Como a guerra moldou a ciência e a tecnologia
A história da ciência e da tecnologia está profundamente entrelaçada com a da guerra. Conflitos armados concentraram recursos, talento e urgência política de uma forma que poucas outras circunstâncias conseguiram, acelerando descobertas que, em tempo de paz, poderiam ter demorado décadas. Muitas tecnologias hoje banais — desde o forno de micro-ondas ao sistema GPS do telemóvel — têm origem direta em esforços militares. Ao mesmo tempo, esta relação levanta questões éticas e mostra um padrão recorrente de "dupla utilização", em que a mesma invenção serve a destruição e, mais tarde, o quotidiano civil. Em 2026, com a guerra na Ucrânia a funcionar como laboratório global de sistemas autónomos, este ciclo mantém-se tão atual como sempre.
Por que razão a guerra acelera a inovação?
A guerra cria condições raras de concentração de esforço. Os Estados passam a financiar a investigação sem as restrições orçamentais habituais, recrutam os melhores cientistas e engenheiros e impõem prazos curtos sob pena de derrota. A necessidade de superar o adversário gera uma competição tecnológica intensa, em que cada avanço é rapidamente respondido por outro. Acresce que a tolerância ao risco aumenta: ideias consideradas demasiado dispendiosas ou especulativas em tempo de paz tornam-se prioridades nacionais.
Este modelo tem custos evidentes. A inovação militar nasce orientada para matar ou destruir, e só posteriormente encontra aplicações pacíficas. Além disso, muito do conhecimento gerado permanece secreto durante anos, atrasando o seu benefício civil. Ainda assim, o impacto histórico é inegável e atravessa praticamente todos os domínios do saber.
Da Antiguidade à pólvora
A ligação entre guerra e técnica é antiga. Na Grécia e em Roma, engenheiros conceberam catapultas, balistas e máquinas de cerco que exigiam conhecimentos avançados de mecânica e geometria. Arquimedes, no século III a.C., aplicou os seus estudos matemáticos à defesa de Siracusa. A metalurgia desenvolveu-se em larga medida pela procura de armas e armaduras mais resistentes.
A introdução da pólvora na Europa, a partir do século XIV, transformou não só a arte da guerra como a própria sociedade. A artilharia tornou obsoletas as muralhas medievais, alterou a arquitetura militar e estimulou avanços na química e na metalurgia. A balística — o estudo do movimento dos projéteis — impulsionou a matemática e a física aplicada, influenciando figuras como Galileu e Newton.
As guerras mundiais como ponto de viragem
O século XX representou o auge desta relação. A Primeira Guerra Mundial introduziu a aviação militar, os gases tóxicos, os tanques e o uso massivo do telégrafo e da rádio. A indústria química expandiu-se enormemente, com consequências duradouras na produção de fertilizantes e materiais.
A Segunda Guerra Mundial foi, porém, o conflito que mais profundamente moldou a ciência moderna. Vários campos nasceram ou amadureceram sob a pressão do esforço de guerra:
- Radar: desenvolvido sobretudo no Reino Unido, foi decisivo na Batalha de Inglaterra. Há quem argumente que contribuiu mais para a vitória aliada do que a bomba atómica. A engenharia de equipamentos eletrónicos pequenos e fiáveis lançou as bases da eletrónica moderna e, mais tarde, da televisão, da aviação civil e da meteorologia.
- Energia nuclear: o Projeto Manhattan reuniu milhares de cientistas e culminou nas bombas de Hiroxima e Nagasáqui. A mesma física abriu caminho à energia nuclear civil e à medicina nuclear.
- Computação: a necessidade de decifrar códigos inimigos levou à construção de máquinas como o Colossus britânico, precursoras dos computadores eletrónicos. Alan Turing e a equipa de Bletchley Park lançaram fundamentos da informática.
- Penicilina: embora descoberta antes da guerra, foi a urgência de tratar feridos que motivou a sua produção em massa, inaugurando a era dos antibióticos.
- Foguetões: os mísseis V-2 alemães foram os primeiros a alcançar o espaço e tornaram-se a base dos programas espaciais norte-americano e soviético.
A Guerra Fria e o nascimento da era digital
A rivalidade entre os Estados Unidos e a União Soviética prolongou este impulso durante décadas. A corrida ao espaço, motivada por preocupações militares e de prestígio, produziu satélites, foguetões e, em 1969, a chegada do homem à Lua. Dela resultaram tecnologias de comunicações por satélite e de observação da Terra hoje essenciais.
Foi também neste período que surgiram dois pilares do mundo contemporâneo. O GPS foi concebido pelas forças armadas norte-americanas para navegação de precisão, seguindo de perto o sistema LORAN da Segunda Guerra; só mais tarde se abriu ao uso civil. A Internet nasceu da ARPANET, um projeto do Departamento de Defesa dos EUA destinado a criar uma rede de comunicações descentralizada e resistente a falhas, capaz de sobreviver a um ataque. Dessa arquitetura robusta nasceu a rede global que sustenta hoje a economia digital.
A guerra e a tecnologia em 2026
O padrão histórico mantém-se vivo. A guerra na Ucrânia tornou-se o principal campo de ensaio mundial de sistemas não tripulados e de inteligência artificial aplicada ao combate. Os drones, sobretudo os modelos de baixo custo e controlados por software, revolucionaram a forma de combater: a chamada "zona de morte" junto à linha da frente estende-se já por mais de quinze quilómetros. A IA assume funções de reconhecimento de alvos, navegação autónoma e coordenação de enxames de drones com supervisão humana mínima.
Em dezembro de 2024, forças ucranianas realizaram a primeira operação totalmente não tripulada, sem infantaria, combinando veículos terrestres autónomos e drones FPV. Os orçamentos refletem esta prioridade: o pedido do Pentágono para o ano fiscal de 2026 inclui 13,4 mil milhões de dólares para sistemas autónomos com IA, dos quais 9,4 mil milhões para veículos aéreos não tripulados. Em fevereiro de 2026, a Comissão Europeia apresentou um plano de ação para drones centrado na deteção e proteção, pedindo aos Estados-membros que testem as suas redes 5G como sistema de alerta precoce.
Tal como no passado, estas tecnologias militares deverão transbordar para usos civis — na logística, na agricultura de precisão, na resposta a catástrofes e na visão computacional. A novidade, e a principal preocupação ética de 2026, reside na crescente autonomia das armas: o debate internacional sobre os limites das máquinas que decidem matar sem intervenção humana intensifica-se à medida que a tecnologia avança mais depressa do que a regulação.
Perguntas frequentes
Que tecnologias do dia a dia tiveram origem militar?
O GPS, a Internet, o forno de micro-ondas (derivado da tecnologia de radar), os antibióticos em produção massiva, as comunicações por satélite e muitos avanços em computação e aviação têm origem direta em investigação militar, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria.
Porque é que a guerra acelera o progresso científico?
Os conflitos concentram financiamento, talento e urgência política sem as restrições habituais de tempo de paz, aumentam a tolerância ao risco e criam uma competição intensa entre adversários, condições que comprimem em poucos anos avanços que de outro modo levariam décadas.
A guerra é a única forma de impulsionar a inovação?
Não. Programas civis como a exploração espacial pacífica, a investigação médica e a transição energética também geram grandes avanços. A inovação militar tem ainda o custo de nascer orientada para a destruição e de manter o conhecimento secreto durante anos.
Qual é a tecnologia de guerra que mais marca 2026?
Os drones autónomos e a inteligência artificial aplicada ao combate, testados em larga escala no conflito da Ucrânia, com enxames coordenados e reconhecimento de alvos automatizado, são a fronteira tecnológica e o centro do debate ético atual.