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Quem redescobriu Machu Picchu: Bingham e a história contestada

Publicado 9. julho 2025 Atualizado 24. junho 2026

Quem foi o responsável pela redescoberta de Machu Picchu?

A questão de quem foi o responsável pela "redescoberta" de Machu Picchu é mais complexa do que sugere a narrativa popularizada ao longo do século XX. Durante décadas, o nome de Hiram Bingham III dominou essa história, apresentado como o explorador que, em 1911, revelou ao mundo ocidental a existência da magnífica cidadela inca oculta nas montanhas do Peru. No entanto, investigações históricas posteriores revelaram que Bingham não foi, de facto, o primeiro a chegar ao local — e que a sua versão dos acontecimentos foi, pelo menos em parte, construída à custa de outros exploradores menos conhecidos.

Hiram Bingham III e a expedição de 1911

Hiram Bingham III (1875–1956) era professor de história das Américas na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, quando organizou a Expedição Peruana de Yale de 1911. O seu objetivo inicial não era sequer Machu Picchu: Bingham procurava Vilcabamba, o último refúgio do Império Inca, que resistiu à conquista espanhola até 1572. Partindo de Cusco em meados de julho desse ano, a expedição avançou ao longo do vale do rio Urubamba, nos Andes peruanos.

No dia 24 de julho de 1911, um agricultor local chamado Melchor Arteaga levou Bingham, em troca de pagamento, ao topo de uma cordilheira a cerca de 2.430 metros de altitude. No cimo, dois rapazes — filhos de agricultores que cultivavam os socalcos incas — guiaram o explorador entre estruturas de pedra cobertas de vegetação densa. O que Bingham encontrou foi um conjunto extraordinário de edifícios de granito meticulosamente talhado: socalcos agrícolas, templos, praças e residências que permaneciam ignorados pelo mundo académico ocidental. Bingham reconheceu de imediato a importância arqueológica do local e fotografou extensivamente as ruínas.

O papel da National Geographic e a projeção mundial

A visibilidade internacional de Machu Picchu ficou a dever-se, em grande medida, à parceria entre Bingham, Yale e a National Geographic Society. Em abril de 1913, a National Geographic Magazine dedicou uma edição inteira às ruínas peruanas, com as fotografias e os relatos da expedição. Foi este conjunto de publicações que transformou Machu Picchu num nome reconhecido em todo o mundo ocidental e que solidificou a associação entre o sítio e o seu autoproclamado "descobridor".

Bingham regressou ao Peru em expedições adicionais em 1912 e 1915-16, financiadas por Yale e pela National Geographic Society. Nessas campanhas, foram removidos do sítio cerca de 5.415 lotes de artefactos — incluindo cerâmica, ossadas humanas de aproximadamente 173 indivíduos e múmias —, transportados para os Estados Unidos para estudo científico. A disputa em torno deste espólio estendeu-se por décadas: apenas em 2007 foi alcançado um acordo entre Yale e o governo peruano para a devolução dos objetos, processo que se iniciou formalmente em 2012.

Quem chegou antes de Bingham

A narrativa que coloca Bingham como "descobridor" de Machu Picchu tem sido progressivamente questionada desde a segunda metade do século XX. Há pelo menos dois casos bem documentados de visitantes anteriores.

Agustín Lizárraga (1902)

Em 14 de julho de 1902 — nove anos antes de Bingham —, o agricultor e explorador peruano Agustín Lizárraga Ruiz chegou a Machu Picchu à frente de uma pequena expedição que procurava novas terras para cultivo, acompanhado do primo Enrique Palma e de Gabino Sánchez. Lizárraga inscreveu o seu nome e a data numa pedra do Templo das Três Janelas — "A. Lizárraga 1902" —, inscrição que o próprio Bingham encontrou em 1911 e registou no seu diário de campo, onde escreveu que "Agustín Lizárraga é o descobridor de Machu Picchu". No entanto, ao longo dos anos seguintes, Bingham foi progressivamente apagando essa referência da sua narrativa pública. No livro definitivo Lost City of the Incas (1952), atribuiu-se a si próprio a descoberta sem qualquer menção ao peruano. Em julho de 2011, no centenário da expedição de Bingham, a Municipalidade Provincial de Cusco concedeu postumamente a Lizárraga a Medalha do Centenário de Machu Picchu.

Augusto Berns (1867)

Ainda mais recuada no tempo é a presença do empresário alemão Augusto Berns, que terá visitado o sítio em 1867 — 44 anos antes de Bingham. Investigações do historiador Paolo Greer revelaram documentos guardados na Biblioteca Nacional do Peru que comprovam a atividade de Berns na zona, incluindo uma concessão de terrenos obtida junto do governo peruano e um mapa de 1874 com a representação da cidadela. Segundo as fontes disponíveis, Berns extraiu objetos do local e vendeu-os a museus e colecionadores europeus, repartindo uma percentagem das receitas com membros do governo peruano. A sua passagem por Machu Picchu não teve, todavia, qualquer projeção académica nem mediática.

Uma redescoberta para o mundo académico, não para os locais

O conceito de "redescoberta" aplica-se a Machu Picchu num sentido muito específico: o de trazer o sítio ao conhecimento da comunidade académica e do público ocidental. As comunidades da região nunca perderam completamente a memória do lugar. Quando Bingham chegou em 1911, agricultores continuavam a cultivar os socalcos incas — e foi precisamente um deles quem o guiou até lá. Estudiosos e investigadores preferem hoje falar em "divulgação científica" ou "reconhecimento internacional", de modo a não apagar o papel das populações locais que preservaram esse conhecimento ao longo de séculos.

Nesse sentido restrito — o de quem apresentou Machu Picchu ao mundo e lhe conferiu visibilidade global —, Hiram Bingham III é ainda o nome mais associado ao acontecimento. Mas a história completa é mais rica, mais disputada e mais peruana do que a versão popularizada pela National Geographic permitiu perceber durante décadas.

Perguntas frequentes

Quem é considerado o responsável pela redescoberta de Machu Picchu?

Hiram Bingham III, professor de Yale, é o nome mais associado à redescoberta de Machu Picchu, graças à sua expedição de 24 de julho de 1911 e à posterior publicação na National Geographic em 1913. No entanto, esta atribuição é contestada por investigadores que documentaram visitas anteriores ao local.

Alguém chegou a Machu Picchu antes de Bingham?

Sim. O agricultor peruano Agustín Lizárraga visitou o sítio em 1902, nove anos antes de Bingham, tendo deixado uma inscrição numa pedra do Templo das Três Janelas. O empresário alemão Augusto Berns terá estado lá ainda mais cedo, em 1867, mas sem qualquer divulgação científica.

O que aconteceu aos artefactos retirados por Bingham?

Bingham transferiu para a Universidade de Yale cerca de 5.415 lotes de artefactos, incluindo ossadas e cerâmica. Após décadas de disputa diplomática, Yale e o Peru chegaram a acordo em 2007, e a devolução dos objetos ao Peru iniciou-se em 2012.

Bingham reconheceu que havia chegado depois de Lizárraga?

Inicialmente sim: no seu diário de 1911, Bingham escreveu que "Agustín Lizárraga é o descobridor de Machu Picchu". Porém, nas décadas seguintes, foi eliminando progressivamente essa referência das suas publicações, chegando a omiti-la completamente no livro Lost City of the Incas (1952).

Os habitantes locais conheciam Machu Picchu antes de Bingham?

Sim. Agricultores locais cultivavam os socalcos incas quando Bingham chegou em 1911, e foi um deles, Melchor Arteaga, quem o guiou até ao sítio. A "redescoberta" refere-se ao reconhecimento académico e mediático ocidental, não à perda total da memória do lugar pelas comunidades da região.

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