Como as morsas comunicam debaixo de água
As morsas (Odobenus rosmarus) passam grande parte da vida em águas árticas frias e escuras, onde a visão tem um alcance limitado. Nesse ambiente, o som tornou-se o principal veículo de comunicação da espécie, permitindo que os machos exibam a sua condição física, que as fêmeas e crias mantenham contacto e que grupos inteiros coordenem comportamentos sociais sem se verem. A investigação bioacústica das últimas duas décadas, reforçada por gravações recentes obtidas com hidrofones no mar de Barents e no mar de Bering, tem revelado um repertório vocal surpreendentemente rico e estruturado, sobretudo durante a época de reprodução.
Que sons produzem as morsas debaixo de água?
O repertório subaquático das morsas inclui pelo menos cinco tipos principais de som: batidas (ou "knocks"), sinos (sons metálicos, tipo campainha), whistles (assobios), grunhidos e "strums" (uma espécie de dedilhado ou vibração). Estes elementos combinam-se em sequências longas e estereotipadas a que os investigadores chamam "canções", cada uma com uma duração de vários minutos e organizada em duas partes: uma secção subaquática, dominada pelas batidas e pelos sinos, e uma secção à superfície, em que entram os rugidos e bramidos aéreos característicos da espécie.
As batidas são produzidas por movimentos impulsivos e visíveis da região frontal da cabeça, emitidas isoladamente ou em pares e tripletos, normalmente a um ritmo de 0,8 a 1,2 batidas por segundo. Já os sons de "sino" resultam da amplificação e modulação do ar em bolsas faríngeas especializadas — estruturas semelhantes a sacos de ressonância situadas na garganta — que funcionam como caixas de ressonância naturais e permitem que o som se propague com maior alcance e intensidade na água.
Qual é a origem física destes sons tão intensos?
Um dos aspetos mais estudados recentemente é a enorme intensidade de alguns destes sinais: os pulsos de impacto associados às exibições de reprodução podem atingir níveis de fonte próximos dos 186 decibéis, com componentes de frequência que ultrapassam os 24 kHz. Estudos publicados em revistas científicas revisadas por pares mostraram que parte destes sons de impacto resulta de cavitação induzida por movimentos rápidos, semelhante ao estalido produzido por uma palmada na água — as morsas geram bolsas de vácuo que colapsam de forma abrupta, libertando energia acústica muito superior à que resultaria apenas do impacto físico.
Esta combinação de mecanismos — pressão sobre bolsas de ar, ressonância nas bolsas faríngeas e cavitação mecânica — permite que um único animal produza um espetro sonoro muito variado, sem depender exclusivamente da laringe, como acontece na maioria dos mamíferos.
Para que servem estes sons?
A função mais estudada é a exibição sexual. Durante a época de acasalamento, os machos posicionam-se junto aos locais onde as fêmeas descansam no gelo ou nas praias e cantam durante horas, muitas vezes em competição direta com machos vizinhos. A qualidade, consistência rítmica e intensidade da "canção" transmitem informação sobre a condição física do macho, servindo simultaneamente para atrair fêmeas e para dissuadir rivais sem necessidade de confronto físico direto — uma estratégia que poupa energia e reduz o risco de lesões em animais que pesam frequentemente mais de uma tonelada.
Para além do contexto reprodutivo, os sons subaquáticos e aéreos das morsas cumprem outras funções sociais:
- Manutenção do contacto entre a fêmea e a cria, sobretudo quando esta última fica temporariamente submersa ou afastada durante o mergulho;
- Sinalização de estatuto social dentro de grupos numerosos que se aglomeram em praias e placas de gelo;
- Coordenação da coesão do grupo durante deslocações e alertas perante potenciais ameaças, como a aproximação de predadores;
- Resolução de conflitos de curta distância, reduzindo a necessidade de confrontos físicos entre indivíduos.
Os sons variam consoante a estação e a idade do animal?
Sim. A produção de canções subaquáticas está fortemente ligada aos níveis sazonais de testosterona, sendo muito mais frequente e elaborada durante o período de reprodução do que no resto do ano. Além disso, há indícios de que os padrões de canção não são inteiramente inatos: estudos recentes apontam para um componente de aprendizagem por contingência, ou seja, os machos parecem ajustar e refinar as suas sequências vocais com a experiência e em resposta ao contexto social, e não apenas por instinto fixo. Isto sugere uma complexidade comportamental que os investigadores continuam a mapear através de gravações de longa duração.
Como é que os cientistas estudam estes sons?
A principal ferramenta de investigação são os hidrofones, microfones subaquáticos que registam as vocalizações com elevada fidelidade junto de locais de descanso conhecidos, como ilhas do mar de Barents ou zonas costeiras do mar de Bering. Uma campanha recente reuniu mais de 230 horas de gravações áudio subaquáticas de machos numa ilha da região sudeste do mar de Barents, permitindo identificar e catalogar todos os principais tipos de chamada — batidas, sinos, "strums", grunhidos e assobios — e analisar os seus padrões rítmicos com detalhe.
Ao cruzar estes dados com informação sobre localização, época do ano e comportamento observado, os investigadores conseguem monitorizar a saúde das populações, seguir rotas de migração e identificar zonas importantes de reprodução e alimentação, informação particularmente relevante numa espécie sensível às alterações no gelo marinho do Ártico.
As morsas também "ouvem" bem debaixo de água?
Sim. A audição subaquática é essencial para que estes sinais tenham qualquer utilidade: as morsas dependem da receção sonora tanto quanto da emissão, uma vez que a visibilidade debaixo de água no Ártico é frequentemente reduzida por turbidez, escuridão sazonal e profundidade. Os grandes bigodes sensoriais (vibrissas) complementam este sistema, ajudando a detetar presas e obstáculos por deteção de vibrações, mas é o canal acústico que garante a comunicação social e reprodutiva a distâncias que a visão não alcança.
Perguntas frequentes
Que sons fazem as morsas debaixo de água?
Produzem principalmente batidas rítmicas ("knocks"), sons metálicos semelhantes a sinos, assobios, grunhidos e vibrações designadas por "strums", combinados em longas sequências chamadas canções.
Como conseguem as morsas produzir sons tão intensos na água?
Combinam a ressonância de bolsas faríngeas especializadas na garganta com um fenómeno de cavitação, em que movimentos rápidos criam bolhas de vácuo que colapsam e libertam energia acústica, gerando sons que podem ultrapassar 180 decibéis na fonte.
Porque cantam os machos de morsa debaixo de água?
Sobretudo para exibição reprodutiva: as canções sinalizam condição física a potenciais parceiras e dissuadem machos rivais, reduzindo a necessidade de confrontos físicos diretos.
As crias de morsa comunicam da mesma forma?
As crias e as fêmeas usam vocalizações para manter contacto durante mergulhos e deslocações, embora as canções elaboradas de exibição sejam sobretudo um comportamento dos machos adultos durante a época de reprodução.
Como é que os cientistas gravam estes sons?
Recorrem a hidrofones colocados junto a locais de descanso conhecidos, obtendo centenas de horas de áudio que depois são analisadas para identificar padrões rítmicos e sazonais.