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História do Nepal: das origens à república federal moderna

Publicado 16. agosto 2025 Atualizado 28. junho 2026

Qual é a história resumida do Nepal em poucos passos?

O Nepal é um dos países mais antigos da Ásia, encravado entre a Índia e a China, no coração do Himalaia. A sua história estende-se por mais de três milénios, atravessando reinos rivais, uma unificação forçada pela espada, séculos de domínio oligárquico, uma guerra civil maoísta e, finalmente, a abolição da monarquia em 2008. Em 2026, o país vive um novo capítulo político marcado por eleições históricas e uma geração jovem que exige mudança.

Origens: os Kirat e os primeiros reinos

As evidências arqueológicas situam os primeiros assentamentos humanos no vale de Catmandu há pelo menos 9 000 anos. O povo Kirat, proveniente do leste do Himalaia, estabeleceu-se na região por volta do século VII a.C. e governou durante cerca de 2 500 anos, sendo considerado o primeiro grupo a deixar uma marca política organizada no território que hoje é o Nepal.

Entre os séculos IV e X d.C., a dinastia Licchavi transformou o vale de Catmandu num polo de intercâmbio comercial e cultural entre a Índia e o Tibete. Foi neste período que o budismo e o hinduísmo se entrelaçaram de forma duradoura na sociedade nepalesa, criando uma identidade religiosa singular que persiste até hoje.

A era Malla e o vale dividido

A partir do século X, a dinastia Malla assumiu o poder e prolongou o seu domínio até ao século XVIII. O seu reinado ficou marcado por um florescimento artístico e arquitetónico notável — os templos e palácios de Catmandu, Bhaktapur e Patan são, em grande medida, herança desse período. No entanto, por volta de 1484, o vale fragmentou-se em quatro reinos independentes — Catmandu, Bhaktapur, Patan e Banepa — que passaram décadas em conflito entre si, enfraquecendo a capacidade de resistência face a potências externas.

A unificação por Prithvi Narayan Shah (1768)

Foi essa divisão que permitiu a ascensão de Prithvi Narayan Shah, rei de Gorkha desde 1743. Após décadas de campanhas militares, conquistou os reinos do vale e fundou o Reino Unificado do Nepal em 25 de setembro de 1768. A sua estratégia combinava força militar com diplomacia, e o seu lema de preservar o Nepal como um «jardim das quatro castas» refletia uma visão de coesão nacional assente na hierarquia hindu. A dinastia Shah que fundou duraria 240 anos.

A expansão territorial que se seguiu levou o Nepal a fronteiras muito mais vastas do que as atuais, incluindo partes do atual estado indiano de Sikkim e territórios tibetanos. Essa ambição colidiu com a crescente presença britânica na Índia.

A Guerra Anglo-Nepalesa e o Tratado de Sugauli (1814–1816)

A Guerra Anglo-Nepalesa eclodiu em 1814 quando as fronteiras em expansão do Nepal entraram em conflito direto com a Companhia das Índias Orientais. Após dois anos de combates, o Nepal foi derrotado. O Tratado de Sugauli (1816) obrigou o reino a ceder cerca de um terço do seu território — incluindo as regiões que hoje correspondem ao Himachal Pradesh, Uttarakhand e partes do Sikkim — e a aceitar um residente britânico em Catmandu. Na prática, o Nepal tornou-se um protetorado de facto da Grã-Bretanha, embora mantivesse a independência formal, o que lhe permitiu escapar à colonização direta que afetou quase toda a região.

Um legado direto deste conflito foi o recrutamento dos famosos soldados Gurkha para o exército britânico, tradição que se mantém até à atualidade.

O domínio Rana (1846–1951)

Em 1846, um golpe palaciano protagonizado por Jung Bahadur Rana inaugurou mais de um século de oligarquia hereditária. Os Rana tornaram o cargo de primeiro-ministro vitalício e transmissível dentro da família, relegando os reis Shah ao papel de figuras decorativas. O regime foi marcado pelo isolamento internacional, pela exploração económica e pela repressão política. A educação e o desenvolvimento do país foram deliberadamente contidos para manter a população dependente e sem capacidade de organização.

A queda dos Rana foi precipitada pela independência da Índia em 1947 e pela revolução chinesa em 1949, que alteraram radicalmente o equilíbrio geopolítico da região. Em 1950, o rei Tribhuvan fugiu para a embaixada indiana e depois para o exílio na Índia, aliando-se ao Partido do Congresso Nepalês. Com apoio indiano, a monarquia foi restaurada em 1951 e os Rana afastados do poder.

Democracia frágil e autocracia real (1951–1990)

O período pós-Rana foi de grande instabilidade. O rei Mahendra (1955–1972) aboliu o sistema parlamentar em 1960 e instaurou o sistema Panchayat, um modelo de «democracia sem partidos» que concentrava o poder no monarca. O seu filho, Birendra, manteve o mesmo sistema até 1990, quando uma onda de protestos populares o forçou a aceitar uma constituição multipartidária e um parlamento eleito, inaugurando uma monarquia constitucional.

A guerra civil maoísta (1996–2006)

Em 1996, o Partido Comunista do Nepal (Maoísta) lançou uma insurreição armada com o objetivo de abolir a monarquia e instaurar uma república popular. O conflito, que durou uma década, causou cerca de 17 000 mortos e deslocou centenas de milhares de pessoas. A situação agravou-se dramaticamente em junho de 2001, quando o massacre real ceifou a vida do rei Birendra, da rainha e de outros membros da família real, num episódio ainda hoje envolto em controvérsia. O príncipe Gyanendra ascendeu ao trono.

O novo rei tentou governar de forma autocrática, o que alienou tanto os partidos políticos tradicionais como a sociedade civil. Em 2006, uma aliança entre os partidos e os maoístas forçou Gyanendra a restaurar o parlamento. O Acordo de Paz Abrangente de novembro de 2006 pôs fim ao conflito armado e abriu caminho para a transição republicana.

A República Federal Democrática do Nepal (2008–presente)

Em 28 de maio de 2008, a Assembleia Constituinte aboliu a monarquia na sua primeira sessão e proclamou a República Federal Democrática do Nepal. Foi o fim de 240 anos de dinastia Shah. O país adotou uma constituição federal em 2015, organizando-se em sete províncias.

No entanto, a estabilidade política continuou a ser esquiva. Entre 2008 e 2025, o Nepal teve 15 governos diferentes, reflexo de alianças frágeis e de uma cultura política marcada pela corrupção e pelo nepotismo. A frustração pública culminou em setembro de 2025, quando protestos liderados por jovens, desencadeados pela proibição governamental de 26 plataformas de redes sociais, se transformaram na maior crise política desde a revolução de 2006. A violência policial causou pelo menos 75 mortos e mais de 2 000 feridos, levando à demissão do primeiro-ministro.

As eleições legislativas de 5 de março de 2026 produziram um resultado histórico: o Rastriya Swatantra Party, fundado pelo ex-autarca de Catmandu Balendra Shah, conquistou 182 dos 275 lugares da Câmara dos Representantes — a primeira maioria absoluta no Nepal desde 1999. O novo governo, o mais jovem da história do país, tomou posse a 27 de março de 2026, prometendo combater a corrupção e modernizar o Estado.

Perguntas frequentes

Quando foi fundado o Nepal como estado unificado?

O Reino Unificado do Nepal foi fundado em 25 de setembro de 1768 por Prithvi Narayan Shah, rei de Gorkha, após a conquista dos reinos rivais do vale de Catmandu.

Quando é que o Nepal aboliu a monarquia?

A monarquia foi abolida em 28 de maio de 2008, quando a Assembleia Constituinte proclamou a República Federal Democrática do Nepal na sua primeira sessão, pondo fim a 240 anos da dinastia Shah.

O que causou os protestos de 2025 no Nepal?

Os protestos de setembro de 2025 foram desencadeados pela proibição governamental de 26 plataformas de redes sociais. A repressão policial, que causou pelo menos 75 mortos, agravou a crise, que refletia uma frustração acumulada com a corrupção, o desemprego jovem e a instabilidade política crónica.

Quem governa o Nepal em 2026?

Em 2026, o Nepal é governado pelo primeiro-ministro Balendra Shah, do Rastriya Swatantra Party, que venceu as eleições de março de 2026 com maioria absoluta — a primeira desde 1999.

O Nepal foi alguma vez colonizado?

O Nepal nunca foi formalmente colonizado. Após a derrota na Guerra Anglo-Nepalesa (1814–1816) e a assinatura do Tratado de Sugauli, tornou-se um protetorado de facto da Grã-Bretanha, mantendo a independência formal e escapando à colonização direta que afetou quase toda a Ásia do Sul.

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