Como a propaganda influenciou as guerras na história
Desde a Antiguidade que os Estados perceberam que vencer uma guerra não depende apenas de exércitos e armas, mas também do controlo das ideias, das emoções e da informação. A propaganda — o esforço deliberado para moldar perceções, mobilizar populações e desmoralizar adversários — acompanha o conflito armado há milénios e tornou-se, na era digital de 2026, uma frente de batalha tão decisiva como o campo militar. Este artigo percorre a forma como a persuasão organizada influenciou as guerras ao longo da história e como a inteligência artificial transformou hoje as suas regras.
O que é propaganda de guerra
Por propaganda de guerra entende-se a difusão sistemática de mensagens destinadas a influenciar atitudes e comportamentos em apoio a um objetivo bélico. Não se limita à mentira: muita propaganda eficaz assenta em factos selecionados, meias-verdades, omissões e enquadramentos emocionais. Os seus alvos clássicos são três: a frente interna (manter o moral e o apoio popular ao esforço de guerra), as tropas inimigas (semear o desânimo e incentivar a deserção) e a opinião pública internacional (legitimar a própria causa e isolar o adversário).
Raízes antigas: da Antiguidade à Idade Média
A manipulação da imagem do poder é anterior à palavra "propaganda". Os faraós egípcios mandavam inscrever nas paredes dos templos vitórias que muitas vezes tinham sido empates ou derrotas, como aconteceu com Ramsés II na batalha de Kadesh, no século XIII a.C. Na Roma Antiga, os arcos triunfais, as moedas com a efígie do imperador e os relatos de Júlio César nos Comentários sobre a Guerra das Gálias serviam para construir uma narrativa de invencibilidade e justiça da causa romana.
O próprio termo nasce mais tarde, em contexto religioso: em 1622, o Papa Gregório XV criou a Congregatio de Propaganda Fide, destinada a difundir a fé católica num continente dilacerado pelas guerras de religião. Só no século XX a palavra adquiriu a conotação política e militar que hoje lhe associamos.
A industrialização da persuasão nas guerras mundiais
A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) marcou a passagem para a propaganda de massas. Pela primeira vez, governos criaram departamentos dedicados, como o britânico War Propaganda Bureau, para produzir cartazes, panfletos e notícias. Espalharam-se histórias de atrocidades — algumas verdadeiras, outras exageradas ou inventadas, como a alegada fábrica alemã que transformaria cadáveres em sabão. Estes relatos ajudaram a justificar o conflito e a pressionar países neutros, mas o seu posterior desmentido gerou um ceticismo duradouro perante a propaganda oficial.
Foi, contudo, na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) que a propaganda atingiu uma escala e sofisticação sem precedentes. Na Alemanha nazi, Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, transformou rádio, cinema e imprensa em instrumentos de doutrinação total, com filmes como O Triunfo da Vontade, de Leni Riefenstahl. Do lado aliado, os Estados Unidos mobilizaram Hollywood e cartazes icónicos, enquanto a BBC se tornava uma fonte de credibilidade que transmitia mensagens cifradas à resistência europeia. A rádio revelou-se a arma de comunicação mais poderosa do conflito, capaz de atravessar fronteiras e contornar a censura.
Guerra Fria e guerra psicológica
Durante a Guerra Fria (1947-1991), o confronto entre Estados Unidos e União Soviética foi sobretudo ideológico e informativo. Estações como a Rádio Europa Livre transmitiam para o bloco de Leste, enquanto Moscovo financiava campanhas de desinformação — termo derivado do russo dezinformatsiya. Um exemplo conhecido foi a Operação INFEKTION, nos anos 1980, que difundiu a falsa tese de que o vírus da sida tinha sido criado em laboratórios militares norte-americanos. A guerra do Vietname mostrou ainda o poder das imagens televisivas: fotografias e reportagens chegadas às salas de estar ocidentais minaram o apoio interno ao esforço militar dos EUA, demonstrando que a opinião pública se tornara um campo de batalha estratégico.
A era da informação: do Golfo às redes sociais
A Guerra do Golfo (1991) inaugurou a era da cobertura em direto e da "guerra televisionada", com imagens cuidadosamente geridas pelos militares. Já os conflitos do século XXI deslocaram o centro de gravidade para a Internet. As chamadas "Primaveras Árabes", a partir de 2011, e a guerra civil síria revelaram o papel das redes sociais tanto na mobilização popular como na disseminação de propaganda por grupos como o autodenominado Estado Islâmico, que recorria a vídeos de elevada produção para recrutar combatentes à escala global.
A invasão russa da Ucrânia, iniciada em 2022 e ainda em curso em 2026, tornou-se o laboratório mais visível da propaganda contemporânea. Ambos os lados travam uma intensa guerra narrativa nas plataformas digitais, recorrendo a exércitos de contas automatizadas (bots) e a operações de influência coordenadas para moldar a perceção internacional do conflito.
Propaganda em 2026: inteligência artificial e deepfakes
O traço distintivo da propaganda de guerra em 2026 é a sua automatização através da inteligência artificial generativa. Análises divulgadas em 2025 e 2026 mostram que operadores ligados à Rússia utilizam IA para produzir artigos, imagens e deepfakes — vídeos e áudios ultrarrealistas falsificados — concebidos para imitar fontes credíveis e atingir audiências específicas. Um estudo sobre a guerra na Ucrânia examinou 1,3 milhões de contas ativas em temas de política russa e concluiu que cerca de 45% eram automatizadas.
Conflitos recentes, como a tensão militar em torno do Irão em 2026, foram inundados de imagens e vídeos de combate fabricados por IA, dificultando a distinção entre o que é real e o que é simulado no terreno. Relatórios de segurança estimam que a produção de deepfakes deverá crescer entre três a cinco vezes face ao ano anterior. O objetivo nem sempre é convencer plenamente: muitas vezes basta semear a dúvida e a desconfiança generalizada, corroendo a própria noção de verdade partilhada. É o fenómeno por vezes descrito como "dividendo do mentiroso", em que a mera existência de falsificações permite negar credibilidade a provas autênticas.
O impacto da propaganda no desfecho dos conflitos
Ao longo da história, a propaganda raramente venceu guerras sozinha, mas alterou repetidamente o seu rumo. Sustentou o moral de populações exaustas, justificou intervenções, mobilizou recursos, dividiu inimigos e moldou a memória coletiva dos vencedores. A sua eficácia, porém, tem limites: campanhas demasiado afastadas da realidade tendem a colapsar quando os factos se impõem, gerando descrédito. Em 2026, perante a sofisticação das ferramentas de IA, a literacia mediática, a verificação de factos e a regulação tornaram-se defesas essenciais para preservar a capacidade das sociedades de distinguir informação de manipulação.
Perguntas frequentes
Qual foi a primeira utilização da propaganda na guerra?
Não existe uma "primeira" data exata, mas há registos muito antigos. Os faraós egípcios, como Ramsés II no século XIII a.C., exageravam vitórias militares em monumentos, e a Roma Antiga usava moedas, arcos triunfais e relatos como os de Júlio César para legitimar as suas campanhas.
Qual a diferença entre propaganda e desinformação?
A propaganda é a difusão organizada de mensagens para influenciar atitudes, podendo basear-se em factos selecionados. A desinformação é especificamente a divulgação intencional de informação falsa para enganar. Toda a desinformação é propaganda, mas nem toda a propaganda é falsa.
Como é que a inteligência artificial mudou a propaganda de guerra em 2026?
A IA permite gerar de forma rápida e barata textos, imagens, áudios e vídeos falsos ultrarrealistas (deepfakes), direcionados a públicos específicos e difundidos por contas automatizadas. Isto aumentou a escala, a velocidade e a dificuldade de deteção da manipulação.
A propaganda consegue, por si só, ganhar uma guerra?
Raramente. A propaganda influencia o moral, o apoio público e a legitimidade de uma causa, podendo ser decisiva nesses planos, mas não substitui a capacidade militar, económica e logística necessária para vencer um conflito.