História da Coreia do Sul: das origens à atualidade
A República da Coreia, conhecida internacionalmente como Coreia do Sul, é um Estado situado na metade meridional da Península Coreana, na Ásia Oriental. Com uma superfície de cerca de 100 000 km² e uma população próxima dos 52 milhões de habitantes, o país percorreu um trajeto singular: de território ancestral de civilizações milenares a colónia japonesa, de nação destruída pela guerra a uma das maiores economias do mundo, e de regime autoritário a democracia consolidada — tudo no espaço de poucas décadas. Em 2026, a Coreia do Sul continua a ser objeto de atenção global, tanto pelo seu dinamismo económico e cultural como pelos recentes acontecimentos políticos internos.
Origens e antigas civilizações
Os vestígios humanos mais antigos encontrados na Península Coreana remontam a cerca de 500 000 anos. Segundo a tradição mítica, o reino de Gojoseon foi fundado em 2333 a.C. por Dangun, um ser de origem divina, filho do deus do céu e de uma ursa transformada em mulher. Embora a arqueologia não confirme esta data, as evidências históricas apontam para a existência de entidades políticas organizadas na Coreia a partir do século XI a.C., durante a Idade do Bronze, com a emergência de chefias e cidades muradas.
O contacto com a China foi determinante para o desenvolvimento cultural e político da região, introduzindo a escrita, o budismo e o confucionismo, elementos que moldaram profundamente a identidade coreana.
Os Três Reinos e as grandes dinastias
Entre o século I a.C. e o século VII d.C., a Península Coreana foi dominada por três reinos rivais: Goguryeo (ao norte), Baekje (a sudoeste) e Silla (a sudeste). Este período, conhecido como os Três Reinos, foi marcado por conflitos constantes mas também por um florescimento artístico, religioso e administrativo. Em 668 d.C., Silla unificou a península com apoio da dinastia Tang chinesa, inaugurando um período de prosperidade.
Em 918, o general Wang Geon fundou o reino de Goryeo — do qual deriva a palavra "Coreia" nas línguas ocidentais —, que adotou o budismo como religião de Estado e desenvolveu um sofisticado sistema de exames para o funcionalismo público. Em 1392, o general Yi Seong-gye derrubou Goryeo e fundou a Dinastia Joseon, que governaria a península por mais de cinco séculos. Sob Joseon, o neoconfucionismo substituiu o budismo como filosofia de Estado, estabelecendo uma rígida hierarquia social. Um dos legados mais duradouros desta dinastia foi a criação, em 1443, do hangul pelo rei Sejong, o Grande: um alfabeto fonético concebido especificamente para a língua coreana, que revolucionou a literacia ao tornar a escrita acessível a toda a população.
A colonização japonesa (1910–1945)
A partir do final do século XIX, a Coreia tornou-se palco das rivalidades imperialistas entre o Japão, a China e a Rússia. Após derrotar estas potências nas guerras sino-japonesa (1894–1895) e russo-japonesa (1904–1905), o Japão impôs um protetorado sobre a Coreia em 1905 e procedeu à sua anexação formal em 1910. Os 35 anos de colonização foram marcados pela exploração económica, pela supressão da cultura e língua coreanas e pelo recrutamento forçado de trabalhadores e mulheres para servir o esforço de guerra japonês. A resistência coreana manifestou-se em vários momentos, nomeadamente no Movimento de 1 de Março de 1919, uma série de protestos pacíficos em prol da independência, violentamente reprimidos pelo colonizador.
A divisão da península e a Guerra da Coreia
Com a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945, a Coreia foi libertada — mas não unificada. As potências vencedoras dividiram o território ao longo do paralelo 38: o Norte ficou sob influência soviética e o Sul sob administração norte-americana. Em 1948, foram proclamados dois Estados separados: a República da Coreia (Coreia do Sul), de orientação capitalista, e a República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte), de regime comunista.
Em junho de 1950, as forças norte-coreanas invadiram o Sul, desencadeando a Guerra da Coreia (1950–1953), um dos conflitos mais devastadores da Guerra Fria. Uma coligação liderada pelos Estados Unidos sob a bandeira das Nações Unidas interveio em defesa do Sul, enquanto a China apoiou o Norte. O armistício, assinado em julho de 1953, não pôs formalmente fim à guerra — que tecnicamente se mantém até hoje —, mas estabilizou a fronteira próxima do paralelo 38. O conflito causou cerca de dois a quatro milhões de mortos e deixou o país em ruínas.
As ditaduras militares e o milagre económico
Nas décadas seguintes, a Coreia do Sul foi governada por regimes autoritários. O presidente Syngman Rhee, que exerceu o poder desde a fundação do Estado até 1960, foi derrubado por um levantamento estudantil. Em 1961, o general Park Chung-hee tomou o poder através de um golpe de Estado e governou o país com mão de ferro até ao seu assassinato em 1979. Apesar da repressão política, o seu governo lançou as bases de uma industrialização acelerada através de planos económicos estatais e do apoio a grandes conglomerados industriais — os chaebol —, como a Samsung, a Hyundai e a LG.
Este processo ficou conhecido como o "Milagre do Rio Han": entre as décadas de 1960 e 1990, o produto interno bruto per capita sul-coreano passou de cerca de 80 dólares para mais de 10 000 dólares, tornando o país um dos casos mais citados de desenvolvimento económico acelerado na história contemporânea. A Coreia do Sul foi admitida na Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico (OCDE) em 1996 e acolheu os Jogos Olímpicos de Seul em 1988.
A democratização
A transição para a democracia foi impulsionada por décadas de mobilização cívica e estudantil. Em 1980, o general Chun Doo-hwan assumiu o poder e ordenou a violenta repressão do levantamento de Gwangju, que causou centenas de mortos. Porém, em 1987, a pressão popular obrigou o regime a aceitar eleições presidenciais diretas e uma nova Constituição. Esse ano marcou o início da transição democrática efectiva, consolidada com a realização das Olimpíadas de 1988, que projetaram internacionalmente a imagem do país.
Desde então, a Coreia do Sul tem realizado eleições regulares e presenciado alternâncias pacíficas de poder entre conservadores e progressistas. Em 1997, o país foi fortemente atingido pela crise financeira asiática, tendo recorrido ao Fundo Monetário Internacional, mas recuperou rapidamente.
A Coreia do Sul no século XXI
Nas primeiras décadas do século XXI, a Coreia do Sul consolidou-se como uma potência tecnológica e cultural de primeira linha. O fenómeno do Hallyu, ou "onda coreana", disseminou pelo mundo a música pop (K-pop), o cinema, as séries televisivas e a gastronomia coreanas. Em 2020, o filme Parasita, de Bong Joon-ho, tornou-se o primeiro filme não anglófono a ganhar o Óscar de Melhor Filme. No plano tecnológico, empresas como a Samsung e a SK Hynix posicionaram o país como um dos principais produtores mundiais de semicondutores.
Crise constitucional e atualidade (2024–2026)
Em dezembro de 2024, o presidente conservador Yoon Suk-yeol desencadeou uma grave crise institucional ao declarar unilateralmente a lei marcial, mobilizando forças militares e policiais numa tentativa de controlar o parlamento e prender adversários políticos. A Assembleia Nacional votou a revogação da lei marcial poucas horas depois, e Yoon foi submetido a processo de destituição. Em fevereiro de 2026, foi declarado culpado de insurreição pelo tribunal competente e condenado a prisão perpétua, escapando à pena de morte que a acusação havia solicitado.
Na sequência destes acontecimentos, foi convocada uma eleição presidencial antecipada. Em junho de 2025, Lee Jae-myung, líder do Partido Democrático e figura central no processo de impeachment de Yoon, venceu o escrutínio com 49,4% dos votos, sendo empossado a 4 de junho de 2025. Em 2026, Lee tem registado índices de aprovação próximos dos 70%, encetou aproximações diplomáticas ao Japão — visitando-o em agosto de 2025, o que não sucedia desde 1965 — e ao China, reforçando o papel da Coreia do Sul como ator de peso na geopolítica da Ásia Oriental.
Perguntas frequentes
Quando foi fundada a Coreia do Sul?
A República da Coreia foi formalmente proclamada a 15 de agosto de 1948, após a divisão da Península Coreana entre as zonas de influência norte-americana (Sul) e soviética (Norte), na sequência da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial em 1945.
O que foi a Guerra da Coreia?
A Guerra da Coreia (1950–1953) foi um conflito armado iniciado com a invasão do Sul pela Coreia do Norte. Uma coligação liderada pelos EUA, sob mandato da ONU, interveio em defesa da Coreia do Sul. O conflito terminou com um armistício em 1953, mas não com um tratado de paz formal, pelo que tecnicamente os dois países permanecem em estado de guerra.
O que é o "Milagre do Rio Han"?
É a expressão que designa o crescimento económico extraordinário da Coreia do Sul entre as décadas de 1960 e 1990, durante o qual o país passou de um dos mais pobres do mundo a uma economia industrializada e de rendimento elevado, assente em exportações industriais e no apoio estatal a grandes conglomerados denominados chaebol.
O que aconteceu com o presidente Yoon Suk-yeol?
Em dezembro de 2024, Yoon Suk-yeol declarou ilegalmente a lei marcial, tentando assumir poderes de exceção. O parlamento revogou a medida horas depois. Yoon foi destituído e, em fevereiro de 2026, um tribunal condenou-o a prisão perpétua por insurreição.
Quem é o atual presidente da Coreia do Sul?
Em 2026, o presidente da Coreia do Sul é Lee Jae-myung, do Partido Democrático, eleito em junho de 2025 numa eleição antecipada convocada após a destituição de Yoon Suk-yeol. Lee assumiu o cargo a 4 de junho de 2025.