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A história do criador na mitologia: origens e versões

Publicado 26. maio 2025 Atualizado 30. junho 2026

Qual é a história do Criador na mitologia?

A figura do criador é um dos temas mais universais da mitologia humana. Praticamente todas as culturas, desde a Mesopotâmia antiga até aos povos indígenas da América, desenvolveram narrativas que procuram explicar como surgiram o mundo, os deuses, os animais e o ser humano. Estas histórias, conhecidas como mitos cosmogónicos ou mitos da criação, partilham padrões recorrentes apesar de terem nascido em contextos geográficos e temporais muito distintos, o que levou estudiosos da mitologia comparada a procurar as estruturas comuns por detrás de tradições aparentemente independentes.

O que é um mito da criação?

Um mito da criação é uma narrativa simbólica que explica a origem do universo, dos deuses e da humanidade através da ação de uma ou várias entidades sobrenaturais. Estas figuras podem assumir a forma de um deus único e transcendente, de um casal primordial, de um conjunto de divindades que trabalham em conjunto ou de uma força impessoal que dá origem à existência. O termo "demiurgo", de origem grega ("demiourgós", artesão), é frequentemente usado pelos investigadores para designar genericamente a entidade que "fabrica" o mundo, independentemente da tradição religiosa em causa.

Os principais tipos de mitos do criador

Os mitólogos comparativistas identificam vários padrões recorrentes na forma como as diferentes culturas narram a criação:

  • Criação a partir do nada (ex nihilo): um deus único cria o universo por mera vontade ou palavra, como no relato bíblico do Génesis.
  • O ovo cósmico: o mundo nasce da eclosão de um ovo primordial, presente em mitologias como a chinesa (Pangu) ou a hindu.
  • O mergulhador da terra: um animal ou divindade mergulha nas águas primordiais e traz à superfície a lama ou areia com que se forma a terra, motivo comum a várias tradições da América do Norte e da Sibéria.
  • Os pais primordiais: um casal divino, frequentemente associado ao céu e à terra, gera por união sexual os restantes deuses e seres, como Izanagi e Izanami no Japão.
  • O sacrifício ou desmembramento: o mundo forma-se a partir do corpo de um gigante ou monstro primordial morto por outra divindade, como Ymir na mitologia nórdica ou Tiamat na mesopotâmica.

O criador na mitologia mesopotâmica

Na Mesopotâmia, o poema babilónico Enuma Elish narra como o deus Marduk derrota a deusa primordial do caos, Tiamat, e usa o seu corpo dividido para formar o céu e a terra. Outra figura central é Ea (ou Enki), associado às águas doces e à sabedoria, a quem diversos mitos atribuem a modelação dos primeiros seres humanos a partir de barro retirado das margens dos rios, com o objetivo de servirem os deuses.

O criador na mitologia egípcia

No antigo Egito existiam várias tradições cosmogónicas consoante o centro religioso. Em Heliópolis, o deus Atum surge espontaneamente do oceano primordial de Nun e, através de masturbação ou expetoração, gera o casal Shu (ar) e Tefnut (humidade), de quem descendem Geb (terra) e Nut (céu). Noutras versões, ligadas a Mênfis, é o deus Ptah quem cria o mundo apenas através do pensamento e da palavra, antecipando muito do que mais tarde seria associado ao monoteísmo.

O criador na mitologia grega

A mitologia grega não apresenta um único relato canónico da criação. Na versão mais conhecida, transmitida por Hesíodo na Teogonia, o universo nasce do Caos primordial, do qual emergem Gaia (a Terra), Tártaro e Eros. Existe ainda uma tradição órfica menos divulgada em que a deusa Eurínome surge das águas, dança sobre o caos e, unida à serpente Ofíon, dá origem aos primeiros seres e divindades. Os próprios deuses olímpicos só aparecem várias gerações depois, através das uniões entre Urano e Gaia e, posteriormente, entre os Titãs.

O criador nas mitologias nórdica e germânica

Na cosmogonia nórdica, registada principalmente na Edda em Prosa, o universo começa com o encontro do gelo de Niflheim e do fogo de Muspelheim no vazio primordial de Ginnungagap. Desse encontro nasce o gigante Ymir, cujo corpo é depois usado pelos deuses Odin, Vili e Vé para construir o mundo: a carne torna-se terra, o sangue mares, os ossos montanhas e o crânio a abóbada celeste.

O criador nas mitologias asiáticas

Na mitologia chinesa, o ser primordial Pangu emerge de um ovo cósmico e separa o céu da terra com o próprio corpo, sustentando-os durante milénios até morrer; do seu corpo nascem então os elementos do mundo natural. No Japão, o casal divino Izanagi e Izanami agita as águas primordiais com uma lança celeste, e as gotas que caem formam as ilhas do arquipélago japonês, ponto de partida para o nascimento dos restantes kami.

O criador nas mitologias africanas

Na tradição iorubá, praticada sobretudo na Nigéria e exportada para o Brasil através da diáspora, Olorum (também chamado Olodumare) é a força suprema e distante, responsável pela existência do universo, mas é a divindade Obatalá (ou Oxalá) quem recebe a tarefa concreta de moldar a figura humana a partir do barro, soprando-lhe depois a vida com a permissão de Olorum.

O criador nas mitologias mesoamericanas

No Popol Vuh, texto sagrado dos maias quichés, os deuses criadores Tepeu e Gucumatz tentam por várias vezes moldar seres capazes de os louvar, falhando primeiro com a lama e depois com a madeira, até conseguirem criar os primeiros humanos a partir de milho. Na mitologia asteca, diferentes versões atribuem a criação sucessiva de "sóis" ou eras do mundo a divindades como Quetzalcóatl e Tezcatlipoca, que se revezam na tarefa de recriar o universo após cada destruição.

O criador nas tradições monoteístas

Nas religiões abraâmicas — judaísmo, cristianismo e islão — o relato da criação assume uma forma marcadamente diferente da maioria dos mitos politeístas: um único Deus transcendente cria o universo a partir do nada, através da palavra, ao longo de seis dias, segundo o livro do Génesis. Esta abordagem ex nihilo, sem recurso a matéria preexistente nem a conflitos entre divindades rivais, distingue-a das cosmogonias mesopotâmica, egípcia ou grega, ainda que partilhe com elas vários elementos simbólicos, como as águas primordiais.

Porque se repetem os mesmos padrões em culturas tão distantes?

A recorrência de motivos como as águas primordiais, o ovo cósmico ou o sacrifício de um ser gigantesco intriga investigadores há mais de um século. Existem três explicações principais, não necessariamente exclusivas entre si: a difusão cultural através do contacto entre povos ao longo de milénios; a existência de estruturas psicológicas humanas comuns, defendida por autores como Carl Jung através do conceito de arquétipos; e o facto de todas as sociedades enfrentarem as mesmas perguntas fundamentais sobre a origem da vida e da morte, chegando a soluções narrativas semelhantes de forma independente.

Perguntas frequentes

O que significa a palavra "demiurgo"?

Demiurgo é um termo de origem grega, "demiourgós", que significa "artesão" ou "fabricante". É usado pelos estudiosos da mitologia para designar de forma genérica a entidade que dá forma ao universo, independentemente da tradição religiosa concreta.

Existe um único mito da criação comum a todas as culturas?

Não. Cada cultura desenvolveu a sua própria narrativa, embora existam padrões recorrentes, como a criação a partir de águas primordiais, de um ovo cósmico ou do sacrifício de um ser primordial, que se repetem em tradições muito distantes entre si.

Qual a diferença entre os mitos politeístas e o relato monoteísta da criação?

Nos mitos politeístas, o mundo surge muitas vezes de forma orgânica, sexual ou violenta, envolvendo vários deuses e conflitos entre forças rivais. Nas tradições monoteístas, como a judaico-cristã, um único Deus cria o universo a partir do nada através da palavra.

Quem é considerado o primeiro deus criador na mitologia mesopotâmica?

Não existe uma figura única: o Enuma Elish atribui a organização final do mundo ao deus Marduk, a partir do corpo da deusa Tiamat, enquanto o deus Ea (Enki) é associado à criação dos primeiros seres humanos a partir de barro.

Porque é que tantas culturas associam a criação à água?

As águas primordiais aparecem em mitologias tão distintas como a egípcia, a mesopotâmica, a hindu ou a de várias culturas indígenas americanas, provavelmente por refletirem a observação comum de que a água é essencial à vida e por simbolizarem o caos indiferenciado que precede a ordem do mundo criado.

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