O que as Linhas de Nazca revelam sobre a sua origem
As Linhas de Nazca, no deserto costeiro do sul do Peru, são um dos conjuntos de geoglifos mais estudados do mundo. Gravadas no solo entre cerca de 500 a.C. e 500 d.C. pela cultura nazca, formam figuras geométricas, animais e plantas que só se revelam por inteiro quando observadas do ar. Décadas de escavações arqueológicas, análises de pólen e, mais recentemente, inteligência artificial aplicada a imagens aéreas, permitiram reconstruir não só a técnica usada para as criar, mas também o propósito social e religioso que esteve na sua origem.
Quem criou as Linhas de Nazca e quando
O consenso científico atribui a autoria dos geoglifos à cultura nazca, uma sociedade pré-inca que se desenvolveu nos vales costeiros do sul do Peru aproximadamente entre 500 a.C. e 500 d.C. A datação resulta do cruzamento de cerâmica encontrada junto às linhas, de análises de radiocarbono a postes de madeira associados a alguns desenhos e da continuidade estilística com a olaria nazca, cujos motivos — colibris, macacos, baleias-orca, aranhas — coincidem com os representados no deserto. Esta cronologia afasta hipóteses anteriores que ligavam as linhas a culturas posteriores, como os incas, confirmando que se trata de uma criação várias centenas de anos mais antiga.
Como foram feitas: a técnica por detrás dos geoglifos
A planície de Nazca é coberta por uma fina camada de pedras escurecidas pela oxidação, sobre um solo mais claro. Os nazca exploraram esse contraste de duas formas: retirando essa camada superficial escura para expor a terra clara por baixo, ou acumulando pedras numa tonalidade diferente para desenhar bordas e contornos. O clima extremamente seco e a quase ausência de vento e chuva na região permitiram que estas marcas se mantivessem visíveis durante séculos, em vez de se apagarem em poucos anos.
Quanto ao método de traçado, estudos arqueológicos mostram que as figuras maiores foram provavelmente planeadas a partir de modelos à escala reduzida, ampliados no terreno com recurso a estacas e cordas fixas em pontos de referência. Não era necessário sobrevoar o local para desenhar com precisão: a proporcionalidade das figuras pode ser obtida a partir do solo, com sistemas simples de medição angular.
Que função tinham: as principais teorias
Ao longo do século XX, surgiram várias hipóteses sobre o propósito das linhas, hoje avaliadas com graus de aceitação muito diferentes pela comunidade científica:
- Calendário astronómico — defendida pelo arqueólogo norte-americano Paul Kosok, que em 1941 notou alinhamentos entre algumas linhas e o nascer ou o pôr do sol em datas específicas, e desenvolvida depois pela matemática alemã Maria Reiche, que dedicou décadas ao estudo do sítio e propôs que o conjunto funcionava como um observatório solar gigantesco, capaz de marcar solstícios e equinócios.
- Caminhos e rituais de peregrinação — interpretação hoje mais aceite pela arqueologia, segundo a qual muitas linhas retas não eram desenhos para serem vistos do alto, mas sim percursos efetivamente percorridos a pé em procissões religiosas, ligando aldeias a santuários e a montanhas consideradas sagradas, associadas à fertilidade e à água.
- Culto à água e à agricultura — teoria que relaciona as linhas com rituais destinados a invocar a chuva, numa região onde a sobrevivência dependia de um sistema escasso de água subterrânea e de aquedutos (os chamados puquios), também construídos pelos nazca.
- Origem extraterreste — popularizada por Erich von Däniken na década de 1960, esta hipótese não tem qualquer sustentação arqueológica e é rejeitada de forma unânime pela comunidade científica, que dispõe de provas claras da autoria humana e da finalidade ritual dos geoglifos.
A leitura atual tende a combinar estas explicações: as linhas retas funcionariam como vias cerimoniais, enquanto as figuras zoomórficas de maiores dimensões marcariam pontos de início, fim ou paragem dessas peregrinações, junto a locais onde se realizavam rituais comunitários.
O que a inteligência artificial veio acrescentar
Entre 2024 e 2025, uma equipa do Instituto Nazca da Universidade de Yamagata, no Japão, liderada pelo arqueólogo Masato Sakai, em colaboração com a IBM Research, aplicou modelos de aprendizagem profunda à análise de milhares de fotografias aéreas e imagens de drones do deserto. O sistema identificou áreas com elevada probabilidade de conter geoglifos ainda não catalogados, permitindo às equipas de campo confirmar 303 novas figuras — um aumento de cerca de 40% no total de geoglifos conhecidos no local. Os resultados foram apresentados publicamente na Expo 2025, em Osaca.
Este levantamento trouxe um dado relevante para a questão da origem e função das linhas: ao contrário dos grandes geoglifos clássicos, visíveis a quilómetros de distância, muitas das novas figuras identificadas são de pequena escala, mais discretas, e localizam-se junto a trilhos e encostas usados para deslocação a pé. A equipa de Sakai verificou ainda que os desenhos de animais de grande porte tendem a concentrar-se nos pontos de partida e chegada de percursos de peregrinação, junto a sítios sagrados, enquanto os motivos de menor dimensão — figuras humanas, lamas, peixes, plantas e até uma orca empunhando uma arma — parecem ter sido criados por indivíduos ou pequenos grupos, possivelmente como mensagens dirigidas a quem passava por esses caminhos.
Este padrão reforça a interpretação de que as linhas de Nazca não resultavam de um único projeto centralizado, mas de uma prática cultural sustentada ao longo de gerações, com diferentes comunidades a contribuir para uma rede de caminhos e marcas rituais espalhada pelo planalto.
Reconhecimento e estado de conservação
Em 1994, a UNESCO classificou as Linhas e Geoglifos de Nazca e de Palpa como Património Mundial da Humanidade, reconhecendo simultaneamente o seu valor arqueológico e a fragilidade do sítio perante a erosão, o tráfego de veículos e a expansão urbana e agrícola na região. O trabalho de preservação iniciado por Maria Reiche, que viveu junto ao deserto durante décadas para proteger e estudar as figuras, continua hoje através de programas de monitorização que combinam vigilância no terreno com tecnologias de deteção remota, incluindo os métodos de inteligência artificial que têm permitido ampliar de forma significativa o número de geoglifos conhecidos.
Perguntas frequentes
Quem fez as Linhas de Nazca?
Foram criadas pela cultura nazca, uma sociedade pré-inca que habitou os vales costeiros do sul do Peru entre aproximadamente 500 a.C. e 500 d.C., como confirmam achados de cerâmica e datações por radiocarbono associadas aos geoglifos.
As Linhas de Nazca podem ser vistas a partir do solo?
As linhas retas e trilhos podem ser percorridos e parcialmente percebidos a pé, mas a maioria das figuras de grande escala só é totalmente identificável a partir do ar, o que sustenta a teoria de que tinham um significado ritual associado a percursos, mais do que a uma representação destinada a um observador aéreo.
É verdade que as Linhas de Nazca foram feitas por extraterrestres?
Não. Essa hipótese, popularizada na década de 1960, não tem qualquer base científica. As evidências arqueológicas, incluindo ferramentas, cerâmica e a continuidade estilística com a cultura nazca, confirmam a autoria humana dos geoglifos.
Quantos geoglifos de Nazca são hoje conhecidos?
Após a descoberta de 303 novas figuras anunciada por uma equipa da Universidade de Yamagata e da IBM Research, com recurso a inteligência artificial, o número total de geoglifos catalogados no planalto de Nazca aumentou cerca de 40% em relação ao que era conhecido anteriormente.
Porque é que as Linhas de Nazca são Património Mundial da UNESCO?
A UNESCO atribuiu este estatuto em 1994, reconhecendo o valor arqueológico único do sítio e a necessidade de o proteger da erosão e da pressão humana crescente na região do deserto costeiro peruano.