Seul é mesmo a capital da alta tecnologia na Coreia do Sul?
Seul concentra uma proporção rara de fatores que, em conjunto, fazem dela a capital indiscutível da cultura high-tech sul-coreana: sedes das maiores empresas tecnológicas do país, a maior densidade de capital de risco da região, infraestruturas digitais de referência mundial e um ecossistema de startups classificado entre os dez melhores do planeta. A questão não é tanto se Seul merece esse estatuto — os dados confirmam-no — mas como chegou lá e o que está em jogo a partir de 2026.
Uma cidade classificada entre os maiores pólos de inovação do mundo
No índice de inovação da OMPI (Global Innovation Index) de 2025, o aglomerado urbano de Seul figura em quinto lugar mundial entre os maiores clusters de inovação, atrás apenas de Shenzhen–Hong Kong–Guangzhou, Tóquio–Yokohama, San Jose–São Francisco e Pequim. A cidade é responsável por mais de 5% dos pedidos de patente PCT a nível mundial, cerca de 3% das operações globais de capital de risco e quase 2% das publicações científicas globais — uma combinação que poucos centros urbanos conseguem replicar.
O ecossistema de startups de Seul ocupa o oitavo lugar global segundo o Startup Genome, superando Singapura e Tóquio. Estima-se que cerca de 80% das oportunidades de financiamento, dos eventos de networking e dos salários mais elevados do setor tecnológico sul-coreano estejam concentrados na grande área metropolitana da capital.
Os grandes pólos high-tech de Seul e arredores
O território tecnológico de Seul não é homogéneo: distribui-se por vários distritos com perfis distintos.
Gangnam e Seocho
O distrito de Gangnam, popularizado internacionalmente pela cultura K-pop, é simultaneamente o principal centro financeiro e tecnológico da cidade. Em 2026, concentra a maior densidade de startups em fase de Série A ou posteriores, bem como a esmagadora maioria das firmas de capital de risco sul-coreanas. Para uma empresa em crescimento acelerado, Gangnam é a escolha lógica de localização.
Pangyo Techno Valley
A cerca de 20 quilómetros a sul de Seul, no município de Seongnam, o Pangyo Techno Valley é frequentemente apelidado de «Silicon Valley coreano». O complexo, com uma área de aproximadamente 661 000 m², aloja mais de 1 300 empresas tecnológicas, entre as quais a KRAFTON, a Kakao Games e subsidiárias da Samsung, LG e SK Telecom. A faturação anual gerada pelo conjunto ultrapassa os 90 mil milhões de dólares. O foco incide sobre tecnologia de informação, biotecnologia, tecnologias culturais e tecnologia de fusão. Apesar de tecnicamente situar-se fora dos limites administrativos de Seul, Pangyo é funcionalmente inseparável do ecossistema da capital.
Mapo-gu e o Digital Media City
O bairro de Mapo-gu, que integra o Digital Media City e as zonas criativas em torno de Hongdae, é o polo das indústrias de conteúdos digitais, produção audiovisual e design tecnológico. É aqui que convergem muitas das empresas ligadas ao K-pop, aos webtoons e às plataformas de streaming de origem sul-coreana.
As grandes empresas que definem o tecido tecnológico
A presença de multinacionais de dimensão global é um dos pilares que sustenta a liderança tecnológica de Seul. A Samsung Electronics, com sede em Suwon mas com escritórios e centros de I&D maioritariamente na grande área de Seul, é o maior fabricante mundial de semicondutores e de ecrãs OLED. A LG Electronics e a SK Hynix completam o triunvirato dos gigantes de hardware. No segmento de software e plataformas digitais, destacam-se a Kakao (aplicações de mensagens, pagamentos e conteúdos digitais) e a Naver (motor de pesquisa, inteligência artificial e comércio eletrónico). O Grupo Hyundai, com a sua divisão de mobilidade e robótica, apresentou a sua estratégia de Physical AI na CES 2026, sinalizando uma aposta estrutural na convergência entre robótica e inteligência artificial.
A aposta em inteligência artificial e robótica
Em 2026, o município de Seul está a executar um conjunto de projetos de grande escala nesta área. O Seoul AI Tech City representa um investimento de aproximadamente 642 milhões de dólares com o objetivo de formar mais de 10 000 profissionais de inteligência artificial. Em paralelo, o AI Transformation Fund, com dotação de 370 milhões de dólares, financia projetos de aplicação de IA em setores como a saúde, a mobilidade e a administração pública. A startup de semicondutores de IA Furiosa AI captou 125 milhões de dólares numa ronda Série C em 2025, enquanto a empresa de otimização por IA Nota entrou em bolsa no KOSDAQ com uma capitalização de mercado de 511 milhões de dólares.
Na robótica, o município apoia o Suseo Robot Cluster com 200 milhões de dólares e desenvolve o denominado Physical AI Connect Belt, uma rede de infraestruturas destinada a integrar robôs colaborativos em contextos urbanos e industriais. Na CES 2026, as empresas de Seul arrecadaram 27 prémios de inovação, reforçando a presença sul-coreana nos palcos internacionais da tecnologia.
Cultura digital: esports, K-pop e vida urbana conectada
A dimensão high-tech de Seul não se limita à indústria ou à investigação: está incorporada na vida quotidiana e na cultura popular. A Coreia do Sul foi o primeiro país do mundo a lançar uma rede 5G de cobertura nacional, em 2019, e Seul dispõe de ligações à internet entre as mais rápidas e acessíveis do mundo, com cobertura gratuita em grande parte dos espaços públicos.
Os esports têm na Coreia do Sul uma das suas origens institucionais: os primeiros World Cyber Games realizaram-se em Seul, em outubro de 2000. O país mantém desde então uma posição dominante nas competições mundiais, e Seul alberga alguns dos principais estádios dedicados aos desportos eletrónicos. A indústria de videojogos é uma das exportações culturais mais relevantes do país.
O fenómeno do K-pop, gerido a partir de grandes empresas de entretenimento tecnológico sediadas em Seul como a HYBE, a SM Entertainment e a YG Entertainment, integra hoje estratégias sofisticadas de dados, inteligência artificial e plataformas digitais para gerir fanbases globais e produzir conteúdos. A intersecção entre tecnologia e cultura de massas é, neste contexto, uma das especificidades mais marcantes do modelo seulense.
Desafios e descentralização em curso
A concentração extrema de recursos tecnológicos em Seul é também alvo de crítica interna. Em junho de 2026, o governo sul-coreano anunciou um plano para transformar universidades regionais em pólos tecnológicos, reconhecendo que a hiperconcentração na capital cria assimetrias económicas regionais. Pangyo, por sua vez, enfrenta pressão competitiva de Gangnam, onde cada vez mais startups em fases iniciais preferem instalar-se pela proximidade ao capital de risco. O ecossistema está, portanto, em reconfiguração interna, mas sem que o eixo Seul–Pangyo perca a sua posição dominante no horizonte imediato.
Perguntas frequentes
Seul é oficialmente considerada a cidade mais tecnológica do mundo?
Seul figura consistentemente entre as cidades mais avançadas em tecnologia a nível global. No índice de inovação da OMPI de 2025, o seu cluster ocupa o quinto lugar mundial. Diversas classificações independentes reconhecem-na como uma das cidades com maior penetração de internet de alta velocidade e com ecossistema de startups no top 10 global.
O que é o Pangyo Techno Valley e qual a sua relação com Seul?
O Pangyo Techno Valley é um complexo tecnológico situado em Seongnam, a cerca de 20 km de Seul, frequentemente descrito como o «Silicon Valley coreano». Aloja mais de 1 300 empresas de tecnologia e gera mais de 90 mil milhões de dólares em faturação anual. Embora administrativamente externo a Seul, integra funcionalmente o ecossistema tecnológico da capital.
Quais são as principais empresas tecnológicas sediadas em Seul?
Samsung Electronics, LG Electronics, SK Hynix, Kakao, Naver, Hyundai Motor Group e KRAFTON são algumas das maiores empresas tecnológicas com presença dominante na grande área metropolitana de Seul. Cada uma atua em segmentos distintos, desde semicondutores e robótica até plataformas digitais e videojogos.
Qual é o papel de Seul nos esports a nível mundial?
A Coreia do Sul é um dos países fundadores dos esports competitivos organizados, tendo acolhido os primeiros World Cyber Games em Seul no ano 2000. Seul possui estádios dedicados a competições de desportos eletrónicos e as suas equipas e jogadores mantêm uma presença dominante nas principais competições internacionais.
O investimento em inteligência artificial em Seul é significativo?
Em 2026, o município de Seul gere um conjunto de iniciativas de grande escala em IA, incluindo o Seoul AI Tech City (642 milhões de dólares) e o AI Transformation Fund (370 milhões de dólares). O objetivo declarado é formar mais de 10 000 profissionais de inteligência artificial e atrair empresas de IA de referência internacional.