Ginkgo Biloba: benefícios, usos e evidência científica
O Ginkgo biloba é uma das plantas medicinais mais antigas e estudadas do mundo, com uma história de utilização terapêutica que remonta a milénios na medicina tradicional chinesa. Os seus extratos figuram hoje entre os suplementos fitoterápicos mais vendidos a nível global, comercializados sobretudo para melhorar a memória, a concentração e a circulação sanguínea. A ciência, porém, apresenta um quadro mais matizado: a evidência é promissora em algumas áreas, mas limitada e contraditória noutras, como confirmam as revisões mais recentes disponíveis em 2026.
O que é o ginkgo biloba
Ginkgo biloba é a única espécie sobrevivente da divisão Ginkgophyta, um grupo de plantas com mais de 270 milhões de anos. Nativa da China, a árvore é frequentemente designada como «fóssil vivo» pela sua extraordinária longevidade e resistência — alguns exemplares vivem mais de mil anos. As folhas em forma de leque, com dois lóbulos distintos (daí o nome biloba), são a parte da planta utilizada na produção de extratos medicinais padronizados.
O extrato mais estudado clinicamente denomina-se EGb 761, cuja formulação padronizada contém 24% de glicosídeos flavonóides e 6% de terpenos lactonas. Esta padronização é essencial para garantir consistência nos resultados dos ensaios clínicos e comparabilidade entre estudos.
Composição e princípios ativos
Os principais compostos bioativos do Ginkgo biloba dividem-se em dois grandes grupos:
- Flavonóides (quercetina, kaempferol, isorhamnetina e bioflavonóides como ginkgetina e bilobetina): atuam como antioxidantes e anti-inflamatórios, protegendo as células nervosas dos danos causados pelos radicais livres.
- Terpenos lactonas (ginkgolídeos A, B, C e bilobalido): responsáveis principalmente pelos efeitos na circulação, inibindo o fator de ativação plaquetária (PAF) e melhorando o fluxo sanguíneo a nível da microcirculação.
Estes compostos atuam de forma sinérgica: os flavonóides contribuem para a proteção celular oxidativa, enquanto os terpenóides promovem a vasodilatação, estimulam a produção de óxido nítrico e reduzem a agregação plaquetária, com efeitos particularmente notados na circulação cerebral.
Principais benefícios estudados
Função cognitiva e memória
O uso mais amplamente divulgado do Ginkgo biloba é a suposta melhoria da memória e da função cognitiva, especialmente em adultos mais velhos e em doentes com declínio cognitivo ligeiro ou doença de Alzheimer. Uma meta-análise publicada em 2026 na ScienceDirect, que avaliou 82 ensaios clínicos randomizados com um total de 10 613 participantes, concluiu que o extrato EGb 761 produziu melhorias modestas mas clinicamente relevantes em cognição, nas atividades da vida diária e no estado funcional global, comparativamente ao placebo.
Contudo, os investigadores alertam que a qualidade metodológica da maioria dos estudos é baixa — amostras reduzidas (mediana de 92 participantes), ausência de ocultação adequada e protocolos não pré-registados. Um estudo de longa duração, que acompanhou mais de 3 000 idosos durante oito anos, não encontrou qualquer benefício significativo do Ginkgo biloba na prevenção de demência face ao placebo. O balanço atual da evidência é, por isso, inconclusivo.
Circulação sanguínea e doença arterial periférica
Uma das áreas com evidência mais consistente é o tratamento adjuvante da doença arterial periférica. Estudos demonstram que o Ginkgo biloba aumenta, de forma modesta, a distância percorrida sem dor em doentes com claudicação intermitente, graças aos seus efeitos vasodilatadores e antiagregantes plaquetários. O mecanismo envolve a inibição do PAF, o aumento da produção de óxido nítrico e a melhoria da fluidez sanguínea.
Propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias
A atividade antioxidante do Ginkgo biloba é uma das propriedades mais bem documentadas em estudos in vitro e em modelos animais. Os flavonóides neutralizam radicais livres e reduzem marcadores de stress oxidativo, o que poderá ter implicações protetoras a nível neuronal, cardiovascular e metabólico. A ação anti-inflamatória complementa este efeito, inibindo determinadas vias inflamatórias celulares.
Depressão pós-AVC e diabetes tipo 2
Estudos exploratórios sugerem que o Ginkgo biloba, quando combinado com antidepressivos, pode reduzir os sintomas de depressão em doentes com sequelas de acidente vascular cerebral (AVC). Há também investigação preliminar que aponta para um benefício coadjuvante na diabetes tipo 2, sobretudo em combinação com metformina, com reduções observadas na glicemia em jejum e na hemoglobina glicada (HbA1c). Estes são, no entanto, resultados de ensaios de pequena dimensão que carecem de confirmação em estudos mais robustos.
Saúde ocular
Ao contrário do que por vezes é afirmado, uma revisão sistemática de 2025 concluiu que o Ginkgo biloba não se revelou eficaz na melhoria da pressão intraocular, da visão ou de outros parâmetros em doentes com glaucoma, não sendo recomendado para esta indicação com base na evidência disponível.
Limitações da evidência científica em 2026
O American Council on Science and Health publicou em março de 2026 uma análise crítica concluindo que as alegações de benefício do Ginkgo biloba não são suportadas por evidência forte e consistente. O National Center for Complementary and Integrative Health (NCCIH) dos Estados Unidos mantém uma posição cautelosa, afirmando não existir evidência conclusiva de que o Ginkgo biloba beneficie qualquer condição de saúde de forma clinicamente definitiva.
Os principais problemas metodológicos identificados na investigação existente incluem: amostras pequenas, heterogeneidade nos critérios de inclusão, diferentes formulações e dosagens entre estudos, e elevado risco de viés de publicação — muitos ensaios de origem chinesa apresentam resultados sistematicamente mais favoráveis do que os realizados no contexto ocidental.
Efeitos secundários e contraindicações
O perfil de segurança do Ginkgo biloba é, em geral, favorável nas doses recomendadas, com efeitos adversos comparáveis aos do placebo na maioria dos estudos. Os efeitos secundários mais frequentes incluem náuseas, desconforto gastrointestinal, cefaleias, tonturas e palpitações. Em doses elevadas, pode aumentar o risco de hemorragia, razão pela qual deve ser interrompido pelo menos duas semanas antes de qualquer intervenção cirúrgica.
As principais contraindicações são:
- Gravidez (risco de trabalho de parto prematuro e hemorragia excessiva);
- Amamentação;
- Perturbações hemorrágicas;
- Epilepsia ou historial de convulsões, dado que pode baixar o limiar convulsivo;
- Hipersensibilidade ao extrato.
As interações medicamentosas merecem atenção particular. O Ginkgo biloba potencia o efeito de anticoagulantes (como a varfarina) e antiagregantes plaquetários (como a aspirina), aumentando significativamente o risco de hemorragia. Pode ainda reduzir a eficácia de anticonvulsivantes, de estatinas (sinvastatina, atorvastatina) e de determinados antidepressivos serotoninérgicos. A combinação com o anti-hipertensor nifedipina pode intensificar os efeitos adversos deste último, como rubor, cefaleia e edema nos tornozelos.
Dosagem e formas de toma
O Ginkgo biloba é comercializado em cápsulas, comprimidos e extratos líquidos. As doses utilizadas nos ensaios clínicos variam geralmente entre 120 mg e 240 mg de extrato seco padronizado por dia, divididos em duas ou três tomas. As posologias mais comuns são 40 mg três vezes ao dia ou 60 a 80 mg duas vezes ao dia. Antes de iniciar qualquer suplementação, é essencial consultar um médico ou farmacêutico, em especial para pessoas com patologias cardiovasculares, que tomem medicação anticoagulante ou que se preparem para uma intervenção cirúrgica.
Perguntas frequentes
O ginkgo biloba melhora a memória?
A evidência científica é inconclusiva. Alguns estudos apontam para melhorias modestas em cognição e memória em idosos ou doentes com declínio cognitivo, mas ensaios clínicos de grande dimensão e longa duração não demonstraram benefício significativo na prevenção de demência face ao placebo.
Quais são os principais efeitos secundários do ginkgo biloba?
Os efeitos secundários mais comuns incluem náuseas, cefaleias, tonturas, desconforto gastrointestinal e palpitações. Em doses elevadas existe risco aumentado de hemorragia, especialmente em quem toma anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários.
O ginkgo biloba pode ser tomado com outros medicamentos?
Não sem supervisão médica. O ginkgo biloba interage com anticoagulantes (como a varfarina), antiagregantes plaquetários, anti-inflamatórios não esteroides, estatinas, anticonvulsivantes e antidepressivos serotoninérgicos. Estas interações podem ser clinicamente significativas e aumentar o risco de hemorragia ou reduzir a eficácia de outros fármacos.
Qual é a dose habitual de ginkgo biloba?
As doses estudadas clinicamente variam entre 120 mg e 240 mg de extrato padronizado por dia, em duas ou três tomas. A formulação mais estudada é o EGb 761, com 24% de glicosídeos flavonóides e 6% de terpenos lactonas.
Quem não deve tomar ginkgo biloba?
Grávidas, mulheres a amamentar, pessoas com perturbações hemorrágicas, epilepsia ou que vão ser submetidas a cirurgia devem evitar o ginkgo biloba. É igualmente contraindicado em caso de hipersensibilidade ao extrato e deve ser suspenso pelo menos duas semanas antes de qualquer procedimento cirúrgico.