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Livros Apócrifos: O Que São e Qual a Sua Importância

Publicado 25. novembro 2024 Atualizado 28. junho 2026

O que são livros apócrifos e qual a sua importância?

Os livros apócrifos são textos religiosos antigos, ligados às tradições judaica e cristã, que não foram incluídos no cânone oficial das Escrituras reconhecido por determinada confissão. O termo deriva do grego apókryphos, que significa "oculto" ou "escondido", e designava originalmente obras reservadas a círculos restritos ou cuja autoria e ortodoxia eram consideradas duvidosas. Apesar de excluídos do cânone, estes escritos tiveram enorme influência na arte, na liturgia, na devoção popular e na própria compreensão histórica das origens do cristianismo e do judaísmo do Segundo Templo.

O significado da palavra "apócrifo"

A noção de apócrifo só faz sentido por oposição à de cânone — do grego kanón, "regra" ou "vara de medir" —, isto é, a lista dos livros que uma comunidade religiosa considera inspirados e normativos para a fé e a doutrina. Tudo o que fica fora dessa lista é, por definição, extracanónico.

O sentido do termo variou ao longo do tempo. Inicialmente neutro, passou a ter, sobretudo a partir de São Jerónimo (século IV-V), uma conotação negativa, associada a textos de origem incerta, lendária ou herética. Por isso, "apócrifo" acabou por significar, na linguagem corrente, algo de autenticidade duvidosa.

Apócrifos e deuterocanónicos: uma distinção essencial

Um dos pontos que mais gera confusão é a diferença de vocabulário entre as confissões cristãs. Existe um conjunto de sete livros — Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (Sirácida), Baruc e o primeiro e segundo livros dos Macabeus, além de passagens em grego de Ester e de Daniel — que recebe tratamento diferente consoante a tradição:

  • A Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas chamam-lhes deuterocanónicos ("do segundo cânone") e incluem-nos plenamente na Bíblia. Este cânone alargado foi confirmado de modo definitivo no Concílio de Trento, em 1546.
  • As Igrejas protestantes, seguindo o cânone hebraico mais restrito, designam esses mesmos livros como apócrifos e colocam-nos numa categoria inferior ou excluem-nos das suas edições.

Por outras palavras, aquilo a que um católico chama "deuterocanónico" é frequentemente o que um protestante chama "apócrifo". É preciso distinguir estes livros — aceites por uma parte importante da cristandade — dos apócrifos propriamente ditos, que nenhuma das grandes tradições integra nas Escrituras.

Os apócrifos do Antigo e do Novo Testamento

Os apócrifos no sentido estrito abrangem dezenas de obras, habitualmente repartidas em dois grandes grupos.

Apócrifos do Antigo Testamento

Incluem textos do judaísmo do Segundo Templo, como o Livro de Henoc (Enoque), o Livro dos Jubileus, os Salmos de Salomão ou o quarto livro de Esdras. Muitos são de género apocalíptico e desenvolvem temas como o juízo final, os anjos e o destino dos justos. Curiosamente, o Livro de Henoc é considerado canónico pela Igreja Ortodoxa Etíope, o que mostra como as fronteiras do cânone nunca foram absolutamente universais.

Apócrifos do Novo Testamento

Este é o conjunto mais conhecido do grande público. Compreende evangelhos, atos, epístolas e apocalipses atribuídos a apóstolos ou a figuras próximas de Jesus, mas redigidos, na sua maioria, entre o século II e o século IV. Entre os mais célebres contam-se o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Pedro, o Protoevangelho de Tiago, o Evangelho de Judas e o Evangelho de Maria Madalena. Vários destes textos refletem correntes gnósticas, que propunham uma visão alternativa da salvação assente no conhecimento secreto.

As grandes descobertas arqueológicas

O conhecimento moderno dos apócrifos foi transformado por dois achados do século XX. Em 1945, junto à localidade egípcia de Nag Hammadi, foi descoberta uma biblioteca de doze códices de papiro contendo cerca de cinquenta tratados, na maioria gnósticos, entre os quais uma versão completa do Evangelho de Tomé. Dois anos depois, em 1947, começaram a surgir os Manuscritos do Mar Morto, em Qumran, que revelaram a riqueza literária do judaísmo da época de Jesus.

A investigação académica continua ativa. Estudos recentes têm comparado as duas coleções — distintas na origem, na data e na comunidade que as produziu —, mas que partilham interesses comuns, como a tradição do Livro dos Vigilantes (ligada a Henoc) ou a figura de Melquisedec. Estas obras ajudam a compreender a enorme diversidade do pensamento religioso antes de o cânone se ter fixado.

Qual é a importância dos livros apócrifos?

A relevância destes textos não depende de serem ou não considerados inspirados. O seu valor é sobretudo histórico, cultural e religioso:

  • Compreender a formação do cânone: mostram que a definição dos livros sagrados foi um processo longo e debatido, e não uma decisão instantânea.
  • Conhecer a diversidade do cristianismo primitivo: revelam correntes, comunidades e debates teológicos que de outro modo permaneceriam desconhecidos.
  • Influência na devoção e na tradição: elementos populares como os nomes dos pais de Maria (Joaquim e Ana), o boi e o burro no presépio ou pormenores da infância de Jesus provêm de apócrifos como o Protoevangelho de Tiago, e não dos evangelhos canónicos.
  • Impacto na arte e na literatura: a iconografia cristã, da pintura à escultura, está repleta de cenas inspiradas nestes relatos.
  • Fonte para a investigação histórica: constituem documentos preciosos para historiadores, filólogos e estudiosos das religiões.

Perguntas frequentes

Os livros apócrifos fazem parte da Bíblia?

Depende da confissão. Os sete livros deuterocanónicos integram a Bíblia católica e ortodoxa, mas as Bíblias protestantes não os incluem ou colocam-nos à parte. Os apócrifos em sentido estrito, como o Evangelho de Tomé, não fazem parte de nenhuma Bíblia oficial das grandes tradições cristãs.

Por que motivo foram excluídos do cânone?

As razões incluíram dúvidas sobre a autoria e a datação, o facto de muitos terem sido escritos tardiamente (séculos II a IV) e a presença de ideias consideradas heréticas, sobretudo de matriz gnóstica, que divergiam da doutrina das comunidades que fixaram o cânone.

Qual é a diferença entre apócrifo e deuterocanónico?

São termos usados por tradições diferentes para realidades parcialmente sobrepostas. Os católicos chamam "deuterocanónicos" a sete livros que aceitam como inspirados; os protestantes chamam a esses mesmos livros "apócrifos". Além disso, há apócrifos que nenhuma tradição reconhece como canónicos.

Os apócrifos contradizem os evangelhos canónicos?

Alguns apresentam visões teológicas divergentes, sobretudo os textos gnósticos, mas outros limitam-se a desenvolver episódios ou pormenores ausentes dos evangelhos canónicos, como a infância de Jesus ou a vida de Maria, sem necessariamente os contrariar.

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