Breve história da Bielorrússia: das origens à atualidade
A Bielorrússia — oficialmente República da Bielorrússia, ou Belarus no nome nativo — é um país encravado no coração da Europa de Leste, sem saída para o mar, que faz fronteira com a Rússia, a Ucrânia, a Polónia, a Lituânia e a Letónia. A sua história é marcada por séculos de dominação estrangeira, pela devastação da Segunda Guerra Mundial e, desde 1991, por uma independência que evoluiu rapidamente para um sistema autoritário. Em 2026, a Bielorrússia permanece isolada da maioria dos países ocidentais e profundamente dependente de Moscovo.
As origens eslavas e a Rus de Quieve
O território da atual Bielorrússia foi habitado desde a Pré-história, mas foi com a chegada dos povos eslavos, por volta do século VI, que se formaram as comunidades que viriam a dar origem à identidade bielorrussa. A região integrou-se na Rus de Quieve — o primeiro grande Estado eslavo oriental, com capital em Quieve — a partir do século IX. Este principado medievalunificou extensos territórios e foi o berço comum das identidades russa, ucraniana e bielorrussa.
A Rus de Quieve entrou em colapso no século XIII perante as invasões dos mongóis da Horda de Ouro, que devastaram grande parte do território. As terras bielorrussas, contudo, resistiram melhor à ocupação e foram progressivamente integradas no Grão-Ducado da Lituânia.
O Grão-Ducado da Lituânia e a Comunidade Polaco-Lituana
Ao longo dos séculos XIII e XIV, o Grão-Ducado da Lituânia expandiu-se significativamente para sul e leste, absorvendo os principados bielorrussos. Durante este período, a língua e a cultura bielorrussas floresceram: o bielorrusso era, de facto, a língua oficial da chancelaria do Grão-Ducado.
Em 1386, uma união dinástica ligou o Grão-Ducado ao Reino da Polónia, culminando na União de Lublin de 1569, que criou a Comunidade Polaco-Lituana (Rzeczpospolita). Esta entidade bipartida dominou grande parte da Europa de Leste durante dois séculos, mas foi gradualmente enfraquecida por guerras, divisões internas e pressões externas. No final do século XVIII, as três partilhas da Polónia (1772, 1793 e 1795) desmembraram a Comunidade, e o território bielorrusso foi integralmente incorporado no Império Russo.
Sob domínio russo e o início do século XX
Durante o século XIX, a Bielorrússia foi tratada como uma simples província russa, designada pelas autoridades czaristas como as "províncias ocidentais". A língua e a identidade bielorrussas foram sistematicamente suprimidas, e a russificação foi política oficial. Apesar disso, um movimento de renascimento cultural bielorrusso emergiu no final do século XIX, reivindicando uma identidade própria distinta da russa e da polaca.
A Primeira Guerra Mundial arrastou o território para o front oriental, com a ocupação alemã de grande parte da Bielorrússia a partir de 1915. Na sequência da revolução russa de 1917 e do Tratado de Brest-Litovsk (1918), foi proclamada a República Popular Bielorrussa — a primeira tentativa de Estado independente moderno. A experiência foi efémera: em 1919, os bolcheviques estabeleceram a República Socialista Soviética Bielorrussa, e em 1922 o país tornou-se uma das quatro repúblicas fundadoras da União Soviética.
A era soviética e a catástrofe da Segunda Guerra Mundial
O período soviético impôs coletivização forçada, industrialização acelerada e purgas políticas brutais nos anos 1930. Mas nenhum trauma se comparou à Segunda Guerra Mundial: a Bielorrússia foi invadida pela Alemanha Nazi em junho de 1941 e permaneceu sob ocupação até 1944. O país foi palco de alguns dos combates mais sangrentos do conflito e de massacres sistemáticos contra a população civil e judaica.
Estima-se que a Bielorrússia tenha perdido entre um quarto e um terço da sua população total durante a guerra — cerca de três milhões de pessoas, entre civis e militares. Praticamente todas as cidades e infraestruturas foram destruídas. Esta catástrofe demográfica e material moldou profundamente a memória coletiva do país, sendo até hoje um elemento central da identidade nacional e da retórica política oficial.
Na reconstrução pós-guerra, a Bielorrússia tornou-se uma das repúblicas soviéticas mais industrializadas e prósperas, especializada em maquinaria pesada, indústria química e produção agrícola intensiva.
A independência em 1991
Com a desintegração da União Soviética, o parlamento bielorrusso declarou a soberania do país a 27 de julho de 1990 e a independência plena a 25 de agosto de 1991. Em dezembro do mesmo ano, na histórica Declaração de Belavezha, assinada precisamente em território bielorrusso, os líderes da Rússia, da Ucrânia e da Bielorrússia declararam formalmente dissolvida a URSS e criaram a Comunidade de Estados Independentes (CEI).
Os primeiros anos de independência foram marcados por dificuldades económicas severas, inflação galopante e instabilidade política, contexto comum a muitas ex-repúblicas soviéticas. Uma nova constituição foi adotada em 1994, prevendo eleições presidenciais diretas.
A ascensão de Lukashenko e a consolidação do autoritarismo
Em julho de 1994, Alexander Lukashenko — um político sem expressão anterior, que se destacara como deputado anticorrupção — venceu as únicas eleições presidenciais livres e justas da história da Bielorrússia independente. A partir daí, concentrou progressivamente o poder nas suas mãos.
Em 1996, um referendo controverso alargou drasticamente os poderes presidenciais e reduziu o papel do parlamento. Em 2004, um novo referendo eliminou o limite de dois mandatos, abrindo caminho a uma presidência vitalícia. A imprensa independente foi sendo fechada, os partidos de oposição marginalizados e as liberdades civis progressivamente restringidas. Organizações internacionais e governos ocidentais classificaram repetidamente as eleições bielorrussas como não conformes com padrões democráticos mínimos.
A crise de 2020 e a aproximação à Rússia
As eleições presidenciais de agosto de 2020 representaram um ponto de rutura. Lukashenko declarou ter obtido mais de 80% dos votos, resultado que a oposição e grande parte da comunidade internacional rejeitaram como fraudulento. Seguiram-se as maiores manifestações da história da Bielorrússia, com centenas de milhares de pessoas nas ruas durante semanas. A repressão foi violenta: dezenas de milhar de manifestantes foram detidos, registaram-se casos de tortura e vários mortos.
A candidata opositora Sviatlana Tsikhanóuskaya refugiou-se na Lituânia e passou a ser reconhecida por vários países ocidentais como representante legítima do povo bielorrusso. A União Europeia e os Estados Unidos impuseram sanções ao regime de Minsk.
Em fevereiro de 2022, a Bielorrússia permitiu que forças russas utilizassem o seu território como ponto de partida para a invasão da Ucrânia, aprofundando a dependência económica e política de Lukashenko em relação a Moscovo.
A Bielorrússia em 2026
Em janeiro de 2025, Lukashenko foi declarado vencedor de novo escrutínio presidencial com cerca de 88% dos votos, eleições que não cumpriram padrões internacionais de transparência. Foi investido para o seu sétimo mandato em março de 2025. Em abril de 2026, mais de 1 300 pessoas são reconhecidas como prisioneiras políticas por organizações de defesa dos direitos humanos, e o total de indivíduos processados por motivos políticos desde 2020 ultrapassa os 5 000. O Bertelsmann Transformation Index (BTI) 2026 classifica a Bielorrússia entre os regimes mais fechados da Europa.
Isolada do Ocidente por sanções económicas e diplomaticamente dependente da Rússia, a Bielorrússia de 2026 enfrenta um futuro marcado pela repressão interna, pela fuga de população qualificada e pela incerteza geopolítica num contexto de guerra às suas portas.
Perguntas frequentes
Quando é que a Bielorrússia se tornou independente?
A Bielorrússia declarou a sua soberania a 27 de julho de 1990 e a independência plena a 25 de agosto de 1991, na sequência da dissolução da União Soviética.
Quem governa a Bielorrússia atualmente?
Alexander Lukashenko governa a Bielorrússia desde 1994. Em 2026, exerce o seu sétimo mandato presidencial, tendo sido investido em março de 2025 após eleições contestadas.
Qual foi o impacto da Segunda Guerra Mundial na Bielorrússia?
A Bielorrússia foi um dos territórios mais devastados do conflito: estima-se que entre um quarto e um terço da sua população tenha morrido entre 1941 e 1944, durante a ocupação alemã, e a quase totalidade das cidades foi destruída.
Qual é a relação entre a Bielorrússia e a Rússia?
A Bielorrússia e a Rússia mantêm uma relação de estreita dependência política e económica. Em 2022, Minsk permitiu que tropas russas utilizassem o seu território para invadir a Ucrânia, reforçando ainda mais essa ligação.
O que aconteceu nos protestos de 2020 na Bielorrússia?
Após as eleições presidenciais de agosto de 2020, consideradas fraudulentas, eclodiu uma vaga de protestos sem precedentes. A repressão foi intensa, com dezenas de milhar de detenções, relatos de tortura e vários mortos. A oposição, liderada por Sviatlana Tsikhanóuskaya, exilou-se e obteve reconhecimento internacional como voz legítima da sociedade civil bielorrussa.