Tsunamis: como surgem e quais as suas principais causas
Um tsunâmi é uma série de ondas de grandes dimensões gerada pelo deslocamento brusco e massivo de água, geralmente nos oceanos. Ao contrário das ondas habituais, formadas pela acção do vento sobre a superfície, um tsunâmi envolve a totalidade da coluna de água — do fundo à superfície —, o que lhe confere uma energia extraordinária e uma capacidade destrutiva sem paralelo. A palavra é de origem japonesa (tsu, "porto", e nami, "onda"), reflectindo a experiência milenar do arquipélago nipónico com este fenómeno natural.
Como se forma um tsunâmi
O mecanismo fundamental por detrás de um tsunâmi é o deslocamento vertical súbito de uma grande massa de água. Quando o fundo oceânico sobe ou desce abruptamente — em resultado de um sismo, de uma erupção vulcânica ou de um deslizamento submarino —, a coluna de água sobrejacente é empurrada para cima ou puxada para baixo. Este movimento propaga-se em todas as direcções sob a forma de ondas concêntricas, de modo semelhante às ondulações criadas quando uma pedra cai numa superfície calma de água, mas a uma escala incomparavelmente maior.
Em águas profundas, as ondas de um tsunâmi podem ter comprimentos de onda superiores a 500 quilómetros e alturas inferiores a um metro, tornando-as praticamente imperceptíveis à superfície. No entanto, deslocam-se a velocidades entre 800 e 900 quilómetros por hora — comparáveis à velocidade de cruzeiro de um avião de passageiros. À medida que se aproximam das zonas litorais e a profundidade diminui, as ondas abrandam, mas a sua altura aumenta drasticamente — processo designado empolamento (shoaling). É nesta fase que o tsunâmi revela toda a sua força destrutiva, podendo atingir alturas de dezenas de metros.
Principais causas
Sismos submarinos
Os sismos no fundo oceânico constituem a causa mais frequente de tsunamis. Para que um sismo origine um tsunâmi, é necessário que o epicentro se localize sob o oceano ou na proximidade da linha de costa, que a magnitude seja elevada (geralmente superior a 6,5 na escala de Richter) e que o movimento das falhas seja predominantemente vertical, deslocando efectivamente a coluna de água sobrejacente. Os sismos de subducção — aqueles em que uma placa tectónica mergulha sob outra ao longo de uma zona de falha — são os mais propícios à geração de tsunamis de grande escala. As zonas de subducção do Anel de Fogo do Pacífico concentram a esmagadora maioria dos tsunamis registados na história.
Entre os eventos mais destrutivos das últimas décadas contam-se o tsunâmi do Oceano Índico de 2004, gerado por um sismo de magnitude 9,1 ao largo de Sumatra, com mais de 220 000 mortos, e o tsunâmi de 2011 no Japão, originado por um sismo de magnitude 9,0 que desencadeou ondas de até 40 metros de altura. Mais recentemente, em Julho de 2025, um sismo de magnitude 8,8 na zona de subducção das Kurilo-Kamchatka, no Extremo Oriente russo, originou um tsunâmi com ondas que atingiram mais de 17 metros acima do nível do mar na localidade costeira de Severo-Kurilsk.
Erupções vulcânicas
As erupções vulcânicas podem gerar tsunamis por vários mecanismos: o colapso de caldeiras ou de flancos de vulcões submarinos ou costeiros, a expulsão violenta de materiais piroclásticos para o mar, ou a detonação explosiva do magma em contacto directo com a água. Um dos exemplos históricos mais conhecidos é a erupção do vulcão Krakatoa, na Indonésia, em 1883, que gerou ondas com mais de 30 metros de altura e causou mais de 36 000 mortes. Em Janeiro de 2022, a erupção submarina do vulcão Hunga Tonga-Hunga Ha'apai, no arquipélago de Tonga, gerou não só um tsunâmi convencional como também um raro tipo de onda de pressão atmosférica que se propagou globalmente.
Deslizamentos e derrocadas submarinas
Deslizamentos de grandes massas de sedimentos ou de rocha no fundo oceânico, bem como derrocadas de falésias costeiras para o mar, podem deslocar volumes de água suficientes para gerar tsunamis localizados mas de grande intensidade. Estes eventos podem ocorrer de forma independente ou ser desencadeados por um sismo. O deslizamento de Storegga, ao largo da Noruega, há cerca de 8 200 anos, é um dos maiores já documentados e terá gerado um megatsunâmi que afectou extensas áreas do Atlântico Norte.
Meteotsunamis
Uma categoria menos conhecida é a dos meteotsunamis — ondas de grande amplitude geradas não por causas geológicas, mas por perturbações atmosféricas intensas, como frentes de pressão, tempestades severas ou variações rápidas de vento. Ocorrem em dias de céu limpo e sem qualquer atividade sísmica, o que as torna difíceis de prever e traiçoeiras para as comunidades costeiras. Têm sido documentadas no Mar Mediterrâneo, no Adriático, no Mar Báltico e ao longo da costa leste dos Estados Unidos da América.
Impacto de corpos extraterrestres
O impacto de asteróides ou cometas na superfície oceânica representa uma causa teoricamente possível, ainda que extremamente rara à escala histórica humana. Simulações científicas indicam que um impacto de dimensões significativas poderia deslocar colunas de água com energia suficiente para gerar ondas de escala regional ou global. Esta hipótese é estudada no contexto da avaliação de riscos geológicos a longo prazo e da defesa planetária.
Propagação e comportamento junto à costa
A velocidade de propagação de um tsunâmi é determinada pela profundidade da água: em oceano aberto, com profundidades típicas de 4 000 metros, pode atingir os 720 quilómetros por hora. À medida que a profundidade diminui nas plataformas continentais, a onda abranda mas a sua amplitude aumenta consideravelmente — podendo multiplicar a sua altura por um factor de dez ou mais. A morfologia da linha de costa é determinante: baías estreitas, estuários e vales fluviais podem canalizar e amplificar as ondas.
Um fenómeno frequentemente mal compreendido é o recuo brusco do mar antes da chegada das primeiras ondas. Este retrocesso — que pode expor fundos marinhos por centenas de metros — corresponde à chegada da cava da onda, que precede a crista. Em vez de curiosidade, este sinal deve ser interpretado como aviso de evacuação imediata para zonas elevadas.
Sistemas de detecção e alerta
A detecção precoce de tsunamis assenta numa rede global de instrumentos complementares. Os sismógrafos identificam sismos de grande magnitude e localizam rapidamente o epicentro. As boias DART (Deep-ocean Assessment and Reporting of Tsunamis), geridas pela NOAA norte-americana, registam variações de pressão no fundo oceânico e transmitem dados em tempo real via satélite para centros de alerta, como o Pacific Tsunami Warning Center (PTWC). Marégrafos costeiros completam a rede de monitorização.
Em Março de 2026, investigadores publicaram resultados notáveis obtidos pelo satélite SWOT (Surface Water and Ocean Topography), da NASA: cerca de 70 minutos após o sismo de Kamchatka de Julho de 2025, o satélite captou imagens bidimensionais do campo de ondas do tsunâmi em mar aberto, com precisão centimétrica. As observações revelaram padrões inesperados nas ondas secundárias e uma ruptura sísmica maior do que os modelos iniciais previam, constituindo a primeira vez que se obteve uma observação directa e de alta resolução da estrutura bidimensional de um tsunâmi no oceano aberto, com importantes implicações para os modelos de avaliação de risco costeiro.
Portugal e o risco de tsunâmi
Portugal não está imune a este fenómeno. A sua posição no Atlântico, na proximidade da falha Açores-Gibraltar — zona de contacto entre as placas Euroasiática e Africana —, expõe a faixa litoral ocidental e algarvia a risco real. O sismo de Lisboa de 1 de Novembro de 1755, de magnitude estimada entre 8,5 e 9,0, gerou um tsunâmi que devastou a Baixa pombalina e atingiu as costas do Algarve, de Marrocos, das Ilhas Britânicas e do Brasil. Nos Açores, a atividade vulcânica e sísmica própria do arquipélago representa um risco adicional. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) integra o sistema de alerta do Atlântico Nordeste, coordenado pela UNESCO.
Perguntas frequentes
Qual é a principal causa dos tsunamis?
A causa mais frequente é um sismo submarino de elevada magnitude (geralmente superior a 6,5 na escala de Richter) que provoca o deslocamento vertical do fundo oceânico, empurrando ou puxando a coluna de água sobrejacente. As zonas de subducção do Anel de Fogo do Pacífico são responsáveis pela maior parte dos tsunamis registados.
Qual a diferença entre um tsunâmi e uma onda normal?
Uma onda comum é gerada pelo vento e move apenas a camada superficial da água. Um tsunâmi envolve a totalidade da coluna de água — do fundo à superfície —, transportando enormemente mais energia, e pode percorrer milhares de quilómetros a alta velocidade antes de atingir a costa com força destruidora.
É possível receber aviso antes de um tsunâmi chegar?
Após a detecção de um sismo submarino de grande magnitude, os sistemas de alerta actuais — combinando sismógrafos, boias DART e marégrafos — conseguem emitir alertas com dezenas de minutos a horas de antecedência, consoante a distância à costa. Contudo, para sismos próximos, o tempo de aviso pode ser muito reduzido, tornando o conhecimento dos sinais naturais (recuo do mar, ruído intenso) fundamental.
O recuo do mar antes de um tsunâmi é sempre um sinal de alerta?
Sim. O recuo brusco do mar, expondo o fundo marinho por dezenas ou centenas de metros, indica que a cava de uma onda de tsunâmi chegou à costa. A crista destrutiva segue-se em poucos minutos. Este fenómeno deve ser tratado como sinal de alarme imediato para abandonar a zona litoral e dirigir-se a zonas elevadas.
Portugal está em risco de sofrer um tsunâmi?
Sim. A proximidade da falha Açores-Gibraltar e o historial do sismo e tsunâmi de Lisboa de 1755 demonstram que o litoral português, em particular o Algarve e a costa ocidental, está exposto a este risco. O IPMA integra o sistema regional de alerta e existem planos de emergência para zonas costeiras vulneráveis.
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