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Deusa Nut: a importância da deusa do céu no Egito Antigo

Publicado 8. junho 2025 Atualizado 28. junho 2026

Nut
Nut · A8takashi · CC BY-SA 4.0 · Wikimedia

Na mitologia do Antigo Egito, Nut (também grafada Nuit) é a deusa do céu, representada como uma mulher arqueada sobre o mundo, com o corpo polvilhado de estrelas e as extremidades dos dedos das mãos e dos pés a tocar o horizonte. A sua importância vai muito além de uma simples personificação do firmamento: Nut articula a cosmologia egípcia, a sucessão do dia e da noite, a maternidade divina e, sobretudo, a esperança de renascimento após a morte. Compreender o seu papel é compreender como os egípcios imaginavam a própria estrutura do universo.

Quem era Nut no panteão egípcio

Nut pertence à Enéade de Heliópolis, o grupo de nove divindades primordiais que organizava o pensamento religioso egípcio. É filha de Chu (deus do ar) e de Tefnut (deusa da humidade), e irmã e esposa de Geb, o deus da terra. Desta união nasceram quatro divindades centrais para a religião egípcia: Osíris, Ísis, Set e Néftis — em muitas versões, junta-se ainda Hórus, o Antigo. Por ser mãe destas figuras, Nut tornou-se a matriz a partir da qual se desenrola grande parte da mitologia, incluindo o ciclo de Osíris, fundamental para as crenças sobre a vida no além.

A separação de Nut e Geb é um dos episódios mais conhecidos. Segundo o mito, o casal estava tão unido que não havia espaço entre o céu e a terra. Coube a Chu, o ar, erguer Nut e mantê-la suspensa sobre Geb, criando assim o espaço onde a vida se tornou possível. Esta imagem — a deusa curvada no alto, sustentada pelo pai, sobre o corpo reclinado do esposo — é uma das composições mais reconhecíveis da arte egípcia.

O ciclo do dia e da noite

Um dos aspetos mais marcantes da mitologia de Nut explica o movimento do Sol. Acreditava-se que a deusa engolia o Sol ao entardecer e o dava novamente à luz ao amanhecer, fazendo o astro percorrer o seu corpo durante a noite. Este ciclo diário de "morte" e "nascimento" do Sol associava Nut, de forma natural, às ideias de regeneração e de renovação contínua. As estrelas eram igualmente entendidas como suas filhas, que ela acolhia e voltava a libertar a cada noite, reforçando o seu carácter maternal e protetor do cosmos.

Nut e os ritos funerários

É no domínio funerário que a importância de Nut atinge o auge. Por reger o nascimento, a morte e o renascimento dos corpos celestes, a deusa tornou-se uma figura central na proteção dos defuntos. Era comum pintar a sua imagem no interior das tampas dos sarcófagos e dos caixões, de modo a que o morto repousasse simbolicamente dentro do corpo da deusa. Assim, tal como o Sol renascia todas as manhãs do ventre de Nut, esperava-se que o falecido renascesse para a vida eterna.

Os Textos das Pirâmides e os Textos dos Sarcófagos invocam repetidamente Nut como mãe que acolhe e protege, dirigindo-se a ela como aquela que se estende sobre o defunto e o transforma numa estrela imperecível. Esta função fez dela uma das divindades mais presentes nos contextos de sepultamento ao longo de milénios da história egípcia.

Iconografia e símbolos

A representação mais célebre de Nut é a da mulher nua arqueada sobre a terra, com o corpo coberto de estrelas. Surge também sob a forma de vaca celeste, cujo ventre é o céu por onde navega a barca solar, e por vezes associada ao sicómoro, a árvore sagrada de cuja sombra oferecia água e alimento às almas dos mortos. Entre os seus símbolos contam-se ainda o vaso de água (que evoca o seu nome) e o disco solar que percorre o seu corpo.

A descoberta recente: Nut e a Via Láctea

O interesse por Nut continua vivo na investigação atual. Um estudo conduzido pelo astrofísico Or Graur, da Universidade de Portsmouth, divulgado em 2024 e aprofundado em 2025, analisou a possível ligação entre a deusa e a Via Láctea. Cruzando os Textos das Pirâmides, os Textos dos Sarcófagos e o chamado Livro de Nut, o investigador sugeriu que a posição da nossa galáxia no céu egípcio podia realçar, no inverno, os braços estendidos da deusa e, no verão, a sua coluna.

Na segunda fase, Graur examinou 125 imagens de Nut entre cerca de 555 caixões com quase cinco mil anos. Algumas representações raras mostram uma curva ondulante ao longo do corpo da deusa que faz lembrar a Via Láctea e a sua Grande Fenda escura. A conclusão, porém, é matizada: Nut não é a Via Láctea, mas a galáxia seria mais um dos fenómenos celestes que decoram o seu corpo no seu papel de deusa do céu. Esta investigação tem sido apresentada como uma das primeiras evidências visuais conhecidas da nossa galáxia na arte antiga.

Por que razão Nut continua a ser importante

A importância de Nut resulta da soma de várias funções que poucas divindades concentravam. É, simultaneamente, a abóbada que cobre o mundo, a mãe dos deuses que protagonizam o mito de Osíris, a força que regula o dia e a noite e a guardiã que assegura o renascimento dos mortos. Esta combinação fez dela uma peça estruturante da visão egípcia do universo — um cosmos ordenado, cíclico e fundamentalmente esperançoso quanto ao destino após a morte. Para o egípcio antigo, olhar para o céu estrelado era olhar para o corpo de Nut, garantia visível de que a vida se renovaria sempre.

Perguntas frequentes

O que representa a deusa Nut?

Nut representa o céu na mitologia egípcia. É a abóbada celeste personificada, mãe dos astros e das principais divindades, e está associada ao ciclo do dia e da noite e ao renascimento dos mortos.

Quem são os filhos de Nut?

Da sua união com Geb, deus da terra, nasceram Osíris, Ísis, Set e Néftis — e, em algumas versões, também Hórus, o Antigo. Estas divindades estão no centro de muitos mitos egípcios, sobretudo o ciclo de Osíris.

Porque era Nut pintada nos sarcófagos?

A sua imagem era colocada no interior das tampas dos caixões para que o defunto repousasse simbolicamente dentro do corpo da deusa. Assim como o Sol renascia do seu ventre todas as manhãs, esperava-se que o morto renascesse para a vida eterna.

Qual a ligação entre Nut e a Via Láctea?

Um estudo da Universidade de Portsmouth, de 2024 e 2025, sugere que certas curvas onduladas pintadas no corpo de Nut evocam a Via Láctea. Concluiu, porém, que a deusa não é a galáxia em si, sendo esta apenas mais um fenómeno celeste que adorna o seu corpo.

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