Qual era a função do acendedor de lampiões
O acendedor de lampiões era o trabalhador municipal encarregado de acender, ao anoitecer, e apagar, ao romper do dia, os candeeiros de iluminação pública que alumiavam as ruas das cidades antes da chegada da eletricidade. Foi uma profissão característica do século XIX e das primeiras décadas do século XX, intimamente ligada à introdução da iluminação a gás e, antes desta, aos antigos lampiões a azeite e a petróleo. Embora hoje seja um ofício praticamente extinto, durante várias gerações o acendedor de lampiões foi uma figura familiar do quotidiano urbano e um elemento essencial da segurança e da vida noturna das povoações.
Em que consistia o trabalho
A função principal do acendedor era simples de enunciar, mas exigente na prática: garantir que, todas as noites, os candeeiros das ruas se encontravam acesos e que, de manhã, eram devidamente apagados. Como os primeiros lampiões a gás não dispunham de qualquer sistema de ignição automática, dependiam de uma intervenção humana para funcionar. Era essa lacuna técnica que dava origem ao ofício.
Ao fim da tarde, o acendedor percorria a pé um percurso fixo que lhe estava atribuído, parando junto de cada candeeiro. Servia-se de uma vara comprida com uma pequena chama, mecha ou esponja na extremidade, que aproximava do bico de gás para o inflamar. Numa única ronda podia ter de acender dezenas de candeeiros, distribuídos por bairros residenciais e comerciais. De madrugada repetia o trajeto em sentido inverso para extinguir as luzes.
Tarefas para além de acender e apagar
O ofício não se limitava ao gesto de aproximar a chama. O acendedor era também responsável pela manutenção corrente dos candeeiros que tinha a seu cargo. Entre as tarefas habituais contavam-se:
- Limpar os vidros e as armações, frequentemente cobertos de fuligem e poeira;
- Verificar e abastecer o combustível, no caso dos lampiões a azeite ou a petróleo;
- Substituir mechas gastas e pequenas peças avariadas;
- Comunicar às autoridades os candeeiros danificados ou que deixavam de funcionar.
Havia ainda uma particularidade ditada pela economia: nas noites de lua cheia, quando o luar permitia aproveitar a luz natural, era comum dispensar-se o acendimento de parte ou da totalidade dos candeeiros, poupando combustível. O calendário lunar chegava, assim, a condicionar o trabalho destes profissionais.
Por que era uma função importante
Antes da iluminação pública, a noite urbana era um espaço de perigo e de paragem. Sem luz, o comércio encerrava, a circulação tornava-se difícil e os assaltos proliferavam. Ao acender as ruas, o acendedor de lampiões prestava um serviço que ultrapassava em muito o simples conforto: contribuía diretamente para a segurança pública, para a orientação de quem se deslocava à noite e para o prolongamento da vida social e económica para além do pôr do sol.
A passagem do acendedor era, em muitas localidades, um sinal reconhecível de que a cidade estava "aberta" e protegida. Teatros, cafés e restaurantes deixaram de depender da luz solar, e a vida noturna ganhou uma dimensão nova. A figura tornou-se de tal modo enraizada no imaginário coletivo que ainda hoje é evocada na literatura — designadamente no célebre episódio de O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry, em que o acendedor cumpre fielmente a sua tarefa.
A iluminação a gás e o contexto português
A iluminação pública a gás difundiu-se na Europa a partir do início do século XIX, primeiro em Londres e, depois, nas grandes capitais. Em Portugal, Lisboa inaugurou a iluminação a gás em 1848, seguindo-se outras cidades como o Porto. Até então, as ruas eram alumiadas por lampiões a azeite, igualmente a cargo de acendedores. A generalização do gás multiplicou o número de candeeiros e, com eles, a procura destes trabalhadores, que passaram a integrar os quadros das companhias de gás ou dos serviços municipais.
O ofício implicava disciplina e pontualidade rigorosas, uma vez que o horário de acendimento estava regulado e qualquer atraso deixava bairros inteiros às escuras. Era, por isso, um trabalho de grande responsabilidade, ainda que modestamente remunerado e exigente em termos físicos, dado o muito que se caminhava em todas as condições meteorológicas.
O declínio da profissão
O fim do acendedor de lampiões resultou do progresso técnico. A partir de finais do século XIX surgiram dispositivos que permitiam o acendimento e a extinção automáticos dos candeeiros a gás, através de relógios e válvulas temporizadas, reduzindo a necessidade de rondas manuais. Decisivo, porém, foi o avanço da iluminação elétrica, anunciada em larga escala a partir de 1879 e progressivamente adotada pelas cidades ao longo do século XX.
À medida que os candeeiros a gás eram substituídos por luminárias elétricas, comandadas centralmente e sem chama a manter, a função do acendedor foi-se tornando dispensável. Em meados do século XX, a profissão tinha praticamente desaparecido na generalidade dos países, sobrevivendo apenas em casos pontuais — bairros históricos onde, por razões patrimoniais e turísticas, se mantêm candeeiros a gás acesos manualmente como evocação do passado. É o que ainda sucede, por exemplo, em algumas zonas históricas europeias, onde subsiste um número reduzido de acendedores com funções sobretudo de preservação do património.
Perguntas frequentes
O que fazia exatamente o acendedor de lampiões?
Acendia ao anoitecer e apagava de madrugada os candeeiros da iluminação pública, percorrendo a pé um percurso fixo com uma vara munida de chama na ponta. Tratava ainda da limpeza dos vidros, do abastecimento de combustível e da manutenção corrente dos candeeiros.
Que instrumento utilizava?
Uma vara ou cana comprida com uma pequena chama, mecha ou esponja inflamável na extremidade, que aproximava do bico de gás para o acender. Em alguns casos, a mesma vara servia para cortar o gás e apagar a luz.
Porque desapareceu a profissão?
Devido ao desenvolvimento de sistemas de acendimento automático dos candeeiros a gás e, sobretudo, à substituição da iluminação a gás pela iluminação elétrica ao longo do século XX, que tornou desnecessária a intervenção manual.
Ainda existem acendedores de lampiões em 2026?
Apenas de forma residual. Em alguns bairros históricos da Europa mantêm-se candeeiros a gás acesos manualmente por razões patrimoniais e turísticas, mas trata-se de uma função simbólica e de conservação, e não de um serviço generalizado de iluminação pública.