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História do Mali: dos grandes impérios à crise atual

Publicado 12. março 2025 Atualizado 1. julho 2026

Qual é a história do Mali? Descubra os principais eventos!

A história do Mali é uma das mais ricas e complexas da África Ocidental, marcada pela grandeza de impérios medievais que dominaram o comércio transariano, pela colonização francesa, pela conquista da independência em 1960 e, mais recentemente, por uma sucessão de golpes de estado e uma grave crise de segurança que, em 2026, continua a colocar em causa a própria unidade do país. Compreender o percurso do Mali exige olhar tanto para o seu passado glorioso como para os desafios que hoje enfrenta.

Os grandes impérios da África Ocidental

O território que hoje corresponde ao Mali foi berço de alguns dos impérios mais poderosos e ricos da história africana. Entre os séculos VIII e XI, o Império do Gana controlou rotas comerciais de ouro e sal, tornando-se uma referência económica regional. Seguiu-se, a partir do século XIII, o Império do Mali, fundado por Sundiata Keita após a célebre Batalha de Kirina. Este império atingiu o seu apogeu no século XIV sob Mansa Musa, cuja peregrinação a Meca em 1324, marcada por uma ostentação de ouro que terá afetado os mercados do Cairo e do Médio Oriente, o tornou uma das figuras mais ricas de sempre segundo diversos historiadores.

A cidade de Tombuctu tornou-se, nesta época, um centro intelectual e religioso de referência, com mesquitas e madraças que atraíam eruditos de todo o mundo muçulmano. No século XV, o Império Songhai sucedeu ao Império do Mali como principal potência regional, mantendo Tombuctu e Gao como polos de comércio e saber, até ser derrotado por forças marroquinas em 1591.

A colonização francesa e o Sudão Francês

Ao longo do século XIX, a expansão francesa na África Ocidental foi progressivamente submetendo os territórios que hoje formam o Mali. A região foi integrada na colónia do Sudão Francês, parte da vasta África Ocidental Francesa. O domínio colonial impôs uma administração centralizada, culturas de exportação forçadas e uma exploração de recursos que gerou resistência local, nomeadamente através de figuras como Samory Touré, cujo império foi finalmente derrotado pelos franceses em 1898.

O período colonial prolongou-se até meados do século XX, deixando marcas profundas nas estruturas administrativas, na língua oficial e nas fronteiras do país, herdadas sem grande correspondência com as divisões étnicas e culturais pré-existentes.

A independência e o governo de Modibo Keïta

O Mali tornou-se independente da França a 22 de setembro de 1960, após uma breve e fracassada tentativa de federação com o Senegal. O primeiro presidente, Modibo Keïta, implementou um projeto socialista de inspiração marxista, com nacionalizações e um alinhamento próximo do bloco soviético. A gestão económica centralizada revelou-se, no entanto, pouco eficaz, gerando dificuldades financeiras que contribuíram para a sua queda.

Em 1968, um golpe de estado militar liderado pelo tenente Moussa Traoré derrubou Modibo Keïta, dando início a mais de duas décadas de regime autoritário de partido único.

A ditadura de Moussa Traoré e a transição democrática

Moussa Traoré governou o Mali com mão de ferro entre 1968 e 1991, período marcado por repressão política, crises económicas recorrentes e secas devastadoras nas décadas de 1970 e 1980 que agravaram a pobreza no país. O descontentamento popular culminou em manifestações massivas em 1991, brutalmente reprimidas, que acabaram por levar a um golpe militar liderado pelo tenente-coronel Amadou Toumani Touré, o qual conduziu uma transição para a democracia multipartidária.

As eleições de 1992 elegeram Alpha Oumar Konaré, que governou até 2002 e é frequentemente associado a um período de relativa estabilidade e abertura política. Amadou Toumani Touré, entretanto reformado das forças armadas, foi eleito presidente em 2002 e reeleito em 2007, consolidando o Mali como um dos exemplos de democracia funcional na região durante cerca de duas décadas.

A crise de 2012 e a intervenção internacional

O ano de 2012 marcou uma rutura profunda na trajetória do Mali. Uma rebelião tuaregue no norte do país, liderada pelo Movimento Nacional de Libertação do Azawad, aliou-se inicialmente a grupos jihadistas ligados à Al-Qaeda no Magrebe Islâmico, conquistando vastas regiões do norte, incluindo Tombuctu, Gao e Kidal. O descontentamento das forças armadas com a gestão da crise levou a um golpe de estado em março de 2012, que derrubou Amadou Toumani Touré e agravou ainda mais a instabilidade.

Perante o avanço dos grupos jihadistas em direção ao sul, o Mali solicitou apoio militar internacional. Em janeiro de 2013, a França lançou a Operação Serval, que travou a ofensiva jihadista e permitiu recuperar as principais cidades do norte. A intervenção francesa foi posteriormente substituída pela Operação Barkhane e pela missão de manutenção de paz das Nações Unidas, a MINUSMA, enquanto a insurgência jihadista e os conflitos intercomunitários continuaram a afetar o centro e o norte do país ao longo da década seguinte.

Os golpes de estado de 2020 e 2021 e a ascensão de Assimi Goïta

A persistência da violência jihadista, aliada a acusações de corrupção e a uma crise política interna, gerou fortes protestos populares contra o presidente Ibrahim Boubacar Keïta, que culminaram num golpe militar em agosto de 2020. Um governo de transição foi formado, mas em maio de 2021 um segundo golpe, liderado pelo coronel Assimi Goïta, afastou as autoridades de transição civis e consolidou o poder militar.

Sob liderança de Goïta, o Mali distanciou-se progressivamente da França e de parceiros ocidentais, pondo fim à presença da força Barkhane e da MINUSMA, e aproximou-se da Rússia, recorrendo ao apoio de instrutores e mercenários associados ao antigo grupo Wagner, posteriormente reorganizados sob a designação de Corpo Africano. O Mali integrou também, juntamente com o Burkina Faso e o Níger, a Aliança dos Estados do Sahel, um bloco regional que rompeu com a CEDEAO.

O Mali em 2026: uma crise de segurança sem precedentes

Em julho de 2025, as autoridades militares atribuíram a Assimi Goïta um mandato presidencial de cinco anos, renovável sem necessidade de eleições, enquanto todos os partidos políticos foram dissolvidos, consolidando um controlo político quase absoluto por parte da junta.

A situação agravou-se drasticamente em abril de 2026, quando a Frente de Libertação do Azawad e o grupo jihadista Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) lançaram ofensivas conjuntas sem precedentes desde 2012, conquistando várias localidades e bases militares no norte, incluindo a estratégica cidade de Kidal. Nestes ataques, o ministro da Defesa, general Sadio Camara, foi morto num atentado com carro armadilhado na sua residência, expondo fragilidades profundas dentro da própria junta militar.

Assimi Goïta desapareceu da vida pública durante vários dias, alimentando especulação sobre a sua situação, tendo reaparecido a 28 de abril de 2026 para receber o embaixador russo em Mali. A 4 de maio de 2026, assumiu pessoalmente a pasta da Defesa, nomeando o general Umar Diarra como ministro delegado, numa tentativa de reafirmar controlo perante uma crise que revelou uma aliança inédita entre separatistas independentistas e jihadistas, e que continua, em meados de 2026, a testar a resiliência do regime militar maliano.

Perguntas frequentes

Quando é que o Mali se tornou independente?

O Mali tornou-se independente de França a 22 de setembro de 1960, tendo Modibo Keïta sido o primeiro presidente do país.

Quem foi Mansa Musa?

Mansa Musa foi o governante do Império do Mali no século XIV, considerado uma das pessoas mais ricas da história devido às reservas de ouro do império. Ficou célebre pela sua peregrinação a Meca em 1324.

Quantos golpes de estado houve no Mali desde 2012?

Desde 2012, o Mali sofreu quatro golpes de estado: em 2012, contra Amadou Toumani Touré; em agosto de 2020, contra Ibrahim Boubacar Keïta; e em maio de 2021, quando Assimi Goïta afastou as autoridades de transição civis, consolidando o poder militar que se mantém em 2026.

Quem governa o Mali em 2026?

Assimi Goïta é o presidente da transição do Mali em 2026, tendo recebido em 2025 um mandato presidencial de cinco anos renovável sem eleições. Desde maio de 2026 acumula também o cargo de ministro da Defesa.

O que aconteceu no Mali em abril de 2026?

Em abril de 2026, a Frente de Libertação do Azawad e o grupo jihadista JNIM lançaram ofensivas conjuntas contra posições militares malianas, conquistando a cidade de Kidal e matando o ministro da Defesa, general Sadio Camara, na maior vaga de violência no país desde 2012.

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