Mounjaro (tirzepatida): como funciona e efeitos no organismo
A tirzepatida, comercializada sob o nome Mounjaro, é um medicamento injetável desenvolvido pela farmacêutica norte-americana Eli Lilly que representa uma nova geração de terapias para a diabetes mellitus tipo 2 e para a gestão do peso corporal. Ao contrário de fármacos anteriores que atuam sobre um único recetor hormonal, a tirzepatida tem um mecanismo de ação duplo, combinando a ativação dos recetores GIP e GLP-1, o que a distingue de outras moléculas da sua classe e tem produzido resultados expressivos nos ensaios clínicos realizados até 2026.
O que é a tirzepatida
A tirzepatida é um péptido sintético de cadeia única concebido para mimetizar simultaneamente dois péptidos intestinais: o péptido inibidor gástrico (GIP, do inglês glucose-dependent insulinotropic polypeptide) e o péptido semelhante ao glucagão tipo 1 (GLP-1, do inglês glucagon-like peptide-1). Estas duas hormonas são produzidas naturalmente pelo intestino delgado em resposta à ingestão de alimentos e desempenham um papel central na regulação da glicemia e do apetite.
A molécula foi desenhada para ter uma afinidade particularmente elevada para o recetor GIP e uma afinidade parcial para o recetor GLP-1, conferindo-lhe um perfil farmacológico único — descrito pelos investigadores como um agonista «desequilibrado e biased» — distinto dos agonistas puros do GLP-1, como a semaglutida ou a liraglutida.
Como funciona: mecanismo de ação
A tirzepatida atua em paralelo sobre dois sistemas hormonais com funções complementares.
Ação sobre os recetores GLP-1
Os recetores GLP-1 encontram-se sobretudo nas células beta do pâncreas, no sistema nervoso central e no aparelho digestivo. A sua estimulação produz os seguintes efeitos:
- Estimulação da secreção de insulina de forma dependente da glicose: o pâncreas liberta mais insulina apenas quando os níveis de açúcar no sangue são elevados, o que minimiza o risco de hipoglicemia;
- Supressão do glucagão: a libertação desta hormona — que promove a produção hepática de glicose — é inibida, contribuindo para a redução da glicemia;
- Abrandamento do esvaziamento gástrico: os alimentos transitam mais lentamente do estômago para o intestino, atenuando os picos de glicose pós-prandiais;
- Redução do apetite: através de ação no hipotálamo e em outras áreas do sistema nervoso central, aumenta a sensação de saciedade e reduz a ingestão calórica.
Ação sobre os recetores GIP
A componente GIP é o que distingue a tirzepatida das terapias anteriores. Os recetores GIP estão expressos no pâncreas, mas também — ao contrário dos recetores GLP-1 — no tecido adiposo branco e castanho, no sistema nervoso central, no coração e no córtex adrenal. Esta distribuição mais ampla confere à tirzepatida efeitos que vão além do controlo glicémico:
- Potenciação da secreção de insulina: a ação conjunta de GIP e GLP-1 sobre as células beta parece ser sinérgica, amplificando a resposta insulínica;
- Melhoria da sensibilidade à insulina: estudos publicados no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism demonstraram que a tirzepatida melhora a sensibilidade à insulina por mecanismos tanto dependentes como independentes da perda de peso;
- Redistribuição e metabolismo da gordura: no tecido adiposo branco, a ativação do recetor GIP favorece o armazenamento correto de lípidos, reduzindo a deposição ectópica de gordura no músculo e no fígado — fenómeno associado à resistência à insulina;
- Aumento do dispêndio energético: no tecido adiposo castanho, a tirzepatida estimula a oxidação de ácidos gordos e de aminoácidos de cadeia ramificada, contribuindo para um maior gasto calórico.
Indicações clínicas aprovadas
Na União Europeia, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) aprovou o Mounjaro em setembro de 2022 para o tratamento da diabetes mellitus tipo 2 em adultos cuja glicemia não é controlada de forma adequada apenas com dieta e exercício físico. Em 2024, a aprovação foi alargada à gestão do peso em adultos com obesidade (índice de massa corporal igual ou superior a 30 kg/m²) ou com excesso de peso (IMC ≥ 27 kg/m²) associado a pelo menos uma comorbilidade relacionada com o peso, como hipertensão arterial, dislipidemia ou síndrome de apneia obstrutiva do sono.
Em Portugal, o medicamento passou a estar disponível nas farmácias a partir de novembro de 2024, sendo de venda exclusiva mediante receita médica e sem comparticipação pelo Serviço Nacional de Saúde.
Resultados dos ensaios clínicos
A eficácia da tirzepatida foi avaliada em dois programas de ensaios clínicos de fase III: o programa SURPASS (diabetes tipo 2) e o programa SURMOUNT (gestão do peso).
Nos ensaios SURPASS, envolvendo mais de 10 000 participantes com diabetes tipo 2, a tirzepatida reduziu a hemoglobina glicada (HbA1c) em até 2,24 pontos percentuais e o peso corporal em até 11,2 kg face ao placebo, superando comparadores como a semaglutida e a insulina degludec.
Nos ensaios SURMOUNT, em participantes com obesidade ou excesso de peso sem diabetes, a dose máxima de 15 mg de tirzepatida produziu uma redução média do peso corporal de cerca de 20 a 22% ao fim de 72 semanas. O ensaio SURMOUNT-5, de comparação direta com semaglutida 2,4 mg (Wegovy), demonstrou que a tirzepatida proporcionou uma perda de peso significativamente superior ao longo das 72 semanas do estudo. O ensaio SURMOUNT-MAINTAIN, ainda em curso em 2026, avalia a manutenção da perda de peso a longo prazo após suspensão do tratamento.
Efeitos secundários mais comuns
Os efeitos secundários mais frequentes são de natureza gastrointestinal e estão relacionados com o abrandamento do esvaziamento gástrico:
- Náuseas
- Vómitos
- Diarreia
- Obstipação
- Dor ou desconforto abdominal
- Dispepsia
Estes sintomas tendem a ser mais intensos nas primeiras semanas de tratamento ou após aumentos de dose, diminuindo progressivamente na grande maioria dos doentes. A estratégia de titulação gradual da dose — iniciando em 2,5 mg por semana e aumentando de quatro em quatro semanas até à dose-alvo — existe precisamente para minimizar estes efeitos.
Efeitos secundários graves e contraindicações
Embora raros, alguns efeitos adversos requerem atenção médica imediata:
- Pancreatite aguda: foram reportados casos isolados nos ensaios clínicos; dor abdominal intensa e persistente deve ser avaliada com urgência;
- Colelitiase e colecistite: a perda de peso rápida aumenta o risco de formação de cálculos biliares;
- Hipoglicemia: o risco é baixo em monoterapia, mas aumenta quando a tirzepatida é combinada com insulina ou sulfonilureias;
- Complicações da retinopatia diabética: o controlo glicémico agressivo pode, paradoxalmente, agravar temporariamente a retinopatia em doentes com história desta complicação;
- Taquicardia: alguns doentes referem aumento transitório da frequência cardíaca.
A tirzepatida está contraindicada em pessoas com história pessoal ou familiar de carcinoma medular da tiroide ou neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN2) — embora a associação com tumores da tiroide tenha sido observada apenas em modelos animais e não confirmada em humanos, a precaução é mantida por razões regulatórias. Está igualmente contraindicada durante a gravidez e a amamentação.
Posologia e administração
A tirzepatida é administrada por injeção subcutânea uma vez por semana, de preferência no mesmo dia e à mesma hora. A injeção pode ser feita no abdómen, na coxa ou na parte superior do braço. O medicamento apresenta-se em autocanetas pré-cheias nas doses de 2,5 mg, 5 mg, 7,5 mg, 10 mg, 12,5 mg e 15 mg. Deve ser conservado no frigorífico entre 2 e 8 °C, podendo ser mantido à temperatura ambiente (até 30 °C) durante um máximo de 21 dias.
Perguntas frequentes
A tirzepatida é o mesmo que a semaglutida?
Não. Embora ambos sejam administrados por injeção semanal e atuem sobre o recetor GLP-1, a tirzepatida é a única a ativar também o recetor GIP. Esta ação dupla confere-lhe um mecanismo diferente e, nos ensaios clínicos disponíveis até 2026, resultados superiores em termos de perda de peso em comparação com a semaglutida 2,4 mg.
O Mounjaro pode ser usado para emagrecer sem diabetes?
Sim. Desde 2024, o Mounjaro está aprovado pela EMA para a gestão do peso em adultos com obesidade (IMC ≥ 30) ou excesso de peso (IMC ≥ 27) com pelo menos uma comorbilidade associada, independentemente de terem ou não diabetes tipo 2.
Quais são os efeitos secundários mais comuns do Mounjaro?
Os mais frequentes são gastrointestinais: náuseas, vómitos, diarreia e obstipação. Tendem a ser mais intensos no início do tratamento e a diminuir com o tempo. A titulação gradual da dose ajuda a reduzir estes sintomas.
O Mounjaro tem comparticipação em Portugal?
Não, pelo menos em 2026. O Mounjaro está disponível nas farmácias portuguesas desde novembro de 2024 mas não é comparticipado pelo Serviço Nacional de Saúde, o que implica que o custo é integralmente suportado pelo doente.
O que acontece se se parar o Mounjaro após atingir o peso desejado?
Os ensaios clínicos mostram que a interrupção do tratamento leva tipicamente à recuperação de uma parte significativa do peso perdido. Tal indica que a tirzepatida funciona como um tratamento de controlo crónico e não curativo, à semelhança de medicamentos para a hipertensão ou a dislipidemia.