História do Iémen: do Reino de Sabá à guerra atual
O Iémen é um dos territórios habitados mais antigos da Península Arábica e ocupa o canto sudoeste desta, junto ao estreito de Bab al-Mandab, que separa a Arábia da África e controla a entrada meridional do mar Vermelho. Esta posição geográfica, na rota entre o oceano Índico e o Mediterrâneo, moldou toda a sua história: fez do Iémen um centro de comércio fabuloso na Antiguidade e, em 2026, mantém-no no epicentro das tensões marítimas globais. A sua trajetória atravessa reinos antigos lendários, a chegada do Islão, séculos de domínio externo, a divisão em dois Estados durante a Guerra Fria e, mais recentemente, uma das mais graves crises humanitárias do mundo.
A Antiguidade: a "Arábia Feliz"
Muito antes da era cristã, o sul da Arábia abrigava sociedades agrícolas avançadas, sustentadas por engenharia hidráulica sofisticada. O símbolo maior desse período é a Barragem de Ma15rib, construída por volta do século VIII a.C. e considerada uma das mais notáveis obras de irrigação do mundo antigo. A região prosperou com o cultivo e a exportação de incenso e mirra, resinas aromáticas extremamente valiosas no comércio com o Egito, a Mesopotâmia, a Grécia e Roma. Foi essa riqueza que levou os romanos a chamarem-lhe Arabia Felix, a "Arábia Feliz".
Vários reinos sucederam-se ou coexistiram neste território: o de Sabá — associado pela tradição bíblica e corânica à célebre Rainha de Sabá —, e ainda Main, Qatabã, Hadramaute e, mais tarde, o reino himiarita, que unificou grande parte do sul da Arábia a partir do século I a.C. No início do século VI da nossa era, o domínio himiarita deu lugar a invasões etíopes (do reino de Aksum) e, depois, à influência do império sassânida persa, já às portas do surgimento do Islão.
A chegada do Islão e a Idade Média
O Iémen converteu-se ao Islão ainda em vida do profeta Maomé, no século VII, tornando-se uma das primeiras regiões a adotar a nova fé. Ao longo dos séculos seguintes, o território fragmentou-se em múltiplas dinastias e imamatos. A mais duradoura foi a dos imames zaiditas, um ramo do islão xiita que se estabeleceu nas terras altas do norte por volta do ano 900 e que viria a manter influência política durante mais de mil anos, até meados do século XX. No litoral e no sul prevaleceu sobretudo o islão sunita.
A cidade portuária de Moca tornou-se mundialmente conhecida a partir do século XV como principal centro de exportação de café — a palavra "moca" deriva precisamente do seu nome. Durante este período, o Iémen foi disputado por potências regionais, incluindo o Egito e, sobretudo, o Império Otomano, que ocupou parcial e intermitentemente a região a partir do século XVI.
Domínio otomano e britânico
A história moderna do Iémen é marcada por uma divisão profunda entre norte e sul. No norte, os otomanos consolidaram o controlo sobre as zonas costeiras, embora os imames zaiditas das montanhas nunca tenham sido plenamente submetidos. Com o colapso do Império Otomano após a Primeira Guerra Mundial, surgiu em 1918 o Reino Mutawakkilita do Iémen, governado pelos imames de forma isolada e conservadora.
No sul, o Reino Unido ocupou o porto estratégico de Áden em 1839, transformando-o numa colónia britânica e numa importante escala naval e comercial, sobretudo após a abertura do Canal do Suez em 1869. A região circundante ficou organizada num conjunto de protetorados britânicos. Esta separação entre um norte montanhoso e teocrático e um sul portuário e colonial está na origem da existência de dois Estados iemenitas distintos durante boa parte do século XX.
Dois Estados: o norte republicano e o sul marxista
Em 1962, um golpe militar derrubou o imamato no norte e proclamou a República Árabe do Iémen, desencadeando uma guerra civil entre republicanos (apoiados pelo Egito) e monárquicos (apoiados pela Arábia Saudita), que se prolongou até 1970. No sul, a pressão dos movimentos de libertação levou à retirada britânica e à independência em 1967, com a fundação daquela que viria a ser a República Democrática Popular do Iémen, o único Estado de orientação marxista alguma vez existente no mundo árabe, alinhado com a União Soviética.
As duas repúblicas mantiveram relações tensas, com vários conflitos fronteiriços. Contudo, o enfraquecimento do bloco soviético e interesses económicos comuns — incluindo a exploração de petróleo — acabaram por aproximá-las.
A unificação de 1990 e a era de Saleh
A 22 de maio de 1990, o norte e o sul uniram-se formalmente, dando origem à atual República do Iémen, com capital em Saná. Ali Abdullah Saleh, que governava o norte desde 1978, tornou-se presidente do país unificado. A unificação revelou-se frágil: em 1994, uma tentativa de secessão do sul foi esmagada militarmente, consolidando o domínio do norte sobre todo o território.
As décadas seguintes foram marcadas pela corrupção, pela pobreza generalizada, pela escassez de água e pela ascensão de movimentos de oposição. No norte, a minoria zaidita organizou-se em torno do movimento Houthi (oficialmente Ansar Allah), que travou várias guerras contra o governo central a partir de 2004. No sul cresceu o ressentimento separatista, enquanto a Al-Qaeda na Península Arábica explorava o vazio de poder.
A Primavera Árabe e a guerra civil
Em 2011, no contexto da Primavera Árabe, protestos massivos forçaram Saleh a abandonar o poder, transferindo-o em 2012 para o seu vice-presidente, Abd Rabbuh Mansur Hadi. A transição falhou. Em 2014, os Houthis — agora aliados, paradoxalmente, ao seu antigo inimigo Saleh — tomaram a capital Saná e obrigaram o governo de Hadi a fugir.
Em março de 2015, uma coligação militar liderada pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos interveio para restaurar o governo reconhecido internacionalmente, com apoio logístico ocidental. Os Houthis, por seu lado, beneficiaram do apoio do Irão. O conflito transformou-se numa guerra prolongada e numa guerra por procuração regional. As consequências humanas foram devastadoras: centenas de milhares de mortos, surtos de cólera e fome, e o que as Nações Unidas classificaram repetidamente como a pior crise humanitária do mundo.
O Iémen em 2026
Em 2026, o Iémen continua dividido e em crise, embora as linhas da frente entre Houthis e governo permaneçam congeladas desde o cessar-fogo de 2022. Os Houthis controlam o noroeste densamente povoado, incluindo Saná, enquanto o governo reconhecido, apoiado por Riade e organizado no Conselho de Liderança Presidencial, domina o sul e o leste a partir de Áden.
Entre novembro de 2023 e outubro de 2025, os Houthis ganharam projeção global ao atacar navios comerciais no mar Vermelho, em alegada solidariedade com os palestinianos durante a guerra de Gaza, perturbando gravemente o comércio marítimo mundial. Embora esses ataques ao transporte marítimo tenham cessado em outubro de 2025, o tráfego não recuperou os níveis anteriores, agravado pelo conflito entre Israel/EUA e o Irão no início de 2026, durante o qual os Houthis voltaram a lançar mísseis contra Israel em março de 2026.
No sul, registou-se uma rápida reconfiguração de forças: em dezembro de 2025, o Conselho de Transição do Sul (STC), separatista e apoiado pelos Emirados, lançou uma ofensiva que foi revertida em janeiro de 2026 por uma contraofensiva governamental apoiada pela Arábia Saudita, na sequência da qual os Emirados retiraram as suas forças do país. Apesar de o governo estar mais forte do que há anos, a crise humanitária mantém-se: cerca de 21,6 milhões de pessoas necessitam de ajuda e mais de 4,5 milhões estão deslocadas.
Perguntas frequentes
Porque é que o Iémen era chamado "Arábia Feliz"?
Os romanos chamavam-lhe Arabia Felix devido à sua prosperidade na Antiguidade, fruto da agricultura irrigada e, sobretudo, do comércio de incenso, mirra e, mais tarde, café, que tornavam a região excecionalmente rica em comparação com o resto da Península Arábica.
Porque é que existiam dois Iémenes?
A divisão resultou do domínio colonial: o norte ficou sob influência otomana e depois governado pelos imames zaiditas, enquanto o sul, com o porto de Áden, foi colónia britânica. Após a independência surgiram dois Estados distintos — um republicano no norte e outro marxista no sul — só unificados em 1990.
Quando começou a atual guerra civil do Iémen?
A guerra atual começou em 2014, quando o movimento Houthi tomou a capital, Saná. Internacionalizou-se em 2015 com a intervenção de uma coligação liderada pela Arábia Saudita contra os Houthis, apoiados pelo Irão.
Quem controla o Iémen em 2026?
O país está dividido: os Houthis dominam o noroeste, incluindo Saná, enquanto o governo reconhecido internacionalmente, apoiado pela Arábia Saudita, controla o sul e o leste a partir de Áden. As linhas da frente mantêm-se estáveis desde o cessar-fogo de 2022.