedido com alguma relutância — pressentindo, talvez, as suas consequências. Midas regressa ao palácio exultante: toca um ramo de carvalho, que imediatamente se torna dourado; passa a mão por uma pedra, por um torrão de terra, por frutos do campo — tudo se transforma em ouro reluzente. O rei maravilha-se com o seu novo poder.
A euforia dura pouco. Quando se senta à mesa e tenta comer, o pão endurece logo que os lábios lhe tocam; o vinho torna-se ouro líquido e escoa-se pelos dentes sem saciar a sede. A fome e a sede instalam-se rapidamente. Numa versão particularmente dramática do mito, a própria filha de Midas — ao aproximar-se do pai para o abraçar — é transformada numa estátua dourada fria e sem vida. O que fora pedido como símbolo supremo de riqueza revela-se uma sentença de morte por inanição.
A libertação pelo rio Pactolo
Aterrorizado, Midas implora a Dionísio que lhe retire o dom. O deus aceita e ordena ao rei que vá banhar-se na nascente do rio Pactolo, nas encostas do monte Tmolo, na Lídia. Midas obedece, mergulha nas águas e o poder é transferido para o leito do rio. A partir desse momento, segundo o mito, as areias do Pactolo ficaram impregnadas de ouro — explicação etiológica para os depósitos auríferos que o rio efetivamente possuía na Antiguidade e que tornaram a região da Lídia proverbialmente rica.
O mito das orelhas de burro
O concurso musical entre Apolo e Pã
O segundo grande mito associado a Midas relata um episódio de arrogância musical. O deus Pã, senhor das florestas e dos pastores, desafia Apolo — deus das artes e da música — a um concurso de instrumentos. Pã toca a sua flauta de canas com uma melodia selvagem e terrestre; Apolo responde com a lira, produzindo uma música de harmonia perfeita e elevada. O árbitro oficial é o deus do monte Tmolo, que declara Apolo o vencedor sem hesitação.
Midas, que estava presente e era admirador de Pã, discorda abertamente do veredicto e defende que Pã deveria ter ganho. Apolo considera a posição do rei uma prova de insensibilidade e rudeza irremediável, e pune-o de forma simbólica: transforma as suas orelhas em orelhas de burro — longas, peludas e móveis — como símbolo exterior da incapacidade de Midas para apreciar a verdadeira arte.
O segredo do barbeiro e as canas sussurrantes
Envergonhado, Midas esconde as orelhas sob um grande gorro ou turbante e proíbe todos de as mencionar. Apenas o seu barbeiro sabe da verdade, mas carrega o segredo com enorme dificuldade — a tentação de o revelar é insuportável. Para não o contar a ninguém e ao mesmo tempo se libertar do peso, o barbeiro cava um buraco na terra, sussurra o segredo para dentro dele — "O rei Midas tem orelhas de burro" — e tapa-o novamente, julgando-se salvo.
Contudo, no local donde crescem canas, e quando o vento sopra, as canas murmuram o segredo para todos os que passam. O segredo de Midas espalha-se assim pelo mundo sem que o barbeiro o tenha contado diretamente a ninguém — um desfecho que Ovídio narra com ironia subtil sobre a impossibilidade de ocultar a verdade indefinidamente.
Legado e influência cultural
O mito de Midas tornou-se uma das alegorias mais duradouras da cultura ocidental. A expressão "toque de Midas" é ainda hoje usada em português e noutras línguas para descrever alguém que tudo o que toca se converte em sucesso ou riqueza — embora frequentemente ignorando a ironia trágica do original. O mito do ouro serve de advertência contra a ideia de que a acumulação de bens materiais pode satisfazer as necessidades humanas mais essenciais: Midas tinha todo o ouro do mundo e não conseguia comer nem beber.
O episódio das orelhas de burro funciona como crítica à vaidade e à incapacidade de reconhecer a excelência. Apolo não pune Midas por ter escolhido Pã — pune-o por não ter tido humildade suficiente para reconhecer o mérito alheio. Ao longo dos séculos, o tema foi retratado por inúmeros pintores, escultores e escritores, de Ovídio a Calderón de la Barca, de Rubens a artistas contemporâneos.
Na numismática e na arqueologia, o nome de Midas permanece associado ao reino da Frígia e à sua extraordinária riqueza. O rio Pactolo, que na Antiguidade transportava de facto pepitas de ouro, foi uma das fontes da prosperidade da Lídia e terá contribuído para a reputação lendária do rei mais rico do mundo antigo, o lídio Creso, que os gregos comparavam frequentemente a Midas.
Perguntas frequentes
O rei Midas foi uma pessoa real?
Possivelmente. Registos assírios mencionam um soberano chamado Mita dos Mushki que governou a Frígia entre cerca de 738 e 696 a.C. As escavações em Gordion, a capital frígia, revelaram um riquíssimo túmulo real datado desse período. Contudo, as histórias do toque de ouro e das orelhas de burro pertencem inteiramente ao domínio do mito.
O que representa o mito do toque de ouro?
O mito funciona como uma advertência contra a ganância e a ideia de que a riqueza material resolve todos os problemas. Midas obtém o que deseja e descobre que o ouro não pode substituir as necessidades vitais: comida, água e afeto humano. É uma das alegorias mais antigas sobre as consequências da cupidez.
Por que é que Midas recebeu orelhas de burro?
Segundo Ovídio, Midas foi punido por Apolo depois de discordar do resultado de um concurso musical entre Apolo e Pã, defendendo que Pã tinha sido o melhor. Apolo considerou isso uma prova de grosseria e falta de discernimento, e transformou as suas orelhas em orelhas de burro como símbolo externo dessa limitação.
Como acabou o toque de ouro de Midas?
Dionísio ordenou a Midas que se banhasse na nascente do rio Pactolo, na Lídia. Ao mergulhar nas águas, o poder foi transferido para o leito do rio, cujas areias ficaram, segundo o mito, impregnadas de ouro — o que reflete a existência real de depósitos auríferos nesse curso de água na Antiguidade.
Onde está documentado o mito de Midas?
A primeira referência ao toque de ouro encontra-se na Política de Aristóteles (século IV a.C.). A versão mais completa e influente é a de Ovídio nas Metamorfoses (século I d.C.), onde os dois mitos — o ouro e as orelhas de burro — aparecem narrados em sequência no Livro XI.