Erupção do Vesúvio: o que aconteceu em 79 d.C.
A erupção do Vesúvio em 79 d.C. foi uma das catástrofes naturais mais bem documentadas da Antiguidade. Em pouco mais de um dia, o vulcão situado na baía de Nápoles, no sul de Itália, sepultou sob cinzas, pedra-pomes e correntes piroclásticas as cidades romanas de Pompeia, Herculano, Estábias e Oplontis. O acontecimento congelou no tempo a vida de uma comunidade inteira e tornou-se, séculos mais tarde, uma das mais valiosas janelas para o quotidiano do Império Romano. Investigações de 2025 e 2026 continuam a acrescentar pormenores a esta história.
O que foi a erupção do Vesúvio
O Vesúvio é um estratovulcão que dominava uma região densamente povoada e próspera da Campânia. Antes de 79 d.C., os habitantes nem sequer o reconheciam claramente como um vulcão ativo: as suas encostas estavam cobertas de vinhas e quintas. A erupção foi do tipo hoje classificado como pliniano — designação derivada precisamente do relato deste evento — caracterizado por uma coluna eruptiva extremamente alta de gases e material vulcânico, seguida do colapso dessa coluna em avalanches ardentes.
Estima-se que o vulcão tenha libertado milhares de milhões de toneladas de material e que a coluna eruptiva tenha atingido cerca de 30 a 33 quilómetros de altura, projetando cinza e fragmentos de rocha a velocidades supersónicas. A energia térmica libertada terá sido muitas vezes superior à da bomba atómica de Hiroshima.
Quando ocorreu: o debate sobre a data
Durante séculos, assumiu-se que a erupção começou a 24 de agosto de 79 d.C., data transmitida por cópias medievais das cartas de Plínio, o Jovem. Contudo, a investigação arqueológica veio pôr essa data em causa.
Em 2018, foi descoberta em Pompeia uma inscrição a carvão numa parede, datada do "décimo sexto dia antes das calendas de novembro" — ou seja, 17 de outubro. Como o carvão é frágil e não sobreviveria muito tempo, presume-se que a inscrição tenha sido feita pouco antes da catástrofe. A esta evidência juntam-se outros indícios sazonais: restos de frutos típicos do outono, como romãs, figos e nozes, recipientes de vinho ainda selados após as vindimas e o uso de roupas mais pesadas pelas vítimas. O conjunto aponta para uma erupção no outono de 79 d.C., provavelmente em outubro, embora não exista ainda consenso absoluto entre os especialistas, como sublinhavam reportagens científicas em 2026.
Como se desenrolou a erupção
A erupção desenvolveu-se em fases bem distintas, que a vulcanologia moderna conseguiu reconstituir com grande precisão a partir das camadas de depósitos. Estudos recentes descrevem mesmo uma sequência minuto a minuto que se prolongou por cerca de 32 horas.
Fase pliniana
Na primeira fase, a coluna eruptiva ergueu-se durante horas, fazendo cair sobre Pompeia uma chuva contínua de pedra-pomes e cinza. Esta acumulação atingiu vários metros de espessura e provocou o colapso de muitos telhados, esmagando quem ali se abrigava. Muitos habitantes terão fugido durante esta fase; outros permaneceram, talvez na esperança de que a queda de material amainasse.
Fase das correntes piroclásticas
Na madrugada seguinte, a coluna colapsou e geraram-se correntes piroclásticas — avalanches de gás, cinza e fragmentos a temperaturas que poderão ter ultrapassado os 300 °C, deslocando-se a grande velocidade. Foram estas ondas ardentes, e não a lava, que mataram a maioria das vítimas que ainda permaneciam na região, sufocando-as e queimando-as quase instantaneamente.
Pompeia e Herculano: destinos diferentes
Embora frequentemente associadas, Pompeia e Herculano tiveram experiências distintas. Pompeia, situada a sotavento, foi sobretudo afetada pela queda de pomes e cinza durante a primeira fase, ficando enterrada sob cerca de quatro a seis metros de material. As cavidades deixadas pelos corpos decompostos permitiram, no século XIX, ao arqueólogo Giuseppe Fiorelli desenvolver a técnica dos moldes de gesso, que revelam as posições exatas em que muitas vítimas morreram.
Herculano, mais próxima do vulcão, foi atingida diretamente pelas correntes piroclásticas e soterrada sob mais de vinte metros de material. O calor intenso carbonizou — em vez de destruir — madeira, alimentos, papiros e tecidos, preservando objetos orgânicos que raramente sobrevivem noutros sítios arqueológicos.
O testemunho de Plínio
O relato escrito mais importante deve-se a Plínio, o Jovem, que observou a erupção a partir de Miseno, do outro lado da baía. Em duas cartas dirigidas ao historiador Tácito, descreveu a coluna de fumo com a forma de um pinheiro-manso, a chuva de cinzas e o pânico generalizado. O seu tio, Plínio, o Velho, naturalista e comandante da frota romana, dirigiu-se à zona afetada para auxiliar no resgate e acabou por morrer, provavelmente asfixiado pelos gases. Estes documentos são uma das mais antigas descrições detalhadas de uma erupção vulcânica.
Quantas pessoas morreram
Foram já recuperados os restos mortais de mais de 1500 pessoas em Pompeia e Herculano, mas o número total de vítimas permanece desconhecido. As estimativas variam consideravelmente, podendo o total de mortos na região ter superado os 16 000. Muitos habitantes terão conseguido fugir nas primeiras horas, o que dificulta qualquer contagem definitiva.
O que a ciência revelou recentemente
As escavações e as análises laboratoriais continuam a produzir descobertas. Entre os avanços mais recentes destacam-se:
- Vidro orgânico a partir de tecido cerebral. Em fevereiro de 2025, investigadores descreveram a formação invulgar de um vidro orgânico a partir do cérebro de uma vítima de Herculano, resultado de aquecimento extremo seguido de arrefecimento muito rápido — um fenómeno tido como único.
- Reconstrução facial com inteligência artificial. Em 2026, foi divulgada a primeira reconstrução digital, com recurso a IA, do rosto de um homem morto na erupção, numa tentativa de aproximar o público da investigação sem abandonar o rigor científico.
- Estudos petrológicos da câmara magmática. Um trabalho publicado em 2025 analisou a composição química dos materiais expelidos para reconstituir como a câmara magmática se preencheu e se esvaziou durante a erupção.
- Novos achados em Pompeia. As escavações em curso continuam a trazer à luz estruturas e objetos notáveis, como uma grande carruagem cerimonial de quatro rodas encontrada quase intacta nos arredores da cidade.
O Vesúvio hoje
O Vesúvio permanece um vulcão ativo e é considerado um dos mais perigosos do mundo, sobretudo pela densidade populacional que o rodeia: vivem hoje cerca de três milhões de pessoas na sua zona de influência. A última erupção significativa ocorreu em 1944. As autoridades italianas mantêm planos de evacuação e monitorização permanente, precisamente por causa da memória do que aconteceu em 79 d.C.
Perguntas frequentes
Em que ano ocorreu a erupção do Vesúvio que destruiu Pompeia?
A erupção ocorreu no ano 79 d.C. A data tradicional era 24 de agosto, mas evidências arqueológicas recentes apontam antes para o outono, provavelmente outubro desse ano.
O que matou os habitantes de Pompeia e Herculano?
A maioria das vítimas morreu devido às correntes piroclásticas — avalanches de gás e cinza a temperaturas muito elevadas — e ao colapso de telhados sob o peso da pedra-pomes, e não pela lava.
Qual a diferença entre Pompeia e Herculano?
Pompeia foi sepultada sobretudo pela queda de cinza e pomes, enquanto Herculano foi atingida diretamente por correntes piroclásticas e soterrada a maior profundidade, o que carbonizou e preservou materiais orgânicos.
O Vesúvio ainda está ativo em 2026?
Sim. O Vesúvio continua ativo e é vigiado de forma permanente. A sua última erupção significativa ocorreu em 1944, e cerca de três milhões de pessoas vivem na sua zona de risco.