UNIVAC I: como funcionava o primeiro computador comercial
O UNIVAC I (Universal Automatic Computer I) foi o primeiro computador eletrónico digital de uso geral produzido em série e comercializado nos Estados Unidos. Desenvolvido entre 1948 e 1951 pelos engenheiros J. Presper Eckert e John Mauchly, representou a transição da computação dos laboratórios científicos para as grandes organizações governamentais e empresariais. Em 2026, mais de sete décadas volvidas, permanece um marco incontornável na história da tecnologia.
Origem e contexto histórico
Eckert e Mauchly já tinham concebido o ENIAC (Electronic Numerical Integrator and Computer) em 1945, considerado o primeiro computador eletrónico de grande escala de uso geral. Em 1946, fundaram a Eckert-Mauchly Computer Corporation (EMCC) com a ambição de criar um computador verdadeiramente comercializável. Em 1948, a EMCC assinou um contrato com o Serviço de Recenseamento dos Estados Unidos para construir o primeiro UNIVAC, destinado ao processamento dos dados do censo de 1950.
Em 1950, a EMCC foi adquirida pela Remington Rand — que mais tarde faria parte da Sperry e, finalmente, da Unisys. Ainda assim, o projeto prosseguiu: o primeiro exemplar foi entregue ao Serviço de Recenseamento a 31 de março de 1951 e inaugurado oficialmente a 14 de junho desse mesmo ano.
Arquitetura: um computador de programa armazenado
A diferença fundamental entre o UNIVAC I e o ENIAC residia na arquitetura de base. O ENIAC era um computador de programa fixo: para executar uma tarefa diferente, era necessário reconfigurar fisicamente os seus painéis de ligações e comutadores, um processo que podia demorar horas. O UNIVAC I, pelo contrário, foi concebido desde a raiz como um computador de programa armazenado (stored-program computer): as instruções e os dados eram carregados na memória interna e a máquina executava-os sequencialmente, sem necessidade de reconfigurações físicas entre tarefas.
A unidade central de processamento operava a uma frequência de 2,25 MHz e conseguia realizar cerca de 1 900 operações aritméticas por segundo — um desempenho extraordinário para a época, embora quase inconcebivelmente lento face aos padrões atuais, em que um processador doméstico executa vários milhares de milhões de operações por segundo.
A memória de linhas de atraso de mercúrio
O UNIVAC I utilizava uma tecnologia de armazenamento chamada mercury delay line memory (memória de linhas de atraso de mercúrio). A memória tinha capacidade para 1 000 palavras, cada uma composta por 12 caracteres de 7 bits (6 bits de dados e 1 bit de paridade), organizada em 100 canais, cada um capaz de armazenar 10 palavras.
O princípio de funcionamento era engenhoso: pulsos elétricos eram convertidos em ondas sonoras por um transdutor piezoelétrico numa extremidade de um tubo preenchido com mercúrio líquido. O som percorria o mercúrio a cerca de 1 450 metros por segundo, chegava ao transdutor na outra extremidade, era reconvertido em sinal elétrico, amplificado e reinjetado no início do tubo — mantendo assim os dados em circulação contínua. O tempo médio de acesso a um dado era de aproximadamente 222 microssegundos.
Uma característica crítica deste sistema era a sensibilidade à temperatura: a velocidade do som no mercúrio varia com o calor, pelo que era indispensável manter os tubos a uma temperatura rigorosamente controlada para garantir a integridade dos dados armazenados.
Dimensões físicas e sistema de arrefecimento
O UNIVAC I era uma máquina de dimensões imponentes. Ocupava aproximadamente 35,5 metros quadrados de área útil e pesava cerca de 13 toneladas. No seu interior existiam mais de 5 000 válvulas de vácuo — os componentes ativos da época —, responsáveis pelas operações lógicas e aritméticas.
O funcionamento simultâneo de tantas válvulas gerava quantidades enormes de calor. Para prevenir sobreaquecimentos e avarias, toda a estrutura era atravessada por uma rede de tubagens por onde circulava água fria. Este sistema de arrefecimento a água era um componente essencial da infraestrutura operacional de cada instalação, tornando a implantação de um UNIVAC I um projeto de engenharia civil tanto quanto de informática.
Entrada e saída de dados
A interação com o UNIVAC I fazia-se através de um conjunto limitado de dispositivos especializados. A entrada e saída principal de dados processava-se por até dez unidades de fita magnética UNISERVO — as primeiras unidades de fita magnética comercializadas para computadores. As fitas eram fabricadas em bronze fosforoso com revestimento magnético, tinham meia polegada de largura e podiam atingir 400 metros de comprimento. A densidade de gravação era de 128 bits por polegada, com uma taxa de transferência de 7 200 caracteres por segundo.
Além das unidades de fita, o sistema dispunha de uma consola de operação com teclado, uma máquina de escrever elétrica Remington Standard para saída de texto e um osciloscópio para monitorização do estado interno. Os resultados finais eram primeiro gravados numa fita de saída e depois impressos numa impressora separada, não ligada diretamente ao computador principal.
Utilizações e impacto histórico
O primeiro UNIVAC I foi usado pelo Serviço de Recenseamento para processar os dados do censo de 1950, reduzindo de anos para meses o tempo necessário para apurar os resultados. Os clientes seguintes incluíram o Departamento do Exército dos Estados Unidos, a Força Aérea, a Comissão de Energia Atómica e grandes empresas privadas como a General Electric e a Prudential Insurance.
A notoriedade pública do UNIVAC chegou na noite de 4 de novembro de 1952, durante a cobertura televisiva das eleições presidenciais norte-americanas pela CBS. O quinto exemplar produzido foi utilizado ao vivo para prever o resultado eleitoral. Com apenas 5,5% dos votos apurados, o computador previu uma vitória esmagadora de Dwight D. Eisenhower sobre Adlai Stevenson: 438 votos eleitorais para Eisenhower contra 93 para Stevenson. O resultado final foi 442 contra 89 — um desvio inferior a 1%. A previsão era tão precisa que os responsáveis da CBS, desconfiando da máquina, hesitaram em transmiti-la em direto, optando por aguardar a confirmação. O episódio transformou o UNIVAC num símbolo da nova era da computação.
Ao todo, foram produzidas e entregues 46 unidades do UNIVAC I. O preço inicial era de 159 000 dólares, mas subiu progressivamente até valores entre 1 250 000 e 1 500 000 dólares por unidade — uma quantia que, corrigida para os valores de 2026, representa vários milhões de dólares.
Legado
O UNIVAC I demonstrou que os computadores podiam ser máquinas fiáveis e produtivas em contextos não científicos, abrindo o caminho para a era da computação empresarial. Os princípios que adotou — programa armazenado, armazenamento em suporte magnético e separação entre processamento e dispositivos periféricos — tornaram-se pilares da arquitetura de todos os computadores posteriores. Em 2026, a consola original do UNIVAC I entregue ao Serviço de Recenseamento está preservada no Smithsonian Institution, em Washington D.C., e o Computer History Museum, em Mountain View, Califórnia, conserva documentação e componentes originais como peça central do seu acervo histórico.
Perguntas frequentes
O UNIVAC I foi o primeiro computador do mundo?
Não. O UNIVAC I foi o primeiro computador eletrónico digital comercializado em série nos Estados Unidos. Antes dele existiram máquinas como o Colossus britânico (1944) e o ENIAC americano (1945), mas eram exemplares únicos, construídos para fins específicos e não produzidos para venda comercial.
Como era programado o UNIVAC I?
O UNIVAC I era um computador de programa armazenado. Os programas eram escritos em linguagem máquina, gravados em fita magnética e carregados na memória interna. A partir daí, a unidade de processamento executava as instruções sequencialmente, sem necessidade de reconfigurar fisicamente a máquina entre tarefas.
Por que razão a memória de mercúrio precisava de controlo de temperatura?
Porque a velocidade do som no mercúrio varia com a temperatura. Se a temperatura oscilasse, os pulsos sonoros que representavam os dados percorriam os tubos em tempos diferentes do previsto, chegando ao transdutor fora da janela de leitura correta. Isso causaria erros na recuperação dos dados, corrompendo a informação armazenada.
Quantas unidades do UNIVAC I foram construídas?
Foram produzidas e entregues 46 unidades do UNIVAC I entre 1951 e 1958, principalmente a organismos governamentais e militares dos Estados Unidos, mas também a algumas grandes empresas privadas.
Qual era a velocidade do UNIVAC I em comparação com os computadores atuais?
O UNIVAC I executava cerca de 1 900 operações por segundo a 2,25 MHz. Um processador doméstico atual executa vários milhares de milhões de operações por segundo, sendo a diferença de desempenho de muitas ordens de grandeza.