Mali: o que precisa de saber sobre este país africano
O Mali é um país sem litoral situado no coração da África Ocidental, conhecido tanto pela herança de um dos maiores impérios medievais africanos como pela instabilidade política e pelos conflitos armados que persistem no século XXI. Com uma área de cerca de 1 240 000 quilómetros quadrados e uma população que ronda os 25,9 milhões de habitantes em 2026, o Mali é o oitavo maior país de África, mas também um dos mais pobres do mundo. O país atravessa actualmente uma das fases mais críticas da sua história recente, marcada por uma junta militar no poder desde 2020, uma aliança com a Rússia e uma escalada sem precedentes da violência armada.
Geografia e território
O Mali confina a norte com a Argélia, a leste com o Níger, a sul com o Burkina Faso e a Costa do Marfim, a sudoeste com a Guiné, e a oeste com o Senegal e a Mauritânia. O território é profundamente marcado pelo contraste entre o vasto deserto do Saara, que ocupa o norte, e as planícies férteis banhadas pelo rio Níger, no sul. O Níger, um dos maiores rios de África, atravessa o país de sudoeste para nordeste, formando o chamado delta interior do Níger, uma zona húmida de enorme importância agrícola e ecológica.
A capital, Bamako, localiza-se no sudoeste, às margens do Níger, e é a maior cidade do país. Outras cidades importantes incluem Ségou, Mopti, Gao e Tombuctu — esta última Património Mundial da UNESCO e célebre centro de saber islâmico medieval, cujas bibliotecas manuscritas conservam documentos únicos da história africana.
História: do Império do Mali à independência
Antes da chegada dos colonizadores europeus, o território que hoje corresponde ao Mali foi sede de alguns dos mais poderosos impérios da África subsariana. O Império do Mali (séculos XIII–XVI) controlou as rotas do ouro e do sal trans-saarianas e atingiu o seu apogeu sob o mansa Musa, cujas peregrinação a Meca em 1324 — acompanhada de quantidades imensas de ouro — tornou o reino famoso em todo o mundo islâmico e na Europa medieval. Precedido pelo Império do Gana e sucedido pelo Império Songhai, o território albergou uma rica tradição intelectual, sendo Tombuctu um dos grandes centros universitários da época.
Com a chegada dos franceses na segunda metade do século XIX, a região foi integrada na África Ocidental Francesa sob o nome de Sudão Francês. A independência chegou de forma faseada: a 20 de Junho de 1960 foi proclamada a Federação do Mali, em conjunto com o Senegal. Porém, o Senegal retirou-se em Agosto do mesmo ano e, a 22 de Setembro de 1960, surgiu oficialmente a República do Mali.
Modibo Keïta, o primeiro presidente, instaurou um regime de partido único com orientação socialista e alinhamento com a União Soviética. A experiência revelou-se economicamente desastrosa e, em Novembro de 1968, um golpe militar liderado por Moussa Traoré derrubou Keïta. Traoré governou mais de duas décadas, até ser deposto por um levantamento popular e militar em 1991, liderado pelo coronel Amadou Toumani Touré, que entregou o poder a um governo de transição civil. O país viveu então um período de democracia multipartidária até ao início da década de 2010.
Instabilidade e conflito: de 2012 à junta actual
Em 2012, uma rebelião tuaregue no norte — alimentada pelo colapso do regime de Kadafi na Líbia e pelo regresso de combatentes tuaregues armados — abriu caminho à expansão de grupos jihadistas ligados à Al-Qaeda. O norte do Mali, incluindo Tombuctu e Gao, caiu sob controlo rebelde. Uma intervenção militar francesa (Operação Serval, janeiro de 2013) travou o avanço sobre Bamako e reconquistou grande parte do território. A missão foi prolongada pela Operação Barkhane (2014–2022), mas os grupos armados não foram eliminados e a violência alastrou ao centro e ao sul do país.
Em Agosto de 2020, um golpe de Estado liderado pelo coronel Assimi Goïta derrubou o presidente Ibrahim Boubacar Keïta. Em Maio de 2021, uma segunda intervenção de Goïta destituiu o governo de transição civil. A junta — o Comité Nacional para a Salvação do Povo (CNSP) — assumiu o controlo total do Estado, e em 2025 Goïta formalizou a sua posição como presidente da República.
A aliança com a Rússia e o afastamento do Ocidente
Após os golpes, o governo de Goïta expulsou as forças francesas, pôs fim à missão europeia Takuba e rompeu as relações militares com Paris. Em contrapartida, virou-se para Moscovo: no final de 2021, mercenários do grupo paramilitar Wagner chegaram ao Mali para apoiar as forças armadas nacionais, trazendo consigo armamento, helicópteros e instrutores. A parceria manteve-se mesmo após a dissolução formal do Grupo Wagner em 2023 e a sua integração nas estruturas militares russas. Em Janeiro de 2024, o Mali formalizou a saída da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e, juntamente com o Burkina Faso e o Níger, criou a Aliança dos Estados do Sahel (AES), um novo bloco regional que rejeita a tutela ocidental e afirma uma soberania plena.
A ofensiva de Abril de 2026: a maior crise em catorze anos
A 25 de Abril de 2026, o Mali foi sacudido por uma vaga de ataques coordenados sem precedentes desde 2012. As ofensivas foram conduzidas conjuntamente pelo Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), grupo jihadista afiliado à Al-Qaeda, e pela Frente de Libertação de Azawad (FLA), constituída por separatistas tuaregues. Os ataques visaram simultaneamente a base militar de Kati, nos arredores de Bamako, e as cidades de Mopti, Gao e outras localidades estratégicas.
O ministro da Defesa, Sadio Camara — um dos pilares da junta e articulador da aliança com a Rússia — foi assassinado quando um carro-bomba explodiu na sua residência. O próprio Goïta foi evacuado de Kati para um local seguro e a sua localização permaneceu desconhecida publicamente durante vários dias. A 28 de Abril, apareceu pela primeira vez em público numa visita a um hospital em Bamako, declarando que a situação estava «sob controlo». Analistas da Chatham House e de outras instituições internacionais sublinharam que a ofensiva demonstra que a segurança no Mali não pode ser alcançada por meios exclusivamente militares.
Economia
O Mali é um dos países mais pobres do mundo, com um Produto Interno Bruto de cerca de 26,6 mil milhões de dólares em 2024. A agricultura de subsistência ocupa a maior parte da população activa, cultivando-se sobretudo algodão, milho e sorgo. O ouro é, porém, o principal produto de exportação e a fonte mais importante de divisas: as minas de Fekola, Loulo-Gounkoto e Sadiola figuram entre as mais produtivas da África Ocidental. O país possui ainda depósitos de fosfatos, sal, urânio e bauxita, em grande parte por explorar. A instabilidade crónica afasta o investimento estrangeiro e perturba as cadeias de abastecimento internas, agravando a pobreza estrutural.
Sociedade e cultura
Em 2026, o Mali conta com cerca de 25,9 milhões de habitantes, com uma mediana de idades de apenas 16,9 anos — reflexo de uma das taxas de natalidade mais elevadas do mundo. A população concentra-se maioritariamente no sul, ao longo do rio Níger. O francês é a língua oficial, mas o bambara é o idioma mais falado no quotidiano, a par do songhai e do tamasheq (a língua dos tuaregues). O Islão é praticado por cerca de 95% da população.
A cultura maliana é rica em tradições musicais, artesanato têxtil — como o bogolan, tecido tingido com lama segundo técnicas ancestrais — e em arquitectura de terra crua. A Grande Mesquita de Djenné, considerada a maior construção de adobe do mundo, é Património Mundial da UNESCO desde 1988 e símbolo maior da identidade cultural do país.
Perguntas frequentes
Qual é a capital do Mali?
A capital do Mali é Bamako, localizada no sudoeste do país, às margens do rio Níger. É a maior cidade e o principal centro económico e administrativo do país.
Quem governa o Mali em 2026?
O Mali é governado pela junta militar liderada por Assimi Goïta, que chegou ao poder através de dois golpes de Estado, em Agosto de 2020 e Maio de 2021. Em 2025, Goïta formalizou a sua posição como presidente da República.
Porque é que o Mali expulsou as forças francesas?
Após os golpes de 2020 e 2021, a junta militar rompeu com a França e com os parceiros ocidentais, considerando a presença militar estrangeira incompatível com a soberania nacional. O Mali aproximou-se da Rússia e do Grupo Wagner como alternativa de segurança.
O que é o JNIM?
O JNIM (Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin, «Grupo de Apoio ao Islão e aos Muçulmanos») é o principal grupo jihadista activo no Sahel, afiliado à Al-Qaeda. Conduziu a grande ofensiva de Abril de 2026 no Mali em conjunto com separatistas tuaregues da Frente de Libertação de Azawad.
Quais são os principais recursos naturais do Mali?
O ouro é o recurso mais importante, sendo o Mali um dos maiores produtores de África. O país possui também fosfatos, sal, urânio e bauxita. A agricultura — sobretudo algodão, sorgo e milho — ocupa a maior parte da população activa.
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