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Como os indígenas descrevem a criação do mundo

Publicado 11. junho 2025 Atualizado 26. junho 2026

Como os indígenas descrevem a criação do mundo?

As narrativas indígenas sobre a origem do mundo formam um dos conjuntos mais ricos e diversos do património oral da humanidade. Não existe uma única versão: cada povo elaborou a sua própria cosmogonia — o relato de como o universo, a terra, os seres vivos e as regras de convivência passaram a existir. Apesar dessa enorme variedade, os investigadores que comparam estas tradições encontram padrões recorrentes que se repetem em continentes distantes entre si, sinal de que a humanidade, perante as mesmas perguntas, chegou a respostas surpreendentemente semelhantes. Este artigo apresenta os principais modelos de criação descritos por povos originários e ilustra-os com exemplos concretos.

O que é uma cosmogonia indígena

Cosmogonia é o relato mítico que explica a origem do cosmos e de tudo o que nele existe. Nas tradições indígenas, estes relatos não são meras histórias de entretenimento: funcionam simultaneamente como explicação da origem do mundo, como código moral, como carta de leis sociais e como mapa do território. Descrevem por que razão os rios correm onde correm, de onde vieram os primeiros antepassados, qual a relação entre os seres humanos, os animais e as plantas, e que comportamentos garantem o equilíbrio. Por isso, falar da criação do mundo, para muitos destes povos, é falar ao mesmo tempo de geografia, de religião e de organização da comunidade.

Os grandes modelos de criação

A mitologia comparada identifica um pequeno número de estruturas que se repetem nas narrativas de criação de todo o mundo. As categorias não são estanques — uma mesma tradição combina frequentemente várias delas —, mas servem para organizar a leitura.

  • O mergulhador da terra (earth-diver): num oceano primordial sem terra firme, um ser — muitas vezes um animal, como o pato, a lontra, o castor ou o rato-almiscarado — mergulha até ao fundo das águas e traz uma porção de lama ou areia, a partir da qual cresce o mundo habitável.
  • A emergência: os antepassados surgem do interior da terra ou de mundos inferiores, atravessando uma série de etapas e transformações até alcançarem o mundo atual. Estes relatos costumam ligar-se às migrações e à fixação do povo no seu território.
  • Os pais do mundo: o mundo nasce da separação ou do corpo de um casal primordial, geralmente o Céu e a Terra, cuja divisão abre espaço para a vida.
  • A criação a partir do caos: existe primeiro um estado indefinido — escuridão, silêncio, águas sem forma — que vai sendo ordenado.
  • A criação a partir do nada (ex nihilo) e pela palavra ou pelo pensamento: uma divindade origina a existência por vontade, sopro ou enunciado.

Exemplos de povos e das suas narrativas

Guarani: a criação pela palavra

Na tradição guarani, povo presente em vasta área da América do Sul, a figura central é Ñamandu (também grafado Nhamandu ou Nhanderu), o «nosso primeiro pai». A criação desdobra-se a partir da sua emanação e está intimamente associada à palavra-alma, ao fundamento sagrado da linguagem. Da sua ação surgem outras divindades, como Kuaray, ligado ao sol, e Tupã, associado ao trovão. É uma cosmogonia em que o verbo e o som ocupam o lugar que noutras culturas cabe à matéria.

Maias: o Popol Vuh

O Popol Vuh, livro sagrado dos maias da América Central, descreve um princípio em que tudo era silêncio e escuridão, existindo apenas o céu e o mar em calma. Os progenitores Tepeu e Gucumatz põem-se de acordo e, pela palavra, fazem surgir a terra, as montanhas, os animais e, por fim, o ser humano — modelado, segundo o relato, a partir do milho, alimento que está no centro da vida maia.

Iroqueses: a mulher do céu e o mergulhador

Entre os iroqueses, da América do Norte, conta-se que uma divindade feminina caiu do céu sobre um mundo coberto de água. Animais como o castor, a lontra, o pato e o rato-almiscarado mergulharam para trazer lama do fundo, que foi depositada sobre o dorso de uma tartaruga, formando a ilha onde a vida se desenvolveu. É um exemplo clássico do modelo do mergulhador da terra.

Aborígenes australianos: o Tempo do Sonho

Os povos aborígenes da Austrália referem-se à criação através do Tempo do Sonho (Dreaming ou Dreamtime). Trata-se do período ancestral em que seres totémicos percorreram uma terra ainda sem forma, modelando a paisagem, criando os primeiros humanos, os animais e as plantas, e instituindo as leis sociais. O Tempo do Sonho não é apenas um passado distante: é entendido como uma realidade contínua que une passado, presente e futuro, e que se mantém viva através de cantos, danças, arte rupestre e cerimónias.

Maori: a separação do Céu e da Terra

Na Nova Zelândia, a tradição maori narra a união de Ranginui, o Pai-Céu, e de Papatuanuku, a Mãe-Terra, abraçados num aperto que mantinha os filhos presos na escuridão. Só quando estes conseguem afastar os pais — separando o céu da terra — entra a luz e o mundo ganha espaço para a vida. É um dos exemplos mais nítidos do modelo dos pais do mundo.

Elementos recorrentes

Apesar das distâncias geográficas, certos motivos repetem-se. Muitas narrativas partem de um estado primordial de águas, escuridão ou vazio. Os animais surgem frequentemente como protagonistas ou auxiliares da criação, e não apenas como criaturas criadas. A palavra, o canto e o pensamento aparecem repetidamente como forças geradoras. E o ser humano costuma ser modelado a partir de elementos da própria terra — barro, milho ou madeira —, o que sublinha a ideia de pertença ao mundo natural em vez de domínio sobre ele.

Transmissão e relevância em 2026

Estas cosmogonias são, na sua maioria, tradições orais, transmitidas de geração em geração por contadores, anciãos e cerimónias, e não fixadas por escrito até épocas recentes. Essa oralidade explica por que existem múltiplas versões de uma mesma narrativa, todas legítimas dentro da sua comunidade. Em 2026, instituições culturais, universidades e organizações dos próprios povos continuam a registar, traduzir e preservar estes relatos, num esforço de salvaguarda do património imaterial e de reconhecimento de que constituem formas próprias e válidas de explicar o mundo. Para os povos que as mantêm vivas, descrever a criação não é evocar um mito do passado, mas reafirmar uma identidade e uma relação com o território que permanecem ativas.

Perguntas frequentes

Existe um único mito indígena de criação?

Não. Cada povo possui a sua própria cosmogonia, e até dentro do mesmo povo coexistem várias versões. Há, no entanto, modelos recorrentes — como o mergulhador da terra, a emergência e a separação do Céu e da Terra — que se repetem em culturas distantes entre si.

O que é o mergulhador da terra?

É um modelo de criação em que, num mundo coberto por água, um animal mergulha até ao fundo e traz uma porção de lama ou areia a partir da qual cresce a terra firme. Surge, por exemplo, na tradição iroquesa, na América do Norte.

O que é o Tempo do Sonho dos aborígenes australianos?

É o período ancestral em que seres totémicos criaram a paisagem, os seres vivos e as leis sociais. É entendido não apenas como um passado, mas como uma realidade contínua, mantida viva através de cantos, danças, arte e cerimónias.

Por que razão os animais aparecem tantas vezes na criação?

Em muitas tradições indígenas, o ser humano integra a natureza em vez de a dominar. Por isso, animais como o pato, a lontra ou a tartaruga participam ativamente na formação do mundo, refletindo uma relação de continuidade entre pessoas, animais e ambiente.

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