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Como Ciro o Grande conquistou Babilónia em 539 a.C.

Publicado 23. maio 2026 Atualizado 24. junho 2026

Como Ciro o Grande conquistou Babilónia em 539 a.C.

Em outubro de 539 a.C., o rei persa Ciro II, conhecido pela posteridade como Ciro o Grande, entrou na cidade de Babilónia, a maior e mais poderosa metrópole do mundo antigo, num dos episódios mais surpreendentes da história militar da Antiguidade. A conquista foi notável não pela violência, mas pela sua quase total ausência: as fontes primárias descrevem uma cidade que abriu as suas portas sem combate de monta, ao ritmo de uma transição política cuidadosamente preparada. Compreender como isso foi possível exige olhar para o estado interno do Império Neobabilónico, para a habilidade diplomática e militar de Ciro, e para os documentos arqueológicos que sobreviveram até hoje.

O Império Neobabilónico e a impopularidade de Nabónido

O Império Neobabilónico tinha atingido o seu apogeu sob Nabucodonosor II (reinado de 605 a 562 a.C.), que destruiu Jerusalém, deportou populações inteiras e ergueu os lendários jardins e muralhas que tornaram Babilónia símbolo de magnificência. No entanto, os seus sucessores revelaram-se muito menos capazes. O último rei da dinastia, Nabónido, acumulou sobre si um ódio crescente por várias razões.

Em primeiro lugar, Nabónido era devoto do deus-lua Sin, em detrimento de Marduk, a divindade tutelar de Babilónia, cujo clero constituía uma das forças políticas mais influentes do império. Ao relegar o culto de Marduk, Nabónido alienou o poderoso sacerdócio do templo de Esagila. Em segundo lugar, o rei ausentou-se da capital durante cerca de dez anos, retirando-se para o oásis de Tayma, na Arábia, onde se dedicou a cultos estrangeiros, deixando o seu filho Belsazar a governar como regente em Babilónia. Esta ausência prolongada interrompeu o festival do Ano Novo — a cerimónia mais sagrada do calendário babilónico — privando o povo e o clero do ritual que legitimava a realeza. Quando Ciro se apresentou à fronteira do império, encontrou um Estado profundamente dividido e cujas elites religiosas e civis se mostravam dispostas a aceitar um novo senhor.

A campanha militar: da Batalha de Opis à queda de Sippar

No outono de 539 a.C., Ciro lançou a ofensiva decisiva. O exército persa avançou pela Mesopotâmia acima e confrontou as forças babilónicas junto à cidade de Opis, no Tigre, onde o rio Diyala confluía com o grande curso de água. Opis era também um dos extremos da Muralha Média, uma vasta linha defensiva que Nabucodonosor II havia mandado construir décadas antes para proteger a abordagem norte de Babilónia.

A Batalha de Opis, travada em setembro ou início de outubro de 539 a.C., terminou com a derrota completa do exército neobabilónico. A Crónica de Nabónido, uma das fontes cuneiformes mais fidedignas para este período, regista que Ciro «fez uma chacina» no campo inimigo. O controlo de Opis abriu o caminho para sul, desfazendo praticamente a utilidade da Muralha Média.

Poucos dias depois, em 10 de outubro, a cidade de Sippar — centro religioso importante e segunda maior cidade do império — rendeu-se sem resistência. O general persa Gubaru (conhecido em grego como Góbrias), um antigo governador babilónico que havia desertado para Ciro e se tornou um dos seus principais comandantes, avançou de imediato para sul.

A entrada em Babilónia: sem batalha

No dia 12 de outubro de 539 a.C. — correspondente ao 29.º dia do mês babilónico de Tashritu —, Gubaru e as suas tropas entraram em Babilónia sem combate. A Crónica de Nabónido afirma explicitamente que a cidade foi tomada «sem batalha». Nabónido, que se encontrava fora da capital, foi capturado pouco depois e exilado.

Como foi possível? Os historiadores apontam uma confluência de fatores: a derrota em Opis destruiu o moral do exército; o clero de Marduk, que odiava Nabónido, não ofereceu resistência; e parte da população via em Ciro um libertador. O próprio Ciro soube explorar habilmente esta disposição, apresentando-se não como conquistador estrangeiro, mas como o escolhido do deus Marduk para restaurar a ordem legítima.

O historiador grego Heródoto, escrevendo cerca de um século depois, propõe uma versão diferente: segundo ele, Ciro mandou desviar as águas do Eufrates para montante, fazendo baixar o nível do rio dentro da cidade, e as suas tropas entraram pelo leito seco sob as muralhas enquanto os habitantes festejavam. Xenofonte, noutra fonte grega, acrescenta detalhes de um cerco prolongado. Os historiadores modernos tendem a dar mais crédito às fontes cuneiformes contemporâneas — a Crónica de Nabónido e o Cilindro de Ciro —, que apontam para uma rendição negociada ou uma capitulação súbita após o colapso militar em Opis, sem operações de cerco significativas.

A chegada de Ciro e a legitimação do poder

O próprio Ciro só chegou a Babilónia a 28 ou 29 de outubro, mais de duas semanas depois da entrada das suas vanguardas. A transição foi cuidadosamente encenada segundo os rituais babilónicos: Ciro apresentou-se como o novo rei legítimo, ordenou o respeito pelos templos e tradições locais, e tratou a população civil com clemência notável para os padrões da época.

Gubaru foi nomeado governador da província da Babilónia, função que exerceu em nome do rei persa, garantindo a continuidade administrativa do território.

O Cilindro de Ciro

O documento mais famoso associado à conquista é o Cilindro de Ciro, um objeto de argila cilíndrico com uma inscrição em escrita cuneiforme acadiana, descoberto em 1879 pelo arqueólogo assírio-britânico Hormuzd Rassam durante escavações no templo de Marduk em Babilónia. O cilindro encontra-se hoje no Museu Britânico, em Londres.

O texto descreve Ciro como o escolhido de Marduk para libertar os babilónios do «governante ímpio» Nabónido. Proclama que Ciro restaurou os cultos tradicionais, devolveu estátuas de deuses aos seus templos de origem, e libertou as populações deportadas, permitindo-lhes regressar às suas terras. Foi precisamente neste contexto que os Judeus exilados desde a deportação de Nabucodonosor II obtiveram autorização para regressar à Judeia e reconstruir o Templo de Jerusalém — episódio registado nos livros bíblicos de Esdras e Crónicas.

Alguns historiadores e organismos internacionais, como a ONU, referiram o Cilindro de Ciro como um precursor da ideia moderna de direitos humanos, embora esta interpretação seja debatida na academia: o documento seguia um formato retórico convencional da propaganda real mesopotâmica, e não deve ser lido anacronicamente como uma declaração de princípios universais.

Consequências históricas

A queda de Babilónia marcou o fim do Império Neobabilónico (626–539 a.C.) e a incorporação da Mesopotâmia no Império Aquemênida persa, que sob Ciro e os seus sucessores se tornou o maior império que o mundo havia visto até então, estendendo-se do mar Egeu à Índia e do Cáucaso ao Egito. Ciro morreu em 530 a.C., em campanha na Ásia Central, mas a estrutura imperial que criou perdurou até à conquista de Alexandre Magno, em 330 a.C.

A conquista de Babilónia em 539 a.C. é também um caso de estudo em estratégia política: Ciro percebeu que a força militar, por si só, não basta para manter um território vasto e culturalmente diverso. A sua política de respeito pelas religiões e costumes locais — uma abordagem radicalmente diferente da dos assírios ou dos primeiros babilónios — tornou-se o modelo de governação do Império Persa durante dois séculos.

Perguntas frequentes

Como é que Ciro o Grande entrou em Babilónia sem batalha?

As fontes cuneiformes contemporâneas, como a Crónica de Nabónido, indicam que Babilónia capitulou após a derrota militar em Opis e a rendição de Sippar. O clero de Marduk, hostil ao rei Nabónido, não resistiu e parte da população acolheu os persas como libertadores. O general persa Gubaru entrou na cidade a 12 de outubro de 539 a.C. sem encontrar resistência organizada.

É verdade que Ciro desviou o rio Eufrates para entrar em Babilónia?

Essa versão foi registada por Heródoto e Xenofonte, mas as fontes babilónicas contemporâneas não a corroboram. A historiografia moderna tende a privilegiar a Crónica de Nabónido, que descreve uma rendição sem batalha, interpretando o relato grego como uma lenda posterior ou uma confusão com outras operações militares.

O que é o Cilindro de Ciro e onde está hoje?

É um cilindro de argila com inscrição cuneiforme em acadiano, criado depois da conquista de Babilónia em 539 a.C. Descreve Ciro como o escolhido do deus Marduk e proclama a restauração de cultos e a libertação de povos deportados. Foi descoberto em 1879 por Hormuzd Rassam e encontra-se atualmente no Museu Britânico, em Londres.

Por que razão Nabónido era tão impopular em Babilónia?

Nabónido promoveu o culto do deus-lua Sin em detrimento de Marduk, a divindade tutelar de Babilónia, alienando o poderoso sacerdócio do templo de Esagila. Além disso, ausentou-se da capital durante cerca de dez anos, retirando-se para Tayma, na Arábia, o que interrompeu os festivais religiosos anuais que legitimavam a realeza babilónica.

Qual a ligação entre a conquista de Babilónia e o regresso dos Judeus a Jerusalém?

Após tomar Babilónia, Ciro emitiu um decreto — registado no Cilindro de Ciro e nos livros bíblicos de Esdras e Crónicas — que autorizava os povos deportados pelos babilónios a regressar às suas terras de origem. Os Judeus, exilados desde as campanhas de Nabucodonosor II, obtiveram assim permissão para regressar à Judeia e reconstruir o Templo de Jerusalém.

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