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O Papel das Mulheres nas Guerras ao Longo da História

Publicado 2. maio 2025 Atualizado 28. junho 2026

Ao longo de milénios de conflitos armados, as mulheres nunca foram meras espectadoras. Combatentes, espiãs, enfermeiras, sabotadoras, operárias de guerra e líderes militares — o contributo feminino para os esforços bélicos da humanidade é simultaneamente vasto e sistematicamente subvalorizado. Da Antiguidade clássica às linhas da frente ucranianas em 2026, a presença das mulheres na guerra desafiou normas sociais, remodelou estruturas militares e, com frequência, ficou apagada dos relatos históricos oficiais.

Antiguidade: guerreiras, rainhas e o mito das Amazonas

A ideia de mulheres em combate não é uma invenção moderna. Escavações arqueológicas em antigas necrópoles citas e sármatas, povos nómadas das estepes euroasiáticas, revelaram esqueletos femininos enterrados com armamento de guerra — arcos, lanças e armaduras — o que confirma a sua participação ativa em combate. Estas descobertas alimentaram o mito greco-romano das Amazonas, guerreiras lendárias que Heródoto situava nas margens do Mar Negro. O historiador grego descreveu ainda Tomíris, rainha dos Masságetas, que na segunda metade do século VI a.C. terá derrotado e morto Ciro, o Grande, rei da Pérsia.

No Egipto antigo, Hatchepsut assumiu o título de faraó e conduziu expedições militares. Na África subsariana, rainhas guerreiras como as Iyoba do reino do Benim exerceram funções de comando. Na Britânia, a rainha Boudica liderou, por volta de 60 d.C., uma revolta da tribo Icena contra a ocupação romana, destruindo várias cidades, incluindo a futura Londinium. Embora a insurreição tenha sido finalmente esmagada, Boudica tornou-se símbolo duradouro de resistência e coragem feminina.

Idade Média e início da Modernidade

Na Europa medieval, a participação direta de mulheres em combate era rara mas não inexistente. A figura mais célebre é Joana d'Arc (c. 1412–1431), jovem camponesa francesa que, afirmando receber instruções divinas, liderou forças militares francesas num momento decisivo da Guerra dos Cem Anos. As suas vitórias em Orleães e noutras praças foram fundamentais para a inversão do conflito a favor de França. Capturada pelos Borgonheses e entregue aos ingleses, foi queimada viva em Ruão com apenas 19 anos, acusada de heresia e travestismo. Foi reabilitada postumamente e, após a Revolução Francesa, elevada a símbolo nacional.

Fora da Europa, durante o período feudal japonês, as onna-musha — mulheres da classe samurai — eram treinadas no manejo de armas, sobretudo a alabarda naginata, para defenderem os seus castelos na ausência dos guerreiros masculinos. Em África, o reino do Daomé (atual Benim) manteve durante séculos um corpo de combatentes femininas, as Agojie, conhecidas no Ocidente como as "Amazonas do Daomé", que constituíam uma parte significativa da força de elite do exército até finais do século XIX.

Primeira Guerra Mundial: a retaguarda que avançou para a frente

A Grande Guerra (1914–1918) representou um ponto de inflexão. Com dezenas de milhões de homens mobilizados, as mulheres foram chamadas a assumir funções que lhes eram anteriormente vedadas: trabalhadoras industriais, motoristas, mecânicas, operadoras de telecomunicações e agentes de serviços públicos. No Reino Unido, o Women's Army Auxiliary Corps mobilizou mais de 57 000 mulheres para funções de apoio. Em Portugal, Ana de Castro Osório e a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas defenderam ativamente a participação nacional no conflito e organizaram apoio logístico às forças expedicionárias em França.

Algumas mulheres ultrapassaram a retaguarda. Flora Sandes, cidadã britânica, alistou-se como soldado no exército sérvio e combateu efetivamente nas trincheiras, sendo ferida em combate e condecorada com as mais altas distinções militares sérvias. Na Rússia, Maria Bochkareva fundou, em 1917, o Batalhão Feminino da Morte — uma unidade de combate inteiramente feminina que chegou a contar com mais de 2 000 voluntárias e combateu na frente oriental. Mulheres como Edith Cavell tornaram-se figuras centrais da enfermagem de guerra e, no caso de Cavell, da resistência — foi executada pelos alemães em 1915 por ajudar soldados aliados a fugir da Bélgica ocupada.

Segunda Guerra Mundial: diversificação sem precedentes

Entre 1939 e 1945, a escala e a variedade do envolvimento feminino na guerra não tiveram precedentes históricos. Nos Estados Unidos, cerca de 350 000 mulheres serviram nas forças armadas em corpos auxiliares (WAC, WAVES, WASPS), desempenhando funções que iam da aviação de teste e transporte de aeronaves ao trabalho de laboratório e análise fotográfica de reconhecimento. Na União Soviética, a participação foi muito mais direta: estima-se que cerca de um milhão de mulheres serviram no Exército Vermelho, algumas como francotiradoras — Liudmila Pavlichenko é creditada com 309 abates confirmados — outras como aviadoras em regimentos exclusivamente femininos, como o célebre 588.º Regimento de Aviação Noturna, apelidado pelos alemães de Nachthexen ("Bruxas da Noite").

Nos movimentos de resistência europeus, as mulheres foram peças fundamentais. Na França ocupada, integraram redes de sabotagem e transporte de informação, correndo o risco de deportação ou execução. Na Polónia, participaram no levantamento do Gueto de Varsóvia e no Levantamento de Varsóvia de 1944. Nos Países Baixos e na Bélgica, organizaram redes clandestinas de fuga para aliados abatidos e judeus perseguidos. Em Portugal, embora o país não estivesse em guerra, mulheres como Aristides de Sousa Mendes foram apoiadas pelas suas esposas em atos de salvamento humanitário com risco pessoal.

A Segunda Guerra Mundial transformou também as economias civis: o ícone norte-americano "Rosie, a Rebitadeira" simbolizou o papel das mulheres nas fábricas de armamento, enquanto na Grã-Bretanha o Serviço Nacional de Trabalho Feminino mobilizou mulheres para a agricultura, a indústria e os serviços de emergência.

Segunda metade do século XX: reconhecimento gradual e novos conflitos

No contexto da Guerra Fria e dos movimentos de libertação nacional, as mulheres combateram ativamente em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Cabo Verde, no âmbito das guerras de libertação contra o domínio colonial português. O MPLA, a FRELIMO e o PAIGC integraram mulheres nas suas estruturas militares, embora o seu reconhecimento formal tenha sido frequentemente postergado após a independência. Em Israel, a Lei do Serviço de Defesa de 1949 estabeleceu o serviço militar obrigatório para mulheres, ainda que com restrições nas funções de combate que foram progressivamente sendo levantadas. No Vietname, mulheres vietnamitas participaram em ambos os lados do conflito, tendo o Vietname do Norte mobilizado milhares de mulheres para funções de combate e defesa antiaérea.

Século XXI: integração plena e desafios persistentes

Nas últimas décadas, as forças armadas de numerosos países procederam à abertura formal de todas as funções militares, incluindo combate, às mulheres. Os Estados Unidos eliminaram em 2015 as últimas restrições legais à participação feminina em unidades de combate. Israel mantém uma tradição de integração mista que remonta à fundação do estado. Países como Noruega, Suécia e Países Baixos adotaram o recrutamento obrigatório indiferenciado por género.

Em 2026, o Brasil concretizou um marco histórico ao incorporar pela primeira vez 1 467 mulheres no Serviço Militar Inicial Feminino, com participação voluntária em 13 estados. A médica coronel Cláudia Lima Gusmão Cacho tornou-se a primeira mulher a alcançar o generalato na história do Exército brasileiro. Em Portugal, as mulheres integram as Forças Armadas desde 1992 e estão presentes em missões internacionais da NATO e da ONU, embora a sua representação em postos de comando de topo permaneça minoritária.

O conflito na Ucrânia, iniciado com a invasão russa em escala total em fevereiro de 2022, constitui o exemplo mais recente e documentado da participação feminina em combate convencional intenso. Estimativas de 2025 indicam que dezenas de milhares de mulheres servem nas forças armadas ucranianas em funções que vão da infantaria à artilharia, drones e operações especiais. O conflito evidenciou também a dimensão dupla da guerra para as mulheres: combatentes e, simultaneamente, principais vítimas civis, com mais de cinco mil mortas e catorze mil feridas, segundo dados das Nações Unidas.

O apagamento histórico e a recuperação da memória

Apesar da centralidade do contributo feminino em inúmeros conflitos, a historiografia militar tradicional marginalizou sistematicamente as mulheres. Os seus feitos foram atribuídos a homens, classificados como excepcionais ou relegados para categorias auxiliares. A partir da segunda metade do século XX, a história das mulheres na guerra tornou-se um campo académico em crescimento, com investigadoras a recuperar nomes, testemunhos e arquivos ignorados. Em Portugal, trabalhos recentes têm documentado, por exemplo, a presença de mulheres nas redes de resistência ao salazarismo durante a Guerra Colonial (1961–1974) e o papel das "madrinhas de guerra" — correspondentes voluntárias dos soldados no ultramar — cujo contributo para a moral das tropas foi significativo mas raramente estudado.

Perguntas frequentes

Existiram mulheres combatentes na Antiguidade?

Sim. Evidências arqueológicas em sepulturas citas e sármatas confirmam a presença de mulheres armadas. Figuras históricas como Tomíris, rainha dos Masságetas, e Boudica, rainha dos Icenas britânicos, lideraram exércitos em combate real. O mito grego das Amazonas tem provável base histórica nestas culturas guerreiras.

Qual foi o papel das mulheres na Segunda Guerra Mundial?

Foi o mais diversificado até então: nos países aliados, as mulheres serviram como enfermeiras, aviadoras, francotiradoras (especialmente na URSS), operárias de fábricas de armamento, agentes da resistência, criptoanalistas e pessoal auxiliar das forças armadas. Nos países ocupados, foram fundamentais nas redes clandestinas de resistência.

Em que países as mulheres têm serviço militar obrigatório?

Em 2026, os países com serviço militar obrigatório para mulheres incluem Israel (desde 1949), Noruega (desde 2013), Suécia, Países Baixos e Eritreia, entre outros. Em muitos outros países, o serviço voluntário está aberto a mulheres em todas as funções, incluindo combate.

Qual é o papel das mulheres na guerra da Ucrânia?

Desde 2022, dezenas de milhares de mulheres servem nas forças armadas ucranianas em funções que incluem combate direto, artilharia, operação de drones e serviços médicos. Ao mesmo tempo, as mulheres constituem a maioria dos refugiados e deslocados internos, sendo desproporcionalmente afetadas pelo impacto humanitário do conflito.

Por que razão o contributo das mulheres na guerra foi historicamente ignorado?

A historiografia militar foi dominada por perspetivas androcêntricas que classificavam o combate como domínio exclusivamente masculino. As funções desempenhadas por mulheres eram frequentemente categorizadas como "auxiliares" ou "de apoio", independentemente da sua importância estratégica real. A partir dos anos 1970, a história das mulheres emergiu como campo académico e tem vindo a recuperar e a valorizar estes contributos.

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