A Peste em Roma: quem pintou e o que representa a obra
A Peste em Roma (La Peste à Rome, em francês) é uma das pinturas académicas mais célebres do século XIX. Foi executada pelo pintor francês Jules-Élie Delaunay (1828–1891) e exposta pela primeira vez no Salão de Paris em 1869, onde alcançou um êxito imediato. A obra encontra-se hoje no Musée d'Orsay, em Paris, e continua a ser uma referência incontornável na iconografia das epidemias na arte ocidental.
O artista: Jules-Élie Delaunay
Jules-Élie Delaunay nasceu em Nantes a 13 de junho de 1828 e faleceu em Paris a 5 de setembro de 1891. Formou-se na École des Beaux-Arts de Paris, onde estudou sob a orientação dos pintores Hippolyte Flandrin e Louis Lamothe, ambos seguidores da tradição classicista de Jean-Auguste-Dominique Ingres. A sua educação artística assentava nos cânones do academismo francês: domínio rigoroso do desenho, composição equilibrada e recurso a temas históricos, mitológicos e religiosos.
Em 1856, Delaunay ganhou o prestigiado Prix de Rome, bolsa que financiava uma estadia prolongada na Itália para os mais promissores artistas franceses. A experiência romana viria a ser decisiva para a sua carreira: em contacto com os pintores do Quattrocento italiano, afastou-se progressivamente do ideal rafaelita de perfeição formal para abraçar uma linguagem mais severa e sincera, com maior atenção à expressividade das figuras e à sobriedade da composição.
Ao regressar a França, Delaunay recebeu numerosas encomendas de grande prestígio: afrescos para a Igreja de São Nicolau em Nantes, painéis decorativos com os temas de Apolo, Orfeu e Anfíon para a Ópera de Paris, e doze pinturas para o salão principal do Conselho de Estado francês, no Palais-Royal. Em 1879 foi eleito membro da Académie des Beaux-Arts, e em 1889 tornou-se professor da École Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris. Na última fase da vida destacou-se igualmente como retratista de grande popularidade.
A génese da pintura
A ideia de pintar uma cena de peste em Roma surgiu em 1857, durante a estadia romana de Delaunay, quando visitou a Igreja de San Pietro in Vincoli. Ali encontrou um afresco datado de 1476 que representava uma epidemia de peste a devastar a cidade, e ficou profundamente impressionado com a força expressiva da imagem. A partir desse momento, começou a elaborar os primeiros esboços e estudos preparatórios para a obra.
A fonte literária que inspirou a composição final foi a Legenda Áurea (Legenda Aurea), a célebre coletânea hagiográfica do século XIII da autoria de Jacopo de Varazze (Jacobus de Voragine). Nessa obra, descreve-se uma passagem em que um anjo bom ordena a um anjo mau, armado com uma lança, que golpeie as portas das casas de Roma: cada golpe equivale a um morto no interior. A narrativa confere à epidemia uma dimensão de castigo divino e de agente sobrenatural da morte — uma leitura teológica da doença muito comum na Idade Média e que Delaunay transportou para a tela com toda a sua força dramática.
A composição e o que a pintura representa
A obra é um óleo sobre tela com as dimensões de 131 × 176,5 cm. A composição organiza-se em torno de um espaço urbano romano, com arquitetura clássica e a estátua equestre de Marco Aurélio ao fundo, numa evocação precisa da Antiguidade.
No plano inferior esquerdo, em sombra, jazem os corpos das vítimas da peste, prostrados e agonizantes, numa representação crua do sofrimento humano. Em contraste, no lado direito da tela, em plena luz, surgem as duas figuras angélicas: o anjo bom, sereno e autoritário, e o anjo mau, figura sombria e ameaçadora que executa os golpes fatais nas portas das habitações. A oposição luz/sombra reforça a dualidade entre o divino e o destruidor.
Numa alcova visível na composição encontra-se uma estátua de Esculápio, o deus greco-romano da medicina, uma ironia simbólica: o protetor da saúde é reduzido a uma presença inerte enquanto a morte ceifa os habitantes da cidade. No plano superior esquerdo, avança uma procissão de sacerdotes de alvas brancas, encabeçada por uma cruz processional dourada — a Igreja como testemunha impotente ou como intermediária diante do flagelo.
A paleta cromática é dominada por tons quentes e terrosos, interrompidos pelo branco dos hábitos clericais e pelo brilho metálico das figuras angélicas. O tratamento da luz é teatral e deliberado, herdeiro da tradição classicista mas com uma tensão dramática que antecipa alguns elementos do simbolismo de finais do século XIX.
Receção e impacto
Quando foi apresentada no Salão de Paris de 1869, A Peste em Roma foi recebida com entusiasmo pela crítica e pelo público. O Estado francês, através da lista civil de Napoleão III, adquiriu imediatamente a tela pelo valor de 5 000 francos, um reconhecimento inequívoco do seu prestígio. A obra consolidou a reputação de Delaunay como um dos principais pintores históricos da sua geração e distinguiu-se num período em que o academismo francês atingia um dos seus apogeus institucionais.
A pintura inscreve-se numa longa tradição de representação das epidemias na arte ocidental, que inclui obras como A Praga de Ashdod de Nicolas Poussin (1630) ou A Praga de Jaffa de Antoine-Jean Gros (1804). O que distingue Delaunay é a precisão arqueológica da cenografia romana, o equilíbrio entre o naturalismo das vítimas e o sobrenaturalismo dos anjos, e a capacidade de fundir fonte literária medieval com linguagem pictórica académica do século XIX.
Desde 2026, a obra continua a estar em exposição permanente no Musée d'Orsay, em Paris, e é frequentemente reproduzida em contextos que vão da história da medicina à filosofia da religião, mantendo uma presença cultural significativa.
Perguntas frequentes
Quem pintou A Peste em Roma?
A obra A Peste em Roma (La Peste à Rome) foi pintada pelo artista francês Jules-Élie Delaunay (1828–1891), pintor académico nascido em Nantes, e foi exposta pela primeira vez no Salão de Paris em 1869.
Onde está atualmente a pintura A Peste em Roma?
A tela encontra-se no Musée d'Orsay, em Paris, onde integra a coleção permanente do museu.
O que representa a pintura A Peste em Roma?
A obra representa uma epidemia de peste a devastar a cidade de Roma, com base numa passagem da Legenda Áurea de Jacopo de Varazze: um anjo bom ordena a um anjo mau que golpeie as portas das casas, causando a morte dos habitantes. A composição inclui vítimas prostradas, as duas figuras angélicas, uma estátua de Esculápio e uma procissão de sacerdotes.
Em que se inspirou Delaunay para pintar esta obra?
A inspiração veio de dois momentos distintos: a visita à Igreja de San Pietro in Vincoli em Roma, onde viu um afresco de 1476 sobre a peste, e a leitura da Legenda Áurea do século XIII, que forneceu o enquadramento narrativo da cena com os dois anjos.
Qual o valor histórico e artístico da pintura?
A obra é considerada uma das mais importantes representações das epidemias na pintura ocidental do século XIX. Foi adquirida pelo Estado francês em 1869 por 5 000 francos e distingue-se pela fusão entre rigor académico, dramatismo teatral e referências à Antiguidade romana e à literatura medieval.