Como são desenvolvidas as vacinas: o processo passo a passo
O desenvolvimento de uma vacina é um dos processos mais longos, dispendiosos e rigorosos da investigação biomédica. Desde a identificação de um agente patogénico até à autorização para utilização em massa, podem decorrer entre 10 e 15 anos de trabalho, embora a pandemia de COVID-19 tenha demonstrado que, com financiamento concentrado e plataformas tecnológicas adequadas, esse prazo pode ser comprimido para pouco mais de um ano sem sacrificar as etapas essenciais de segurança. Este artigo descreve, fase a fase, como nasce uma vacina, quem a avalia e o que mudou em 2026 no panorama da imunização.
A fase exploratória e pré-clínica
Tudo começa em laboratório. Na fase exploratória, os investigadores estudam o microrganismo — vírus, bactéria ou parasita — para identificar os antigénios capazes de desencadear uma resposta imunitária protetora. Um antigénio é a parte do agente patogénico que o sistema imunitário reconhece, podendo ser uma proteína da superfície do vírus, um fragmento inativado ou, mais recentemente, as instruções genéticas para que o próprio organismo a produza.
Segue-se a fase pré-clínica, em que os candidatos a vacina são testados em cultura celular e em modelos animais. O objetivo é avaliar se a formulação é segura e se induz imunidade, além de estimar as doses iniciais para os ensaios humanos. A grande maioria dos candidatos é abandonada nesta etapa, por não gerar resposta suficiente ou por revelar toxicidade. Só uma pequena fração avança para testes em pessoas.
Os ensaios clínicos: três fases sucessivas
Quando há indícios sólidos de segurança e eficácia potencial, o fabricante submete um pedido às autoridades regulamentares para iniciar ensaios em seres humanos. Estes organizam-se classicamente em três fases de complexidade crescente.
Fase I
Os primeiros ensaios envolvem um grupo reduzido de voluntários adultos saudáveis, habitualmente entre 20 e 100 pessoas. O propósito principal é avaliar a segurança da vacina e a sua capacidade de induzir uma resposta imunitária (imunogenicidade), além de determinar a dose adequada e a via de administração preferível. É nesta fase que se identificam os efeitos secundários mais frequentes e imediatos.
Fase II
O candidato é depois testado em centenas de participantes, num grupo mais numeroso e diversificado, que pode incluir pessoas de diferentes idades ou com condições de saúde representativas da população-alvo. Mantém-se a vigilância da segurança e da imunogenicidade, afinam-se as doses e os intervalos entre administrações, e começa a desenhar-se o esquema de vacinação definitivo.
Fase III
É a etapa decisiva. Milhares — frequentemente dezenas de milhares — de voluntários são distribuídos aleatoriamente para receber a vacina ou um placebo, sem que participantes nem investigadores saibam a que grupo cada pessoa pertence (ensaio em dupla ocultação). Comparando a incidência da doença entre os dois grupos, mede-se a eficácia real em condições próximas das da vida quotidiana e detetam-se efeitos adversos raros que escapariam a amostras menores. Só com dados sólidos de Fase III se justifica um pedido de autorização.
Avaliação regulamentar e autorização
Concluídos os ensaios, o fabricante compila todos os dados num dossiê de pedido de Autorização de Introdução no Mercado. Na União Europeia, as vacinas — por recorrerem a tecnologias biológicas e emergentes — são avaliadas a nível central pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA), cujos comités científicos analisam a qualidade, a segurança e a eficácia. Em Portugal, o INFARMED participa ativamente nesta avaliação através de peritos nacionais que integram os comités da agência.
Em situações de emergência de saúde pública, a EMA pode recorrer à chamada rolling review (avaliação contínua), analisando os dados à medida que vão sendo gerados, em vez de esperar pelo dossiê completo. Foi este mecanismo que permitiu acelerar a aprovação das vacinas contra a COVID-19 sem suprimir nenhuma fase de análise. A autorização final só é concedida quando os benefícios superam claramente os riscos.
Fase IV: vigilância depois da aprovação
A aprovação não encerra o processo. Após a vacina chegar ao mercado, mantém-se a fase IV, ou farmacovigilância, em que se monitoriza continuamente a segurança em milhões de utilizadores. Estes estudos pós-comercialização permitem detetar efeitos adversos muito raros, confirmar a duração da proteção e avaliar o desempenho em subgrupos específicos. Na Europa, esta vigilância é assegurada pelo sistema de farmacovigilância da UE, em articulação com as autoridades nacionais e os próprios fabricantes.
As plataformas tecnológicas
A forma como uma vacina é produzida depende da sua plataforma. As abordagens clássicas incluem os vírus vivos atenuados (enfraquecidos), os vírus inativados, as vacinas de subunidades proteicas e as de vetores virais. A grande novidade da última década foi a consolidação das vacinas de ARN mensageiro (ARNm), que fornecem ao organismo as instruções genéticas para produzir um antigénio, dispensando o cultivo do agente patogénico.
A principal vantagem do ARNm é a rapidez: uma vez conhecida a sequência genética do alvo, é possível conceber um candidato em poucas semanas. Em 2026 existem já quatro vacinas de ARNm autorizadas pela agência reguladora norte-americana — três contra a COVID-19 e uma contra o vírus sincicial respiratório (o mRESVIA da Moderna, primeira vacina de ARNm aprovada para adultos com 60 ou mais anos, em 2025). A plataforma está a expandir-se para a gripe, com uma vacina de ARNm da Pfizer em ensaio de Fase III, e está a ser investigada contra a raiva, o vírus Nipah, a chikungunya e o herpes, entre outros.
O panorama em 2026
O ano de 2026 perfila-se como particularmente fértil. Avança o desenvolvimento de uma vacina contra a tuberculose, com a candidata M72/AS01E como líder de um conjunto de mais de 20 candidatos em ensaios clínicos; estima-se que a vacinação de rotina de adolescentes possa evitar centenas de milhares de mortes até 2040. Na malária, a expansão das campanhas em África deverá exigir dezenas de milhões de doses anuais. Está também prevista para 2026 a fase de ensaios de uma plataforma de vacina universal contra a gripe, anunciada pelas autoridades de saúde dos Estados Unidos, e prosseguem ensaios de Fase I para uma vacina contra o VIH, como o IAVI G004, focados em induzir anticorpos amplamente protetores. A inteligência artificial e a conceção assistida por computador começam, por sua vez, a encurtar a fase exploratória, ajudando a identificar antigénios promissores com maior rapidez.
Perguntas frequentes
Quanto tempo demora a desenvolver uma vacina?
Tradicionalmente, entre 10 e 15 anos, desde a investigação inicial até à autorização. Com plataformas como o ARNm e financiamento de emergência, esse prazo pode reduzir-se a cerca de um ano, como aconteceu com as vacinas contra a COVID-19, sem que qualquer etapa de avaliação de segurança seja omitida.
Porque é que algumas vacinas foram aprovadas tão depressa?
A rapidez resultou da sobreposição de etapas habitualmente sequenciais, do financiamento maciço, de plataformas tecnológicas já estudadas e do mecanismo de avaliação contínua (rolling review) da EMA. As fases dos ensaios clínicos foram cumpridas; o que mudou foi a logística e os recursos, não o rigor.
O que distingue uma vacina de ARNm das tradicionais?
As vacinas de ARNm fornecem ao organismo as instruções genéticas para produzir o antigénio, em vez de o introduzirem diretamente. Isto dispensa o cultivo do agente patogénico e permite conceber candidatos em semanas, facilitando a adaptação rápida a novas variantes.
As vacinas continuam a ser vigiadas depois de aprovadas?
Sim. A fase IV, ou farmacovigilância, monitoriza continuamente a segurança em milhões de utilizadores, permitindo detetar efeitos adversos muito raros e confirmar a duração da proteção. Na Europa, esta vigilância é coordenada pela EMA e pelas autoridades nacionais, como o INFARMED.