Esquimó: porque é considerado ofensivo para os inuítes
A palavra "esquimó" foi, durante décadas, o termo mais comum em português e noutras línguas europeias para designar os povos indígenas do Ártico. Contudo, desde a segunda metade do século XX que organizações representativas destes povos e instituições académicas consideram o termo desatualizado e, em muitos contextos, ofensivo, defendendo o uso de "inuit" (ou "inuíte", em português) sempre que aplicável. Esta mudança não é uma simples questão de moda linguística: reflete decisões tomadas pelas próprias comunidades sobre como querem ser nomeadas.
Qual é a origem da palavra "esquimó"?
A etimologia de "esquimó" é debatida, mas o consenso científico atual aponta para uma origem no innu-aimun (língua montagnais, falada por povos algonquinos do leste do Canadá), a partir do termo ayaskimew, que significa aproximadamente "pessoa que amarra raquetes de neve" — uma palavra relacionada com a origem do nome da raça de cão "husky". Nesta leitura, o termo não teria nascido com um sentido depreciativo.
Existe, no entanto, uma segunda teoria, popularizada durante décadas e ainda hoje repetida com frequência, segundo a qual "esquimó" derivaria de raízes proto-algonquinas associadas à ideia de "comedores de carne crua". Mesmo sendo hoje considerada menos provável pelos linguistas, foi esta versão que se difundiu amplamente e que contribuiu para a perceção do termo como uma designação exterior, atribuída por outros povos e carregada de conotações negativas sobre os hábitos alimentares dos povos árticos.
Porque se tornou um termo pejorativo
O problema central de "esquimó" não está apenas na sua etimologia incerta, mas no facto de ser uma designação criada e imposta por outros — primeiro por povos algonquinos vizinhos, depois por exploradores e colonizadores europeus — e não uma autodenominação. Ao longo do século XX, o termo foi-se associando a estereótipos coloniais: a imagem de povos isolados, "primitivos" ou pouco relevantes, associada a iglus, arpões e frio extremo, ignorando a diversidade cultural, linguística e histórica real destes povos.
Em 1977, o Conselho Circumpolar Inuit (Inuit Circumpolar Council), organização que representa comunidades inuit do Alasca, Canadá, Gronelândia e Sibéria, declarou formalmente "esquimó" um termo ofensivo e adotou "inuit" — que significa literalmente "o povo" ou "as pessoas" em inuktitut — como designação preferencial. Desde então, o uso continuado de "esquimó" tem sido interpretado, por muitas organizações inuit, como uma recusa em reconhecer o direito destes povos a escolherem o seu próprio nome.
Qual é a situação atual no Canadá e na Gronelândia?
No Canadá, a organização nacional Inuit Tapiriit Kanatami (ITK), que representa cerca de 65 mil inuítes distribuídos por quatro regiões árticas, estabelece como norma que o termo "inuit" substitua "esquimó" em qualquer contexto oficial, educativo ou mediático. Governos federais e territoriais canadianos, universidades e a generalidade da imprensa seguem esta orientação há já várias décadas, e em 2026 "esquimó" praticamente desapareceu do discurso público canadiano, sendo usado apenas em referências históricas ou citações diretas.
Na Gronelândia, território autónomo dinamarquês onde os inuítes constituem a grande maioria da população, o termo "esquimó" está igualmente arredado da linguagem oficial e institucional, tendo sido substituído por "inuit" ou pelas designações dos grupos específicos, como os kalaallit (inuítes do oeste da Gronelândia).
E no Alasca? Uma exceção parcial
A situação é mais matizada no Alasca, nos Estados Unidos. Nem todos os povos árticos do Alasca se identificam como "inuit" — os yupik e os cupik, por exemplo, falam línguas distintas do inuktitut e não fazem parte, do ponto de vista linguístico e cultural, do grupo inuit propriamente dito. Por essa razão, alguns destes povos continuam a usar "Eskimo" como autodenominação em contextos legais e culturais próprios, nomeadamente no nome de organizações como a Yupik-Cupik "Eskimo" or entidades federais que ainda mantêm o termo em designações históricas. Ainda assim, mesmo no Alasca, a tendência dominante é privilegiar os nomes próprios de cada povo — inupiaq, yupik, cupik — em vez do termo genérico.
Esta exceção alasquiana é frequentemente citada para argumentar que "esquimó" não seria universalmente ofensivo. É, porém, consensual entre linguistas e organizações indígenas que, fora desse contexto específico e restrito, e sobretudo quando o termo é usado por pessoas que não pertencem a estes povos, "esquimó" deve ser evitado.
Que termo usar em português?
Em português europeu, a forma recomendada é "inuit", mantida geralmente invariável (o inuit, os inuit), ou a forma aportuguesada "inuíte" (plural "inuítes"), aceite por autoridades linguísticas como o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Sempre que possível, e à semelhança do que recomendam as próprias organizações inuit, é preferível usar o nome específico do povo ou comunidade em causa (por exemplo, kalaallit, na Gronelândia, ou inupiaq, no Alasca) em vez de um termo genérico.
Em contextos históricos, académicos ou de citação direta de fontes antigas, o termo "esquimó" pode surgir sem intenção ofensiva, mas o seu uso corrente para designar pessoas ou culturas árticas contemporâneas é hoje considerado desadequado pela generalidade das instituições internacionais, académicas e mediáticas.
Perguntas frequentes
"Esquimó" é sempre ofensivo?
Não de forma absoluta. É considerado ofensivo sobretudo quando usado por pessoas fora destas comunidades para designar genericamente os inuítes. No Alasca, alguns povos yupik e cupik ainda usam "Eskimo" como autodenominação, por não se identificarem como inuit.
Qual é o termo correto a usar em português?
Recomenda-se "inuit" (invariável) ou "inuíte"/"inuítes", sendo ainda preferível, quando possível, usar o nome específico do povo, como kalaallit ou inupiaq.
O que significa "inuit"?
Significa literalmente "o povo" ou "as pessoas" na língua inuktitut, e foi adotado como autodenominação formal pelo Conselho Circumpolar Inuit em 1977.
Qual é a origem da palavra "esquimó"?
Deriva provavelmente do innu-aimun, língua algonquina falada por povos vizinhos dos inuítes no leste do Canadá, a partir de um termo relacionado com "amarrar raquetes de neve". Existe também uma teoria, menos aceite atualmente, que a associa a "comedores de carne crua".
Desde quando o termo "inuit" é usado oficialmente?
Desde 1977, quando o Conselho Circumpolar Inuit o adotou formalmente; desde então, governos, organizações inuit e instituições académicas no Canadá e na Gronelândia generalizaram o seu uso.