Como Jerusalém foi reconquistada durante as Cruzadas
Jerusalém permaneceu sob domínio cristão durante quase noventa anos depois de ter sido tomada pelos cruzados em 1099, no culminar da Primeira Cruzada. Essa situação mudou de forma decisiva em 1187, quando o sultão Saladino, líder da dinastia aiúbida do Egipto e da Síria, derrotou o exército do Reino de Jerusalém e recuperou a cidade santa para o islão, pondo fim ao primeiro reino latino do Oriente. A reconquista não resultou de um único combate, mas de uma campanha que combinou uma vitória militar esmagadora, um cerco cuidadosamente conduzido e uma negociação de rendição que ficou registada como um dos episódios mais estudados das Cruzadas.
O contexto: o Reino Latino de Jerusalém antes de 1187
Após a conquista de 1099, marcada por um massacre generalizado da população muçulmana e judaica da cidade, os cruzados fundaram o Reino de Jerusalém, um dos quatro estados latinos criados no Levante. Durante décadas, este reino coexistiu com os poderes muçulmanos vizinhos através de tréguas e alianças pontuais, mas a unificação política do Egipto e da Síria sob Saladino, a partir da década de 1170, alterou o equilíbrio de forças a favor dos muçulmanos. As provocações do nobre cruzado Reinaldo de Chatillon, que atacou caravanas de peregrinos e comboios comerciais mesmo durante períodos de trégua, forneceram a Saladino o pretexto para uma ofensiva em larga escala contra o reino cristão.
A Batalha de Hatim: o golpe decisivo
Em julho de 1187, Saladino invadiu o Reino de Jerusalém com um exército de dimensão pouco habitual para a época. O rei Guy de Lusignan, pressionado por facções rivais na corte, decidiu enfrentar Saladino em campo aberto em vez de esperar por reforços, e conduziu o exército cruzado através de território árido, longe de fontes de água, na direção dos Chifres de Hatim, perto do Mar da Galileia. A 4 de julho de 1187, o exército cristão, exausto e desidratado, foi cercado e aniquilado. A derrota custou aos cruzados a quase totalidade das suas forças militares, a captura do próprio rei Guy e a perda da relíquia da Vera Cruz, que era transportada para dar ânimo às tropas. Sem exército para defender as cidades do reino, estas foram capitulando uma a uma perante o avanço de Saladino.
O cerco de Jerusalém
Com o reino praticamente desguarnecido, a defesa de Jerusalém ficou entregue a Balião de Ibelin, um dos poucos nobres que escapara a Hatim e que se encontrava na cidade quando esta ficou isolada. Balião armou apressadamente cidadãos e clérigos para engrossar a guarnição, mas as forças disponíveis eram manifestamente insuficientes face ao exército de Saladino.
O cerco propriamente dito decorreu entre 20 de setembro e 2 de outubro de 1187. Saladino posicionou inicialmente as suas tropas junto ao lado ocidental da cidade, mas deslocou depois o grosso do ataque para o Monte das Oliveiras, a leste, onde as muralhas eram mais vulneráveis. Bombardeamentos com catapultas e o recurso a minas escavadas sob as fundações provocaram, a 29 de setembro, a rutura de parte das muralhas nessa zona. Perante a iminência de uma invasão pela brecha, Balião viu-se sem condições militares para prolongar a resistência.
A rendição e as suas condições
Consciente de que uma tomada pela força poderia repetir o massacre de 1099, Balião negociou diretamente com Saladino a rendição da cidade. O sultão aceitou permitir que a população cristã abandonasse Jerusalém mediante o pagamento de um resgate por pessoa. Perante a impossibilidade de milhares de habitantes pobres pagarem essa quantia, Saladino acabou por reduzir os valores exigidos e autorizou a saída, sem pagamento, de mulheres, crianças, idosos e doentes, além de libertar um número significativo de prisioneiros sem qualquer contrapartida. A 2 de outubro de 1187, a cidade foi entregue pacificamente às forças aiúbidas, sem o derramamento de sangue que marcara a conquista cruzada quase noventa anos antes. Este comportamento de Saladino, amplamente contrastado pelos cronistas da época com o massacre de 1099, contribuiu para consolidar a sua reputação de generosidade, mesmo entre autores europeus posteriores.
As consequências: o fim do primeiro reino e a Terceira Cruzada
A notícia da queda de Jerusalém abalou profundamente a cristandade ocidental e levou o Papa Gregório VIII a apelar a uma nova cruzada. A Terceira Cruzada, que reuniu figuras como Ricardo Coração de Leão de Inglaterra, Filipe II de França e o imperador Frederico Barba-Ruiva do Sacro Império, conseguiu reconquistar cidades costeiras importantes, como Acre, e infligiu derrotas a Saladino em batalhas como a de Arsuf, mas não logrou retomar Jerusalém. Ricardo Coração de Leão chegou a aproximar-se da cidade por duas vezes, mas concluiu que não teria meios para a defender depois de a conquistar, e optou por negociar antes um acordo. O Tratado de Jafa, assinado em 1192, deixou Jerusalém sob soberania muçulmana, mas garantiu aos peregrinos cristãos o livre acesso à cidade e aos seus locais sagrados.
Recuperações posteriores e a perda definitiva
Jerusalém voltaria brevemente a mãos cristãs em 1229, não por via militar, mas através de um tratado diplomático negociado pelo imperador Frederico II com o sultão aiúbida al-Kamil, no âmbito da Sexta Cruzada. Esse acordo devolveu a cidade, praticamente desmilitarizada, ao controlo cristão por cerca de quinze anos. Esta segunda posse cristã terminou definitivamente em 1244, quando mercenários corásmios, aliados de facções muçulmanas locais, saquearam a cidade, pondo fim, de forma irreversível, à presença política cristã em Jerusalém durante o período das Cruzadas.
Perguntas frequentes
Quem reconquistou Jerusalém aos cruzados?
Foi o sultão Saladino, fundador da dinastia aiúbida e governante do Egipto e da Síria, que retomou Jerusalém em outubro de 1187, após a vitória decisiva sobre os cruzados na Batalha de Hatim.
Quando decorreu o cerco de Jerusalém de 1187?
O cerco durou de 20 de setembro a 2 de outubro de 1187, terminando com a rendição negociada da cidade por Balião de Ibelin.
Houve um massacre quando Saladino tomou Jerusalém?
Não. Ao contrário da conquista cruzada de 1099, Saladino permitiu a saída pacífica da maioria dos habitantes cristãos mediante resgate, dispensando o pagamento a quem não tinha meios para o pagar.
Os cristãos voltaram a controlar Jerusalém depois de 1187?
Sim, brevemente. Através de um tratado diplomático assinado em 1229 pelo imperador Frederico II, a cidade regressou ao controlo cristão até 1244, ano em que foi definitivamente perdida.
Porque falhou a Terceira Cruzada em recuperar Jerusalém pela força?
Apesar das vitórias militares, sobretudo de Ricardo Coração de Leão, os cruzados concluíram que não teriam recursos suficientes para defender Jerusalém depois de a conquistarem, optando por um acordo que garantia o acesso dos peregrinos cristãos à cidade em vez do seu domínio político.