Os irmãos Grimm: quem foram e qual o seu legado literário
Jacob e Wilhelm Grimm são dois dos nomes mais reconhecidos da literatura universal, embora a sua obra transcenda largamente o campo do conto infantil com que ficaram associados no imaginário popular. Filólogos, linguistas e folcloristas alemães do século XIX, os irmãos Grimm dedicaram a vida à recolha e sistematização da tradição oral germânica, ao estudo comparativo das línguas e à construção dos fundamentos da linguística histórica moderna. A sua compilação Kinder- und Hausmärchen — «Contos para Crianças e para o Lar» — tornou-se a segunda obra mais vendida em língua alemã, logo após a Bíblia, e continua a ser, em 2026, uma das colectâneas de contos mais lidas e adaptadas em todo o mundo.
Origens e formação académica
Jacob Ludwig Karl Grimm nasceu a 4 de Janeiro de 1785 em Hanau, no Condado de Hesse-Darmstadt (actual Alemanha). O irmão mais novo, Wilhelm Karl Grimm, veio ao mundo a 24 de Fevereiro de 1786, na mesma cidade. Cresceram numa família numerosa de classe média; o pai, Philipp Wilhelm Grimm, era funcionário judicial, e a sua morte precoce em 1796 deixou a família em dificuldades financeiras. Os dois irmãos mais velhos foram então viver com a tia, em Kassel, onde prosseguiram os estudos.
Ambos ingressaram na Universidade de Marburgo para estudar Direito, mas a influência do jurista e filósofo Friedrich Carl von Savigny redirecionou o seu interesse para a história da língua e da literatura alemã. Abandonaram progressivamente o Direito para se tornarem filólogos e investigadores da cultura popular. Trabalharam durante vários anos como bibliotecários em Kassel, cargo que lhes deu acesso privilegiado a manuscritos e fontes primárias. Em 1830, foram nomeados professores na Universidade de Göttingen; em 1841, Frederico Guilherme IV da Prússia convidou-os para integrar a Academia das Ciências de Berlim, onde permaneceram até à morte.
A recolha dos contos populares
O projecto de recolha de contos orais nasceu da ligação dos Grimm ao movimento romântico alemão, que valorizava a cultura e a identidade do povo germânico. Por influência dos escritores Achim von Arnim e Clemens Brentano, Jacob e Wilhelm começaram a reunir histórias da tradição oral, inicialmente entre o seu círculo de amigos e conhecidos de classe média em Kassel. Contrariamente ao que durante décadas se propagou, a maioria dos seus informantes não eram camponeses analfabetos, mas sim mulheres cultas, de famílias burguesas, algumas com ascendência huguenote francesa.
A informante mais célebre foi Dorothea Viehmann (1755–1815), filha de um estalajadeiro de Niederzwehren, a quem foi atribuída a autoria de dezenas de contos. Viehmann possuía uma memória prodigiosa e narrava as histórias com grande consistência entre uma sessão e outra, o que permitia aos irmãos fixar o texto com relativa fidelidade. Outras contribuidoras importantes foram as irmãs Hassenpflug e as irmãs Wild — Dortchen Wild veio a casar com Wilhelm Grimm em 1825.
Kinder- und Hausmärchen: da tradição oral ao livro
A primeira edição de Kinder- und Hausmärchen foi publicada a 20 de Dezembro de 1812, com 86 contos. Em 1815 saiu o segundo volume, elevando o total para cerca de 170 histórias. Entre 1812 e 1857, a obra conheceu sete edições, cada uma revista e ampliada, até atingir 210 contos. A edição definitiva de 1857 é a mais conhecida e a que serve de base à maioria das traduções modernas.
As sucessivas edições reflectem mudanças deliberadas de tom e conteúdo, sobretudo da autoria de Wilhelm, que assumiu a responsabilidade editorial após as primeiras publicações. Elementos de sexualidade e violência presentes nas versões iniciais foram atenuados ou eliminados para adequar o texto a um público infantil. Por exemplo, na primeira edição de «Rapunzel», a gravidez da protagonista tornava implícita uma relação sexual com o príncipe — passagem que foi reescrita nas edições seguintes. Do mesmo modo, figuras maternas malévolas foram frequentemente substituídas por madrastas, preservando a imagem da mãe biológica.
Entre os contos mais conhecidos figuram «Cinderela» (Aschenputtel), «Branca de Neve» (Schneewittchen), «João e Maria» (Hänsel und Gretel), «O Capuchinho Vermelho» (Rotkäppchen), «A Bela Adormecida» (Dornröschen), «Rapunzel» e «O Rei Sapo» (Der Froschkönig). A obra foi traduzida para mais de 160 línguas, tornando-se um dos textos mais difundidos da história da literatura ocidental.
Contribuições linguísticas e filológicas
O legado dos irmãos Grimm estende-se muito além da literatura infantil. Jacob Grimm é considerado um dos fundadores da linguística histórica e comparativa. Na sua monumental Deutsche Grammatik («Gramática Alemã»), publicada em quatro volumes entre 1819 e 1837, descreveu sistematicamente a evolução das línguas germânicas. No segundo volume, de 1822, enunciou o princípio que ficou conhecido como Lei de Grimm (ou Primeira Mutação Consonântica Germânica): uma série de correspondências regulares entre as consoantes do indo-europeu e as das línguas germânicas, como o alemão, o inglês e o neerlandês. Esta descoberta abriu caminho à fonética histórica comparada e ao estudo rigoroso das relações entre famílias linguísticas.
Wilhelm, por sua vez, dedicou-se ao estudo das lendas heróicas alemãs medievais, publicando Die deutsche Heldensage («A Lenda Heróica Alemã») em 1829, obra que catalogou temas e personagens das tradições épicas germânicas dos séculos VI ao XVI.
Em 1838, os dois irmãos iniciaram um projecto de dimensão enciclopédica: o Deutsches Wörterbuch («Dicionário da Língua Alemã»), com o objectivo de documentar toda a história do vocabulário alemão desde o século XVI. A obra é considerada o equivalente germânico do Oxford English Dictionary. Nenhum dos irmãos viveu para a ver concluída: Wilhelm morreu em 1859 e Jacob em 1863, tendo ambos chegado apenas à letra F. O dicionário só foi terminado por equipas sucessivas de investigadores em 1960, 122 anos após o início do projecto.
Legado literário e cultural
O impacto dos irmãos Grimm na cultura ocidental opera em várias dimensões. No plano académico, a sua metodologia de recolha e comparação de contos populares inspirou investigadores em toda a Europa a documentar as tradições orais dos seus próprios países, dando origem à folclorística moderna como disciplina científica. O russo Alexandre Afanásiev, o dinamarquês Hans Christian Andersen e o português Adolfo Coelho, entre muitos outros, beberam directa ou indirectamente desta tradição.
No plano cultural de massas, o legado dos Grimm foi amplificado decisivamente no século XX pelas adaptações cinematográficas de Walt Disney. Branca de Neve e os Sete Anões (1937), A Bela Adormecida (1959) e Cinderela (1950) basearam-se directamente nos contos dos Grimm, introduzindo-os no imaginário global de gerações inteiras. Séries televisivas, musicais, romances gráficos e videojogos continuam a reinterpretar os seus contos na actualidade.
A Casa natal dos Grimm em Hanau e o Museu dos Irmãos Grimm em Kassel são hoje destinos de referência para investigadores e turistas. Em 2026, a Utah State University inaugurou o Brothers Grimm Haus of North America (25 de Março de 2026), um centro dedicado ao estudo académico dos contos de fadas e ao envolvimento universitário com a herança dos Grimm, o que atesta a vitalidade contínua do seu legado no mundo anglófono.
Os contos dos Grimm são também objecto de análise psicanalítica e antropológica: autores como Bruno Bettelheim, em A Psicanálise dos Contos de Fadas (1976), argumentaram que as narrativas funcionam como instrumentos de elaboração simbólica de medos e conflitos na infância. Mais recentemente, investigadores como Jack Zipes têm estudado o modo como as sucessivas edições e adaptações dos contos reflectem transformações nos valores sociais e nas concepções de infância, género e violência ao longo dos séculos.
Perguntas frequentes
Quantos contos recolheram os irmãos Grimm?
A colectânea Kinder- und Hausmärchen cresceu de 86 contos na primeira edição (1812) até 210 na sétima e última edição (1857). Ao longo das décadas, Wilhelm Grimm foi revendo e reescrevendo os textos, suavizando elementos violentos ou sexuais para adequar o conjunto a um público mais jovem.
Os contos dos Grimm são originalmente histórias para crianças?
Não. A primeira edição foi concebida como um documento de investigação folclórica, não como literatura infantil. Muitos contos originais continham violência e temas adultos. A transformação em literatura para crianças foi progressiva, resultado das revisões editoriais de Wilhelm nas edições seguintes à de 1812.
O que é a Lei de Grimm?
A Lei de Grimm, enunciada por Jacob Grimm em 1822, descreve um conjunto de mutações consonânticas sistemáticas que distinguem as línguas germânicas (como o alemão, o inglês ou o neerlandês) das restantes línguas indo-europeias. É um marco fundador da linguística histórica e comparativa.
Os irmãos Grimm inventaram os contos que publicaram?
Não. Os Grimm apresentaram-se como recolhedores da tradição oral popular, não como criadores. Contudo, a investigação posterior mostrou que muitos dos seus informantes pertenciam à classe média e que Wilhelm introduziu alterações literárias significativas ao longo das edições, aproximando os contos de uma autoria mais elaborada do que a de simples transcrição.
Qual é o conto mais conhecido dos irmãos Grimm?
É difícil eleger um único conto, mas «Branca de Neve», «Cinderela», «João e Maria» e «O Capuchinho Vermelho» são os mais amplamente reconhecidos a nível mundial, em grande medida devido às adaptações cinematográficas de Walt Disney no século XX.