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História da Zâmbia: do reino dos Lozi à atualidade

Publicado 23. maio 2026 Atualizado 28. junho 2026

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A Zâmbia é um país sem litoral do interior da África Austral, atravessado pelo rio Zambeze — de onde retira o nome — e marcado por uma das mais espetaculares maravilhas naturais do continente, as Cataratas de Vitória. A sua história resume-se a um percurso que vai das antigas formações estatais africanas à colonização britânica, passando por uma independência conquistada de forma pacífica em 1964 e por décadas de afirmação política, económica e democrática. Em 2026, com cerca de 20 milhões de habitantes e uma economia ainda fortemente dependente do cobre, o país prepara-se para novas eleições gerais que voltam a testar a solidez das suas instituições.

As origens pré-coloniais

Muito antes da chegada dos europeus, o território da atual Zâmbia foi habitado por povos de língua bantu que ali se fixaram ao longo do primeiro milénio da nossa era, trazendo a agricultura, a metalurgia do ferro e organizações sociais complexas. Entre os séculos XVII e XIX desenvolveram-se vários reinos e chefaturas, com destaque para o reino dos Lozi (ou Barotse), na planície aluvial do alto Zambeze, e para os estados bemba, lunda e chewa no norte e leste. Estas estruturas controlavam rotas comerciais que ligavam o interior à costa do Índico e do Atlântico, trocando marfim, cobre e, infelizmente, também pessoas escravizadas.

A Rodésia do Norte e o domínio britânico

O destino do território mudou no final do século XIX com a expansão britânica liderada por Cecil Rhodes e pela sua Companhia Britânica da África do Sul (British South Africa Company). Através de tratados e concessões mineiras assinados com os chefes locais, a companhia estabeleceu o seu domínio sobre a região, que passou a ser designada Rodésia do Norte, em homenagem a Rhodes. Em 1924, a administração transitou da companhia para a Coroa Britânica, tornando-se um protetorado.

A descoberta e a exploração intensiva dos grandes jazigos de cobre, sobretudo no chamado Copperbelt (cinturão do cobre), transformaram a economia do território e atraíram trabalhadores africanos e colonos europeus. Esta riqueza mineira, no entanto, beneficiou desproporcionadamente a minoria branca e os interesses externos, criando profundas desigualdades que alimentariam o descontentamento e o nacionalismo africano.

O caminho para a independência

Após a Segunda Guerra Mundial, o movimento nacionalista ganhou força. Um momento decisivo foi a criação, em 1953, da Federação da Rodésia e Niassalândia, que juntava a Rodésia do Norte, a Rodésia do Sul (atual Zimbabué) e a Niassalândia (atual Maláui). A federação, vista pela população africana como um instrumento de perpetuação do domínio dos colonos brancos, gerou forte oposição.

Foi neste contexto que emergiu Kenneth Kaunda. Ex-professor, Kaunda iniciou a sua atividade política no Congresso Nacional Africano da Rodésia do Norte e, em 1959, fundou o partido que viria a designar-se Partido Unido para a Independência Nacional (UNIP). Adepto de uma filosofia de não-violência inspirada em Gandhi, Kaunda conduziu uma campanha de desobediência civil e pressão política que, sem recurso à luta armada, acabou por levar à dissolução da federação em 1963.

A República da Zâmbia em 1964

A 24 de outubro de 1964, a Rodésia do Norte proclamou a independência, nascendo a República da Zâmbia, com Kenneth Kaunda como primeiro presidente. O novo país adotou o nome do rio Zambeze e herdou tanto a riqueza do cobre como os desafios de uma sociedade desigual e de fronteiras herdadas do colonialismo.

Kaunda governou durante 27 anos, até 1991. O seu mandato ficou marcado pela ideologia do humanismo zambiano, por um sistema de partido único instaurado em 1972 e por uma economia centralizada assente na nacionalização das minas. Internacionalmente, a Zâmbia desempenhou um papel relevante como Estado da "linha da frente", apoiando os movimentos de libertação da região, nomeadamente contra o regime do apartheid na África do Sul e o governo de minoria branca na vizinha Rodésia. Esta solidariedade teve custos económicos elevados, agravados pela queda do preço do cobre.

Democracia multipartidária e alternância no poder

O desgaste económico e a pressão popular conduziram, em 1991, ao regresso do multipartidarismo. Nas primeiras eleições livres, Kaunda foi derrotado por Frederick Chiluba, do Movimento para a Democracia Multipartidária (MMD), numa transição pacífica que se tornou um exemplo em África. Seguiram-se governos de Levy Mwanawasa, Rupiah Banda, Michael Sata e Edgar Lungu, num quadro de alternância democrática, ainda que com episódios de tensão política e dificuldades económicas recorrentes, como o peso da dívida externa.

Em 2021, o empresário e agricultor Hakainde Hichilema, do Partido Unido para o Desenvolvimento Nacional (UPND), venceu as eleições à sexta tentativa, derrotando Lungu com cerca de 59% dos votos e protagonizando mais uma transição pacífica de poder.

A Zâmbia em 2026

Atualmente, a Zâmbia continua a ser um dos maiores produtores africanos de cobre, metal que representa a esmagadora maioria das suas exportações e que ganha renovada importância com a procura mundial associada à transição energética. O governo de Hichilema concentrou-se na reestruturação da dívida — concretizada no âmbito do Quadro Comum do G20 — e em reformas que reduziram a inflação e atraíram investimento estrangeiro.

Os desafios, contudo, persistem. Uma seca severa afetou a produção agrícola e o abastecimento de energia hidroelétrica, fortemente dependente da barragem de Kariba, e a austeridade associada aos programas de ajustamento gerou descontentamento social. No plano político, o falecimento do ex-presidente Edgar Lungu, em junho de 2025, reconfigurou a oposição. As eleições gerais estão marcadas para 12 de agosto de 2026, com Hichilema a candidatar-se a um segundo mandato perante uma oposição ainda dividida.

Perguntas frequentes

Quando é que a Zâmbia se tornou independente?

A Zâmbia tornou-se independente do Reino Unido a 24 de outubro de 1964, deixando de ser o protetorado britânico da Rodésia do Norte para nascer como República da Zâmbia, com Kenneth Kaunda como primeiro presidente.

Porque é que se chamava Rodésia do Norte?

O nome resultou da expansão britânica liderada por Cecil Rhodes no final do século XIX. O território foi designado Rodésia do Norte em homenagem a Rhodes, distinguindo-se da Rodésia do Sul, atual Zimbabué.

Quem foi Kenneth Kaunda?

Foi o líder do movimento independentista e o primeiro presidente da Zâmbia, governando entre 1964 e 1991. Defensor da não-violência, conduziu o país à independência por via negocial. Faleceu em 2021, aos 97 anos.

Qual é a principal riqueza económica da Zâmbia?

O cobre é o principal recurso e a maior fonte de divisas do país, sobretudo na região do Copperbelt. A sua importância tem crescido devido à procura mundial ligada às tecnologias da transição energética.

Quem governa a Zâmbia em 2026?

O presidente é Hakainde Hichilema, no poder desde 2021. Candidata-se a um segundo mandato nas eleições gerais marcadas para 12 de agosto de 2026.

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