História da Eritreia: das origens antigas à independência e além
A Eritreia é um pequeno país do Corno de África, banhado pelo Mar Vermelho, cuja história milenar é marcada por sucessivas ocupações estrangeiras, uma das mais longas guerras de independência do continente africano e, após 1993, por um regime autoritário que persiste em 2026. Apesar da sua reduzida dimensão, o território eritreu foi sempre um ponto estratégico de comércio e poder, o que explica o interesse que ao longo dos séculos atraiu impérios, potências coloniais e, mais recentemente, actores geopolíticos globais.
Das origens antigas ao Reino de Axum
A presença humana no território que hoje constitui a Eritreia remonta a tempos pré-históricos. Nos primeiros séculos da era cristã, a região foi parte integrante do Reino de Axum, uma poderosa entidade política e comercial centrada no planalto eritreu e no norte da actual Etiópia. O filósofo persa Mani chegou a classificar Axum como uma das quatro grandes potências do seu tempo, a par de Roma, da Pérsia e da China. O reino controlava rotas comerciais vitais do Mar Vermelho e adoptou o Cristianismo no século IV, tornando-se um dos primeiros estados do mundo a fazê-lo.
Os portos eritreus eram centros de troca de marfim, pele de rinoceronte, incenso e obsidiana. Depois do declínio axumita, a região fragmentou-se em principados locais, permanecendo durante séculos numa posição periférica mas estratégica.
Domínio otomano e egípcio
No século XVI, o Império Otomano anexou as zonas costeiras da Eritreia, estabelecendo Massaua como porto administrativo e comercial fundamental no Mar Vermelho. O controlo otomano foi, contudo, ténue sobre grande parte do interior. Em 1865, os egípcios assumiram o domínio de Massaua por cessão dos otomanos, integrando o litoral eritreu nas suas ambições de expansão africana — ambições que terminaram com a derrota egípcia em 1885.
A colonização italiana (1889–1941)
É precisamente com a retirada egípcia que a Itália entra em cena. Os italianos começaram a estabelecer presença na região em meados da década de 1880, e com o Tratado de Uccialli, em 1889, formalizaram a criação da Colonia Eritrea, batizada em homenagem ao nome latino do Mar Vermelho (Mare Erythraeum). A colonização italiana durou cerca de cinquenta anos e deixou marcas profundas: foram construídas infra-estruturas (estradas, caminho-de-ferro, edifícios) e desenvolvida alguma industrialização, mas também imposta a segregação racial, especialmente durante o período fascista. A Eritreia serviu de base para as campanhas italianas contra a Abissínia (Etiópia) na década de 1930.
Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, as forças britânicas derrotaram os italianos no território eritreu, pondo fim à colonização italiana.
Administração britânica e federação forçada (1941–1962)
Após 1941, a Eritreia ficou sob administração militar britânica, que se prolongou até 1952. O futuro do território foi debatido nas Nações Unidas, onde se confrontaram posições divergentes: os eritreus que exigiam independência plena e os que aceitavam uma associação com a Etiópia. A ONU optou por uma solução de compromisso: em 1952, uma resolução instituiu uma federação entre a Eritreia e a Etiópia, garantindo ao território eritreu autonomia interna e um parlamento próprio.
A federação, no entanto, durou apenas dez anos. Em 1962, o imperador etíope Haile Selassie dissolveu unilateralmente o parlamento eritreu e anexou o território à Etiópia, numa violação directa do acordo estabelecido pelas Nações Unidas. Esta decisão acendeu a mecha de um conflito que se prolongaria por três décadas.
A longa guerra de independência (1961–1991)
A resistência armada começou ainda antes da anexação formal: em 1 de Setembro de 1961, a Frente de Libertação da Eritreia (FLE) lançou as primeiras acções militares. Nas décadas seguintes, o movimento separatista fragmentou-se internamente. Em meados dos anos 1970, surgiu a Frente Popular de Libertação da Eritreia (FPLE), liderada por Isaias Afwerki, que acabou por se impor como força dominante após conflitos internos com a FLE.
A guerra foi travada em condições extremamente duras. O regime do Derg — a junta militar marxista que derrubou Haile Selassie em 1974 e era liderada por Mengistu Haile Mariam — lançou campanhas militares de grande escala apoiadas pela União Soviética e por Cuba. Contudo, com o colapso do bloco soviético no final da década de 1980, o regime do Derg entrou em colapso. Em Maio de 1991, a FPLE tomou a capital eritreia Asmara e o Derg caiu.
Entre 23 e 25 de Abril de 1993, realizou-se um referendo de autodeterminação sob supervisão da ONU: cerca de 99,8% dos votantes pronunciaram-se a favor da independência. A Eritreia tornou-se um Estado independente e soberano a 27 de Abril de 1993, passando a ser o país mais novo de África naquele momento.
A ditadura de Isaias Afwerki
Isaias Afwerki, herói da guerra de libertação, assumiu a presidência e permanece no poder em 2026. Inicialmente havia esperança numa transição democrática, mas essa esperança evaporou-se rapidamente. Em 2001, onze ministros reformistas — o chamado Grupo dos G-15 — foram presos após publicarem uma carta aberta a criticar o Presidente. Ainda se encontravam detidos em 2026, sem julgamento.
A Eritreia converteu-se numa das ditaduras mais fechadas do mundo: sem parlamento, sem eleições, sem imprensa livre e sem constituição em vigor. O serviço militar obrigatório de duração indefinida — na prática, trabalho forçado — levou centenas de milhares de eritreus a fugirem do país. Em 2024, a organização Repórteres Sem Fronteiras classificou a Eritreia em último lugar entre 180 países no Índice de Liberdade de Imprensa, abaixo da Coreia do Norte.
A guerra com a Etiópia e o acordo de paz de 2018
Entre 1998 e 2000, a Eritreia e a Etiópia travaram uma guerra de fronteira que causou dezenas de milhares de mortos e se prolongou num impasse armado por quase duas décadas. A situação mudou dramaticamente em 2018, quando o novo primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed assinou um acordo de paz com Asmara. Abiy Ahmed recebeu o Prémio Nobel da Paz em 2019 em parte por este acordo.
Contudo, a aproximação entre os dois países teve consequências inesperadas: quando eclodiu a guerra na região etíope do Tigray em 2020, a Eritreia aliou-se a Abiy Ahmed e as forças eritreias foram acusadas de cometer graves atrocidades contra a população tigrínea. O conflito no Tigray manchou a imagem do acordo de paz e reacendeu tensões regionais.
A Eritreia em 2026
Em 2026, a Eritreia mantém-se sob o governo de Isaias Afwerki, que em Fevereiro completou 80 anos. O país continua a ser um dos mais isolados do planeta, com profundas restrições às liberdades civis e um fluxo contínuo de refugiados. No plano geopolítico, o Mar Vermelho voltou a ganhar importância estratégica global face às tensões regionais, e em Maio de 2026 tornaram-se públicos planos do governo dos Estados Unidos para levantar sanções contra a Eritreia, num sinal de reposicionamento diplomático ligado ao controlo das rotas marítimas do Mar Vermelho.
Perguntas frequentes
Quando é que a Eritreia se tornou independente?
A Eritreia declarou a independência a 27 de Abril de 1993, após um referendo realizado entre 23 e 25 de Abril do mesmo ano, em que cerca de 99,8% dos eritreus votaram a favor da separação da Etiópia.
Quanto tempo durou a guerra de independência da Eritreia?
A guerra de independência durou cerca de trinta anos, de 1961 a 1991, tornando-se um dos conflitos armados mais longos da história africana moderna.
Quem governa a Eritreia em 2026?
Isaias Afwerki, ex-líder da Frente Popular de Libertação da Eritreia, governa o país desde a independência em 1993. Em 2026, com 80 anos, mantém um regime de partido único sem eleições, sem imprensa livre e sem constituição em vigor.
Porque é que tantos eritreus fogem do país?
Os eritreus fogem principalmente devido ao serviço militar obrigatório de duração indefinida (uma forma de trabalho forçado), à ausência de liberdades políticas e civis, à pobreza e à repressão generalizada exercida pelo regime de Isaias Afwerki.
Qual é a importância estratégica da Eritreia em 2026?
A Eritreia possui uma longa costa no Mar Vermelho, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o comércio global. Em 2026, face às tensões regionais, esta posição geográfica voltou a atrair a atenção de potências como os Estados Unidos, que planeavam levantar sanções ao país.