Circe: Quem Foi e o Que Fez na Mitologia Grega
Circe (em grego antigo Kírkē) é uma das figuras femininas mais marcantes da mitologia grega: feiticeira imortal, filha do deus-sol Hélio, célebre pelo poder de transformar homens em animais com poções e ervas. Habitava sozinha a ilha de Eeia, rodeada de feras domesticadas, e ficou para sempre associada ao episódio em que enfeitiçou os companheiros de Ulisses na Odisseia de Homero. Mais do que uma simples antagonista, Circe encarna o arquétipo da mulher poderosa e independente, capaz de desafiar heróis e deuses — uma leitura que voltou a ganhar enorme popularidade no século XXI.
Origem e genealogia
Segundo a tradição mais difundida, Circe era filha de Hélio, a personificação do Sol, e da oceânide Perse (ou Perseis). Esta ascendência divina explica os seus poderes e a sua imortalidade. Tinha como irmãos figuras igualmente ligadas à magia e à realeza: Eetes, rei da Cólquida e guardião do Velo de Ouro, e Pasífae, esposa do rei Minos de Creta e mãe do Minotauro. A célebre Medeia, feiticeira da saga dos Argonautas, era sua sobrinha, filha de Eetes.
O seu nome está etimologicamente próximo do verbo grego que significa "tecer" ou "dar voltas", o que alguns autores relacionam com a ideia de enredar e manipular. Circe é por vezes classificada como deusa menor ou ninfa, mas é sobretudo descrita como uma feiticeira (em grego, pharmakís), perita em pharmaka: drogas, ervas e venenos.
A ilha de Eeia e os seus poderes
Circe vivia isolada na ilha mítica de Eeia, num palácio de pedra erguido numa clareira no meio de um bosque denso. À sua volta vagueavam leões e lobos estranhamente mansos — homens que ela própria transformara com as suas poções. Era servida por ninfas, filhas de fontes e rios.
O seu domínio era a magia da metamorfose: misturava ervas mágicas em comida ou bebida e, tocando depois a vítima com uma vara, alterava-lhe a forma sem lhe apagar a consciência humana. Atribui-se-lhe ainda conhecimento de feitiços de ilusão e de práticas próximas da necromancia. Esta combinação de beleza, hospitalidade aparente e perigo oculto faz de Circe uma das primeiras grandes "bruxas" da literatura ocidental.
Circe e Ulisses na Odisseia
O episódio mais famoso surge no Canto X da Odisseia, atribuída a Homero (séc. VIII a.C.). Regressando da Guerra de Troia, Ulisses (Odisseu) aporta a Eeia. Envia um grupo de homens a explorar a ilha; estes encontram o palácio de Circe, que os recebe com um banquete. Ao beberem a sua poção, todos são transformados em porcos, mantendo no entanto a mente humana — um dos detalhes mais perturbadores do mito.
Apenas Euríloco escapa e alerta Ulisses. Quando o herói parte em socorro dos companheiros, é interceptado pelo deus Hermes, que lhe entrega uma erva protetora chamada moly, capaz de o imunizar contra a magia. Imune à poção, Ulisses obriga Circe — de espada em punho — a libertar a tripulação e a devolver-lhe a forma humana. A feiticeira, vencida, torna-se aliada e amante do herói.
Ulisses e os seus homens permanecem um ano em Eeia. É Circe quem, no fim, indica a Ulisses o caminho de regresso a Ítaca, aconselhando-o a descer ao mundo dos mortos para consultar o adivinho Tirésias e alertando-o para os perigos que enfrentará a seguir: as Sereias, os monstros Cila e Caríbdis e o gado sagrado de Hélio. De antagonista, passa assim a guia indispensável da viagem.
Outros mitos: Glauco, Cila e Pico
A tradição posterior, sobretudo as Metamorfoses do poeta romano Ovídio (séc. I), enriqueceu o retrato de Circe com episódios de ciúme e vingança. Num deles, o deus marinho Glauco procura-a para obter um filtro de amor que conquiste a ninfa Cila. Apaixonada por Glauco e rejeitada, Circe vinga-se na rival: envenena as águas onde Cila se banhava, transformando-a no monstro de seis cabeças que mais tarde devorará parte da tripulação de Ulisses.
Noutro mito, o rei italiano Pico recusa o amor de Circe por ser fiel à ninfa Canente; despeitada, a feiticeira converte-o num pica-pau. Estes relatos consolidam a imagem de Circe como figura de paixões intensas e poder implacável quando contrariada.
Descendência e tradições tardias
Da união com Ulisses, várias fontes atribuem a Circe filhos, sendo o mais citado Telégono. Numa tradição recolhida na Telegonia (epopeia perdida), Telégono parte à procura do pai e acaba por matá-lo sem o reconhecer, com uma lança rematada por um ferrão de raia — cumprindo a profecia de que a morte de Ulisses viria "do mar". Algumas versões prolongam ainda a saga com casamentos cruzados entre os descendentes de Circe e a família de Ulisses.
Interpretações e legado cultural
Ao longo dos séculos, Circe foi lida de formas muito diversas. Na Antiguidade e na época medieval, foi muitas vezes apresentada como exemplo moral negativo — a tentadora cujas poções rebaixam o homem ao nível animal, símbolo dos perigos do prazer e da perda de autocontrolo. A partir do Renascimento, pintores e poetas exploraram a sua sensualidade e o seu poder.
Já nas últimas décadas, a leitura mudou de sinal. Circe tornou-se um ícone feminista, símbolo da mulher autónoma que vive segundo as suas próprias regras num mundo dominado por deuses masculinos. O marco mais influente desta releitura é o romance Circe (2018), de Madeline Miller, êxito internacional de vendas que recontou o mito do ponto de vista da própria feiticeira. O sucesso do livro deu origem a uma adaptação televisiva da HBO Max, ainda em produção em 2026, anunciada como uma minissérie centrada na transformação de Circe de ninfa insegura em poderosa bruxa — sinal de que, quase três mil anos depois de Homero, a personagem continua viva e em reinvenção.
Perguntas frequentes
Quem foi Circe na mitologia grega?
Circe foi uma feiticeira imortal, filha do deus-sol Hélio e da oceânide Perse. Vivia na ilha de Eeia e era famosa pelo poder de transformar homens em animais através de poções e ervas mágicas.
O que fez Circe a Ulisses e aos seus companheiros?
Transformou em porcos os companheiros de Ulisses depois de lhes oferecer uma poção. Ulisses, protegido pela erva moly dada por Hermes, resistiu à magia e obrigou-a a libertá-los. Depois tornaram-se aliados, e Ulisses permaneceu um ano na ilha.
O que era a erva moly?
A moly era uma erva mágica entregue por Hermes a Ulisses, que o tornou imune às poções de Circe. É um dos primeiros "antídotos mágicos" descritos na literatura ocidental.
Circe era uma deusa ou uma bruxa?
Ambas as coisas. Era imortal e de ascendência divina, mas é descrita sobretudo como feiticeira (pharmakís), perita em ervas e metamorfoses, sendo considerada uma das primeiras grandes bruxas da mitologia.
Porque é que Circe se tornou tão popular atualmente?
A sua releitura como figura feminista, autónoma e poderosa, impulsionada sobretudo pelo romance Circe (2018) de Madeline Miller e pela anunciada série da HBO Max, devolveu-lhe enorme protagonismo cultural.