Ginkgo Biloba: Benefícios, Usos e Efeitos Secundários
O Ginkgo biloba é uma das plantas medicinais mais estudadas do mundo e uma das mais antigas ainda existentes. Considerado um «fóssil vivo», este género de árvore surgiu há cerca de 270 milhões de anos e sobreviveu praticamente inalterado até à atualidade. Originário da China, onde é cultivado há milénios, o extrato das suas folhas é amplamente utilizado como suplemento alimentar, sobretudo por alegados benefícios na memória, na circulação sanguínea e na proteção neurológica. A investigação científica contemporânea confirma algumas destas propriedades, mas também impõe reservas importantes quanto à eficácia em certas indicações.
Composição química e princípios ativos
A atividade biológica do Ginkgo biloba deve-se principalmente a dois grupos de compostos presentes nas folhas: os flavonoides (como a quercetina, o campferol e a isoramnetina) e os terpenos trilactônicos, que incluem os ginkgolídeos A, B, C e J e o bilobalídeo. Os ginkgolídeos atuam como antagonistas do fator de ativação plaquetária (PAF), inibindo a agregação plaquetária. O bilobalídeo tem sido associado a propriedades neuroprotetoras. Os extratos padronizados disponíveis comercialmente — denominados EGb 761 — contêm tipicamente 24% de glicosídeos de flavonoides e 6% de terpenos trilactônicos, assegurando uma composição reprodutível para fins de investigação clínica.
Benefícios e usos documentados
Função cognitiva e memória
O uso mais divulgado do Ginkgo biloba prende-se com a melhoria da função cognitiva, em particular da memória e da concentração. Estudos clínicos, incluindo ensaios publicados em revistas como o Journal of Alzheimer's Disease, documentaram benefícios modestos em doentes com demência ligeira a moderada e com défices cognitivos associados ao envelhecimento. O mecanismo proposto envolve o aumento do fluxo sanguíneo cerebral e a proteção dos neurónios contra o stress oxidativo e a apoptose. Uma análise bibliométrica publicada em 2025 na base Scopus, que revisou 1420 documentos publicados entre 1988 e 2024, confirma que o Ginkgo biloba permanece um dos suplementos mais estudados enquanto agente de melhoria cognitiva. Contudo, os resultados são heterogéneos: múltiplos ensaios controlados aleatorizados não conseguiram demonstrar benefícios estatisticamente significativos em adultos saudáveis sem comprometimento cognitivo diagnosticado.
Circulação sanguínea e doença arterial periférica
Uma das indicações com evidência científica mais consistente diz respeito à claudicação intermitente, condição em que a má circulação nas pernas provoca dor durante a marcha. Vários ensaios clínicos demonstraram que o extrato de Ginkgo biloba aumenta a distância percorrida sem dor em doentes com doença arterial periférica. Em fevereiro de 2026, investigadores publicaram dados que evidenciam igualmente um aumento mensurável do fluxo coronariano com a suplementação continuada, sugerindo potenciais efeitos cardiovasculares mais amplos que merecem investigação adicional. O mecanismo está relacionado com a vasodilatação e com a inibição da agregação plaquetária promovida pelos ginkgolídeos.
Propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias
Os flavonoides presentes no extrato de Ginkgo biloba são potentes neutralizadores de radicais livres, conferindo à planta uma capacidade antioxidante documentada tanto em modelos in vitro como em estudos animais. Esta ação pode contribuir para a proteção das células contra danos oxidativos associados ao envelhecimento e a doenças crónicas. A componente anti-inflamatória tem sido explorada em contextos de investigação oncológica: um estudo publicado em 2025 na revista Frontiers in Immunology evidenciou que o extrato de Ginkgo biloba suprime a progressão do carcinoma hepatocelular através da inibição do recrutamento de células supressoras de origem mieloide, o que abre novas perspetivas de investigação, ainda em fase pré-clínica.
Zumbido (acufenos) e saúde auditiva
O Ginkgo biloba é frequentemente indicado para o tratamento do zumbido, condição de difícil tratamento farmacológico. Embora alguns estudos tenham registado melhorias sintomáticas, uma revisão sistemática da Cochrane concluiu que as evidências não são suficientemente robustas para recomendar o suplemento de forma sistemática nesta indicação. Os resultados variam consoante a origem e a intensidade do zumbido.
Saúde ocular
Estudos exploratórios analisaram o potencial do Ginkgo biloba no glaucoma e na degenerescência macular relacionada com a idade (DMRI), com base na sua capacidade de melhorar a microcirculação ocular. As evidências são ainda preliminares e insuficientes para sustentar recomendações clínicas formais.
Limitações e controvérsia científica
Apesar da popularidade, a investigação científica sobre o Ginkgo biloba é marcada por uma significativa heterogeneidade metodológica: diferenças nos extratos utilizados, nas doses, na duração dos ensaios e nos critérios de inclusão dos participantes dificultam a comparação de resultados. O grande estudo GuidAge, realizado em França com mais de 2800 participantes com mais de 70 anos durante cinco anos, concluiu que o suplemento não reduziu a incidência de demência nem de doença de Alzheimer. Dados de 2026 reconfirmam esta limitação em populações idosas sem declínio cognitivo prévio. O Instituto Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos (NCCIH) e o Manual MSD reconhecem que, embora exista alguma evidência de benefício para indicações específicas — como a claudicação intermitente e os sintomas cognitivos ligeiros —, o balanço da evidência geral permanece inconclusivo para várias das utilizações promovidas no mercado.
Formas de consumo e dosagem
O Ginkgo biloba está disponível em cápsulas, comprimidos, tinturas e chás de folhas secas. Nos ensaios clínicos que documentaram benefícios, a dose mais utilizada situou-se entre 120 mg e 240 mg de extrato padronizado por dia, dividida em duas a três tomas. Os efeitos, quando existem, tendem a manifestar-se ao fim de quatro a seis semanas de uso contínuo. O chá de folhas secas tem uma concentração de princípios ativos variável e inferior à dos extratos padronizados, o que limita a sua comparabilidade com os estudos clínicos disponíveis. As folhas cruas e as sementes não devem ser ingeridas sem processamento, uma vez que contêm ácidos ginkgólicos em concentrações potencialmente tóxicas.
Efeitos secundários e contraindicações
O Ginkgo biloba é geralmente bem tolerado nas doses recomendadas, mas pode provocar efeitos secundários em alguns indivíduos, nomeadamente cefaleias, tonturas, perturbações gastrointestinais e, mais raramente, reações alérgicas cutâneas. Dado o efeito antiplaquetário dos ginkgolídeos, o risco de hemorragia aumenta quando o suplemento é combinado com anticoagulantes (como a varfarina) ou antiagregantes plaquetários (como o ácido acetilsalicílico e o clopidogrel). As seguintes situações contraindicam ou exigem precaução no uso do suplemento:
- Gravidez e amamentação
- Perturbações da coagulação ou da hemostase
- Epilepsia (os ginkgolídeos podem reduzir o limiar convulsivo)
- Período pré-operatório (recomenda-se a suspensão pelo menos duas semanas antes de qualquer cirurgia)
- Uso concomitante de medicamentos anticoagulantes ou antidepressivos inibidores da recaptação da serotonina
- Crianças (ausência de dados de segurança)
Antes de iniciar qualquer suplementação, é aconselhável consultar um médico ou farmacêutico, em especial em caso de polimedicação ou doenças crónicas.
Perguntas frequentes
O Ginkgo biloba melhora realmente a memória?
Existem evidências científicas de benefício moderado em pessoas com declínio cognitivo ligeiro ou demência precoce. Em adultos saudáveis sem comprometimento cognitivo diagnosticado, a maioria dos ensaios clínicos não demonstrou melhorias significativas na memória ou na cognição.
O Ginkgo biloba previne a doença de Alzheimer?
Não. O estudo GuidAge e outros ensaios de larga escala demonstraram que o Ginkgo biloba não reduz a incidência de doença de Alzheimer nem de outras formas de demência em pessoas idosas, mesmo após anos de suplementação contínua.
Qual é a dose recomendada de Ginkgo biloba?
Nos estudos clínicos com resultados positivos, a dose habitualmente utilizada situa-se entre 120 mg e 240 mg de extrato padronizado (EGb 761) por dia, dividida em duas ou três tomas. Os efeitos tendem a surgir ao fim de quatro a seis semanas de uso regular.
O Ginkgo biloba pode ser tomado com outros medicamentos?
Não sem aconselhamento médico. O Ginkgo biloba interage com anticoagulantes, antiagregantes plaquetários, alguns antidepressivos e medicamentos para a epilepsia, podendo aumentar o risco de hemorragia ou alterar a eficácia terapêutica de outros fármacos.
O Ginkgo biloba serve para o zumbido?
Alguns estudos registaram melhorias sintomáticas em doentes com zumbido (acufenos), mas a revisão sistemática Cochrane concluiu que as evidências são insuficientes para recomendar o suplemento de forma generalizada nesta indicação. Os resultados variam conforme a causa e a intensidade do zumbido.