Dor Abdominal: Principais Causas e Quando Procurar Ajuda
A dor abdominal é um dos sintomas mais frequentes que levam as pessoas a procurar uma consulta médica ou o serviço de urgência. Pode surgir por motivos triviais, como um simples excesso alimentar, ou sinalizar uma situação grave que exige intervenção imediata. Como o abdómen alberga múltiplos órgãos — estômago, intestinos, fígado, vesícula biliar, pâncreas, rins e, nas mulheres, os órgãos reprodutores — a lista de causas possíveis é extensa. Perceber os padrões mais comuns e reconhecer os sinais de alarme é essencial para saber quando basta observar em casa e quando é necessário procurar avaliação médica sem demora.
Causas digestivas mais comuns
A maioria dos episódios de dor abdominal tem origem em problemas digestivos benignos e transitórios. Entre os mais frequentes contam-se:
- Dispepsia funcional (má digestão): sensação de aperto, ardor ou desconforto na parte superior do abdómen, muitas vezes associada a náuseas, enfartamento precoce e perda de apetite.
- Gastrite: inflamação da mucosa do estômago, habitualmente provocada pela bactéria Helicobacter pylori, pelo uso prolongado de anti-inflamatórios ou pelo consumo excessivo de álcool.
- Síndrome do intestino irritável: condição crónica, com duração superior a três meses, que causa dor associada a alterações do trânsito intestinal (diarreia, obstipação ou alternância entre ambas) e distensão abdominal.
- Obstipação: acumulação de fezes no intestino, comum e frequentemente ligada a dieta pobre em fibra, sedentarismo ou baixa ingestão de água.
- Refluxo gastroesofágico: pode manifestar-se como dor ou ardor na zona superior do abdómen e no peito, sobretudo após as refeições ou deitado.
Nestes casos, a dor costuma ser ligeira a moderada, oscila com as refeições e não impede as atividades do dia a dia.
Causas que exigem maior atenção
Existe um conjunto de condições que, embora menos frequentes, correspondem a emergências ou urgências médicas e não devem ser subestimadas:
- Apendicite aguda: inflamação do apêndice que provoca dor intensa, tipicamente iniciada junto ao umbigo e depois localizada no quadrante inferior direito do abdómen, acompanhada de febre, náuseas e vómitos. Requer, em regra, cirurgia.
- Litíase biliar (pedras na vesícula): causa dor em cólica sob as costelas do lado direito, que pode irradiar para as costas ou o ombro, frequentemente desencadeada por refeições gordurosas.
- Pancreatite aguda: inflamação do pâncreas, associada a cálculos biliares ou consumo excessivo de álcool, com dor intensa na região superior do abdómen que pode irradiar em faixa para as costas.
- Diverticulite: inflamação de pequenas bolsas na parede do cólon, mais comum a partir da meia-idade, com dor localizada geralmente do lado esquerdo e febre.
- Obstrução intestinal: impede a passagem normal de gases e fezes, causando dor em cólica, distensão e vómitos.
- Cálculos renais: provocam dor tipo cólica muito intensa, que se inicia na região lombar e pode irradiar para a virilha.
- Causas ginecológicas: quistos ováricos, gravidez ectópica ou doença inflamatória pélvica podem causar dor abdominal baixa nas mulheres, por vezes de instalação súbita.
Localização da dor e possíveis causas
A zona onde a dor se manifesta ajuda a orientar o diagnóstico, embora nunca seja, por si só, conclusiva:
- Abdómen superior direito: problemas da vesícula biliar ou do fígado.
- Abdómen superior esquerdo ou central: gastrite, úlcera péptica ou pancreatite.
- Abdómen inferior direito: apendicite.
- Abdómen inferior esquerdo: diverticulite ou obstipação.
- Dor difusa por todo o abdómen: gastroenterite, obstrução intestinal ou, em casos graves, peritonite.
Quando procurar as urgências
Nem toda a dor abdominal exige atendimento imediato, mas há sinais que não devem ser ignorados. Deve procurar-se avaliação urgente perante:
- Dor súbita, muito intensa (acima de 7 numa escala de 0 a 10) que não alivia com analgésicos habituais;
- Dor que agrava progressivamente ao longo de horas, ou que piora com o movimento e o toque no abdómen, que fica rígido;
- Febre alta (superior a 38,5°C) associada à dor;
- Sinais de choque: palidez, suor frio, extremidades frias, tonturas ou desmaio;
- Vómitos persistentes com sangue ou com aspeto de borra de café;
- Ausência total de gases e fezes durante mais de 24 horas;
- Dor abdominal em mulher grávida;
- Dor que se estende ao peito, pescoço ou ombro, ou que surge com dificuldade respiratória.
Por outro lado, uma dor ligeira a moderada, que não impede as atividades habituais nem o sono, e que surge isolada ou acompanhada apenas de sintomas digestivos leves como azia ou obstipação sem sangue nem febre, pode habitualmente ser observada em casa e discutida com o médico de família caso persista.
Como se chega ao diagnóstico
A avaliação começa sempre pela história clínica e pelo exame físico, com atenção à localização, ao tipo e à intensidade da dor, bem como a sintomas associados como náuseas, vómitos, febre ou alterações do trânsito intestinal. Consoante a suspeita, o médico pode solicitar análises de sangue e urina, ecografia abdominal, tomografia computorizada, endoscopia digestiva ou colonoscopia. Este percurso permite distinguir entre causas benignas e situações que necessitam de tratamento urgente, como a cirurgia em casos de apendicite ou obstrução intestinal.
Perguntas frequentes
A dor abdominal do lado direito é sempre apendicite?
Não. Embora a apendicite seja uma causa importante de dor no quadrante inferior direito, também podem estar em causa problemas da vesícula biliar (quando a dor é no lado superior direito), infeções urinárias, cálculos renais ou, nas mulheres, causas ginecológicas. O diagnóstico definitivo exige avaliação médica.
Quanto tempo pode durar uma dor abdominal antes de ser preocupante?
Uma dor ligeira que melhora em poucas horas raramente é grave. Se persistir mais de 24 a 48 horas, se agravar progressivamente ou vier acompanhada de febre, vómitos persistentes ou alteração do trânsito intestinal, deve procurar-se avaliação médica.
O stress pode causar dor abdominal?
Sim. O eixo entre o cérebro e o intestino faz com que a ansiedade e o stress possam desencadear ou agravar sintomas como dor, distensão e alterações do trânsito, sobretudo em pessoas com síndrome do intestino irritável.
Que exames são normalmente pedidos para investigar dor abdominal persistente?
Consoante a suspeita clínica, podem ser pedidas análises de sangue e urina, ecografia abdominal, tomografia computorizada, endoscopia digestiva alta ou colonoscopia.
A dor abdominal na gravidez deve ser sempre avaliada?
Sim. Qualquer dor abdominal significativa durante a gravidez deve ser avaliada com brevidade, uma vez que pode estar associada a complicações que exigem intervenção rápida.